Tia
Emília foi velada em casa, sem cheiro de velas, presença de santos ou orações
de padre. A vizinhança e a prima. Poupado
a pormenores de exéquias, apenas fui levado a despedir-me. Tudo em casa que fora
minha me surgiu estranho. Cadeiras e bancos tinham sido arrastados para a sala
esvaziada do seu natural e encontravam-se perfilados contra as quatro paredes
de mistura com assentos desirmanados e artesanais, pertences desta e daquela
vizinha. A meio, sobre uma cama feita com os moxos em que nos sentávamos à
lareira, uma comprida caixa de madeira com duas portinhas a descair, toda
forrada a cetins de alvura e brilho convidativos. Mais próximo, entrevi as
rendas da almofada e tia Emília dentro da caixa. Muito bem posta e penteada. Era
como se dormisse mas toda bem vestida, a cabeça a repousar sobre aquela
brancura rendada. A palidez impressionava, um tom amarelado por toda a pele,
pescoço, mãos, rosto. Tanta vez a fora
espreitar tomada pelo mistério do sono, ressonando cadenciada e agora nem um
som além das fungadelas das mulheres num pico de comoção. Não entendi a razão,
mas pareciam desconhecer que a minha tia Emília já não morava ali.
Lamentavam-me. E eu sabia que a velhota partira levando com ela a nossa casa.
Só para me certificar, avancei a mão e aflorei o rosto com os dedos. Não estava
ali de certeza. A minha tia Emília falava, ria e não parava quieta, havia um
calor na sua presença que toda a gente notava.
Aquela dentro da caixa estava fria e dura como pedra. Retirei a mão numa
pressa e saí a correr, as fungadelas mais acesas, os lenços de assoar em
serviço e por certo que em tom condoído, coitadinho.
Depois,
quando o lugar se despovoou para o funeral e restavam apenas velhos
trôpegos e crianças, juntámo-nos em
bando triste e debandámos a barreira vazia; o pinhal quieto, uma pinha ou outra
a arreganhar, e nós sem trepar, adivinhando os pássaros pelo canto; o convite
das árvores do caminho desejando as nossas pernas a subi-las para depois nos lançarmos
de árvore em árvore como macacos; uma carroça ou outra que passava e
acompanhávamos numa corrida até à curva; o automóvel que nos desviava do
alcatrão e admirávamos em uníssono.
Fazia
calor e a aragem trazia-nos o cheiro misturado a mato, eucalipto e pinheiro. Que
entrava em nós como um bálsamo. Sem palavra, todos o sabíamos, cumpríamos um
ritual de separação, cortávamos com a infância. Ou talvez fosse cerimónia
pessoal que eles acompanhavam. O certo é que nenhum perguntou, o que fazemos à
tarde; ninguém sugeriu, e se formos espreitar as cegonhas ao moinho de vento;
não houve voz a inquirir, a que horas nos juntamos na barreira.
De velórios em casa só me lembro de um, vai para mais de trinta anos. Outros tempos.
ResponderEliminarBoa Tarde, Luísa
Eliminarsuponho que já não se permitam velórios caseiros, está tudo leofilizado e é melhor que assim seja. Finalmente legislou-se em consonância e terminou o suplício de uma noite em claro. Os mortos não precisam de nós, e se alguns de nós precisamos deles, não é enquanto mortos que os vemos e chamamos.
Pungente, admirável, belíssimo!
ResponderEliminarSe fosse num livro ficaria cheio de sublinhados, tantas foram as memórias despertadas em mim por muitas das suas frases.
Que magnífica professora deve ter sido, bea.
⚘
Fui uma professora normal, mas com boa relação com os alunos. Talvez porque levava o tempo a enchê-los de projectos e actividades extra disciplina curricular e que bastante nos uniram; gastámos juntos muita hora extra. Foi tempo de boa memória no que respeita a alunos.
EliminarA Maria hoje abusou da adjectivação:).
De modo nenhum, até fiquei muito aquém...
EliminarA bea é que hoje abusou do uso (abusou do uso?!?) de palavras mágicas.
Mas prometo não me esticar tanto nos próximos comentários ;)))
Dias felizes.
⚘
Não gosto de velórios pois muitas vezes... o ruído dá lugar ao silêncio, o riso substitui o choro e o lamento vira cusquice!!!
ResponderEliminarNão gosto... aliás detesto!... mas respeito que o faz!
Bj e gosto da partilha
Ninguém, excepto o proprietário da funerária, gosta de velórios, Gracinha. Velar os mortos é dever dos vivos e acompanhar a família enlutada também. Mas é impossível estar horas em silêncio. É ritual que, se abolido, nada se perdia. Toda a gente morre sozinha, mas nem toda a sós (diria que hoje a maioria morre mesmo a sós) e depois de morto achamos necessário acompanhar. Somos um poço de contradições.
ResponderEliminarBoa noite:)
O fim de um era que coincide com o fim de uma crónica.
ResponderEliminarUma era, obviamente
ResponderEliminarOu apenas uma etapa.
ResponderEliminarEm quem fica, o sentimento permanece. Tal e qual como os escravos e os donos das terras e casas. O imaginário enche-se com eles, sem diferença de castas. O nada que nos acolhe a todos e, por vezes, escavando no tempo, é recordado. Tal faço eu, andando entre ruínas e nunca esquecendo "os que ali viveram".
ResponderEliminarO primeiro corpo que vi morto foi o Padre Américo. 1956. A bondade era uma auréloa e isso divinizava-o. Todos os outros dispenso, tirando os meus a que sou obrigada. A morte é um lugar solitário.
bettips, o culto da história julgo eu, não é o culto de tempos idos, mas dos homens. O que procuramos noutro tempo são os homens, interessam-nos no que resta dos sinais que deixaram. O tempo é a sujeição comum, o estigma, ferrete que nos marca para a vida.
ResponderEliminarBom Dia
Rituais de separação. Sempre tristes e misteriosos. Mas você tem uma narrativa excelente…
ResponderEliminarUma boa semana.
Um beijo.
É isso mesmo, Graça, rituais de separação.
EliminarAbraço
Bea, de vez em quando vem-me à memória este episódio, pensando no destino que tecerá para o rapazinho. Coitadinho! Assim ver concretizar-se o "para sempre" da morte, com testemunho irrefutável da cor amarelada e gélida da tia Emília. Continuo a cismar no destino que lhe reserva.
ResponderEliminarBoa semana.
:)). Há-de ver-se, Nina.
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