segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Falta de Sentido


Gosto de receber em casa, mas o correr dos anos aumentou a lavoura prévia. Estou mais lenta; o vento descompõe em minutos os brunidos de  rua; as horas na cozinha triplicam. Ele são bolos, saladas, entradas, acompanhamentos, temperos de carne e peixe. E mais a verificação de vinhos, pão, fruta... as visitas almoçam e perdem direito a sair sem jantar. Outra exigência de mim para comigo é a execução atempada das refeições. Recuso pressas e frenesim de nervos que aumentam na proporção de horas em fuga esgalgada. Estas conquistas  arranco-as às madrugadas e a um já célebre  café. Sem tempo e cafeína vão-se-me boas maneiras e acepipes. Se alguém pensa em visitas súbitas, desista. De duas uma: ou entra de faxina, ou corre sério risco da simplicidade alimentar de uma  açorda ou migas de azeite; que o pão, já se sabe, é essência alentejana. Falam das carnes de porco, mas é tudo história. Pão é o que sempre houve e há-de haver em qualquer montesinho de cacaracá. E entende-se porquê.
Mas, quando a casa silencia, fica-me um vazio  cansado, coisa que se não preenche de enfiada nem se pode saltar. Vivido a seco e sem abébias de cafeína, chega a durar dias. Restolho onde nada medra, não há a teimosia verde de uma erva simples. Então, ressaltam-me os oceanos profanados, os peixes em extinção, os equilíbrios marítimos destruídos; as terras cansadas de produções intensivas e não adequadas que as exaurem; a rebelião natural dos elementos que se repete cada vez com mais frequência e destrói sem apelo. Vamos ainda a tempo, dizem os cientistas. Clamam a necessidade de mudanças drásticas para salvarmos o planeta que é dizer, salvarmo-nos a todos. Não sei ainda bem o que adiantou a João Baptista pregar no deserto, sempre me pareceu desperdício de tempo. Pode ser que me engane, que seja do tal vazio a perturbar-me as meninges, mas soa-me idêntica a voz científica, andam a pregar no deserto. Insurgências feitas de palavras, cingidas a esse reduto, esterilizam e são zero. Pois. Há os movimentos juvenis. Há Gretta. E a esperança está no futuro. Malogradamente, a esperança tem que estar no presente e não depende já da natureza. Depende de nós que somos a raiz do mal; o poder de emendar está do lado dos homens. E o homem que existe, digo eu, não leva a sério a ameaça, não está para isso de inverter a marcha acelerada para o abismo.  Não quer mudar. De que serve o conhecimento...

12 comentários:

  1. Respostas
    1. :). Digamos que me habituo melhor ou pior aos meus próprios abismos. Mas este abismo colectivo para que marchamos, desarruma-me as fundações.

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  2. Um texto muito bem escrito, com humor, sentimento e reflexão. Uma boa semana.
    Um beijo.

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  3. A tratar tão bem as visitas, imagino que devem fazer fila. Até eu não me importava :)
    Pois já me tinha apercebido, por aqui e por ali, que a escriba andava fatigada... a genti vai ganhando o jeito né?
    E, sobre o esmero e o cuidado que põe em tudo o que faz apetece-me citar Marco Aurélio quando diz:
    É típico do homem comum ser exigente com os outros e próprio dos homens superiores serem existentes consigo mesmos.
    Quanto ao segundo tema, fica para depois, que já me doem as meninges.

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  4. E quem não as trata bem?! Só quem as não quer ter.
    Não fazem fila, mas julgo que gostem de me ver. É sempre um prazer rever e estar com quem gostamos e vemos pouco.
    Há fadigas insondáveis e vitalícias:), já ganhei hábito. Talvez nem sejam apenas fadiga, fazem-se acompanhar de compridas secções de desesperança.

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  5. Quem tem boa mesa arrisca-se a ter muitas visitas...
    Em matéria ambiental há mesmo muita gente a pregar no deserto. Há algumas mudanças, mas são pequeníssimas e lentas, pelo que, se as previsões estiverem correctas, estamos fritos...
    Já não vinha aqui há imenso tempo, mas gostei de voltar.
    Boa semana, beijo.

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  6. Nem de propósito, hoje abordo mais um tema que nos pode conduzir nesse caminho para o abismo.
    Boa semana

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  7. Há coincidências:)
    Boa semana, Pedro

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  8. Parece que não que o conhecimento não chega, só a experiência...Mas será que temos que cair no abismo para depois mudar os comportamentos? E será possível, uma vez aí chegados, sair ?...Um abraço.

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  9. Prosa, mesmo deseperançada, há sempre uma semente que fica e há-de verdejar por algum lado de mim. Portanto, suponho que penso com o desejo que tenho, o de não chegarmos a entrar nesse vórtice de abismo sem saída. Não sei que força é essa que há-de parar os homens e fazê-los arrepiar caminho. Mas espero nela como se há-de esperar num Deus. Já me vai parecendo um exercício superior à força humana.

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