Gosto
de receber em casa, mas o correr dos anos aumentou a lavoura prévia. Estou mais
lenta; o vento descompõe em minutos os brunidos de rua; as horas na cozinha triplicam. Ele são
bolos, saladas, entradas, acompanhamentos, temperos de carne e peixe. E mais a
verificação de vinhos, pão, fruta... as visitas almoçam e perdem direito a sair
sem jantar. Outra exigência de mim para comigo é a execução atempada das
refeições. Recuso pressas e frenesim de nervos que aumentam na proporção de
horas em fuga esgalgada. Estas conquistas arranco-as às madrugadas e a um já célebre café. Sem tempo e cafeína vão-se-me boas
maneiras e acepipes. Se alguém pensa em visitas súbitas, desista. De duas uma:
ou entra de faxina, ou corre sério risco da simplicidade alimentar de uma açorda ou migas de azeite; que o pão, já se
sabe, é essência alentejana. Falam das carnes de porco, mas é tudo história. Pão
é o que sempre houve e há-de haver em qualquer montesinho de cacaracá. E
entende-se porquê.
Mas, quando a casa silencia, fica-me um vazio cansado, coisa que se não preenche de enfiada nem se pode saltar. Vivido a seco e sem abébias de cafeína, chega a durar dias.
Restolho onde nada medra, não há a teimosia verde de uma erva simples. Então,
ressaltam-me os oceanos profanados, os peixes em extinção, os equilíbrios
marítimos destruídos; as terras cansadas de produções intensivas e não
adequadas que as exaurem; a rebelião natural dos elementos que se repete cada
vez com mais frequência e destrói sem apelo. Vamos ainda a tempo, dizem os
cientistas. Clamam a necessidade de mudanças drásticas para salvarmos o planeta
que é dizer, salvarmo-nos a todos. Não sei ainda bem o que adiantou a João
Baptista pregar no deserto, sempre me pareceu desperdício de tempo. Pode ser
que me engane, que seja do tal vazio a perturbar-me as meninges, mas soa-me idêntica
a voz científica, andam a pregar no deserto. Insurgências feitas de palavras,
cingidas a esse reduto, esterilizam e são zero. Pois. Há os movimentos juvenis.
Há Gretta. E a esperança está no futuro. Malogradamente, a esperança tem que
estar no presente e não depende já da natureza. Depende de nós que somos a raiz
do mal; o poder de emendar está do lado dos homens. E o homem que existe, digo
eu, não leva a sério a ameaça, não está para isso de inverter a marcha
acelerada para o abismo. Não quer mudar.
De que serve o conhecimento...
Olhe que eu sinto o mesmo... Bj
ResponderEliminar:). Digamos que me habituo melhor ou pior aos meus próprios abismos. Mas este abismo colectivo para que marchamos, desarruma-me as fundações.
EliminarUm texto muito bem escrito, com humor, sentimento e reflexão. Uma boa semana.
ResponderEliminarUm beijo.
Obrigada, Graça.
EliminarA tratar tão bem as visitas, imagino que devem fazer fila. Até eu não me importava :)
ResponderEliminarPois já me tinha apercebido, por aqui e por ali, que a escriba andava fatigada... a genti vai ganhando o jeito né?
E, sobre o esmero e o cuidado que põe em tudo o que faz apetece-me citar Marco Aurélio quando diz:
É típico do homem comum ser exigente com os outros e próprio dos homens superiores serem existentes consigo mesmos.
Quanto ao segundo tema, fica para depois, que já me doem as meninges.
E quem não as trata bem?! Só quem as não quer ter.
ResponderEliminarNão fazem fila, mas julgo que gostem de me ver. É sempre um prazer rever e estar com quem gostamos e vemos pouco.
Há fadigas insondáveis e vitalícias:), já ganhei hábito. Talvez nem sejam apenas fadiga, fazem-se acompanhar de compridas secções de desesperança.
Quem tem boa mesa arrisca-se a ter muitas visitas...
ResponderEliminarEm matéria ambiental há mesmo muita gente a pregar no deserto. Há algumas mudanças, mas são pequeníssimas e lentas, pelo que, se as previsões estiverem correctas, estamos fritos...
Já não vinha aqui há imenso tempo, mas gostei de voltar.
Boa semana, beijo.
Obrigada, Jaime.
EliminarNem de propósito, hoje abordo mais um tema que nos pode conduzir nesse caminho para o abismo.
ResponderEliminarBoa semana
Há coincidências:)
ResponderEliminarBoa semana, Pedro
Parece que não que o conhecimento não chega, só a experiência...Mas será que temos que cair no abismo para depois mudar os comportamentos? E será possível, uma vez aí chegados, sair ?...Um abraço.
ResponderEliminarProsa, mesmo deseperançada, há sempre uma semente que fica e há-de verdejar por algum lado de mim. Portanto, suponho que penso com o desejo que tenho, o de não chegarmos a entrar nesse vórtice de abismo sem saída. Não sei que força é essa que há-de parar os homens e fazê-los arrepiar caminho. Mas espero nela como se há-de esperar num Deus. Já me vai parecendo um exercício superior à força humana.
ResponderEliminar