terça-feira, 24 de setembro de 2019

Carrossel


Tia Emília foi velada em casa, sem cheiro de velas, presença de santos ou orações de padre. A vizinhança e a prima.  Poupado a pormenores de exéquias, apenas fui levado a despedir-me. Tudo em casa que fora minha me surgiu estranho. Cadeiras e bancos tinham sido arrastados para a sala esvaziada do seu natural e encontravam-se perfilados contra as quatro paredes de mistura com assentos desirmanados e artesanais, pertences desta e daquela vizinha. A meio, sobre uma cama feita com os moxos em que nos sentávamos à lareira, uma comprida caixa de madeira com duas portinhas a descair, toda forrada a cetins de alvura e brilho convidativos. Mais próximo, entrevi as rendas da almofada e tia Emília dentro da caixa. Muito bem posta e penteada. Era como se dormisse mas toda bem vestida, a cabeça a repousar sobre aquela brancura rendada. A palidez impressionava, um tom amarelado por toda a pele, pescoço, mãos, rosto.  Tanta vez a fora espreitar tomada pelo mistério do sono, ressonando cadenciada e agora nem um som além das fungadelas das mulheres num pico de comoção. Não entendi a razão, mas pareciam desconhecer que a minha tia Emília já não morava ali. Lamentavam-me. E eu sabia que a velhota partira levando com ela a nossa casa. Só para me certificar, avancei a mão e aflorei o rosto com os dedos. Não estava ali de certeza. A minha tia Emília falava, ria e não parava quieta, havia um calor na sua presença que toda a gente notava.  Aquela dentro da caixa estava fria e dura como pedra. Retirei a mão numa pressa e saí a correr, as fungadelas mais acesas, os lenços de assoar em serviço e por certo que em tom condoído, coitadinho.
Depois, quando o lugar se despovoou para o funeral e restavam apenas velhos trôpegos  e crianças, juntámo-nos em bando triste e debandámos a barreira vazia; o pinhal quieto, uma pinha ou outra a arreganhar, e nós sem trepar, adivinhando os pássaros pelo canto; o convite das árvores do caminho desejando as nossas pernas a subi-las para depois nos lançarmos de árvore em árvore como macacos; uma carroça ou outra que passava e acompanhávamos numa corrida até à curva; o automóvel que nos desviava do alcatrão e admirávamos em uníssono.
Fazia calor e a aragem trazia-nos o cheiro misturado a mato, eucalipto e pinheiro. Que entrava em nós como um bálsamo. Sem palavra, todos o sabíamos, cumpríamos um ritual de separação, cortávamos com a infância. Ou talvez fosse cerimónia pessoal que eles acompanhavam. O certo é que nenhum perguntou, o que fazemos à tarde; ninguém sugeriu, e se formos espreitar as cegonhas ao moinho de vento; não houve voz a inquirir, a que horas nos juntamos na barreira.

16 comentários:

  1. De velórios em casa só me lembro de um, vai para mais de trinta anos. Outros tempos.

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    1. Boa Tarde, Luísa
      suponho que já não se permitam velórios caseiros, está tudo leofilizado e é melhor que assim seja. Finalmente legislou-se em consonância e terminou o suplício de uma noite em claro. Os mortos não precisam de nós, e se alguns de nós precisamos deles, não é enquanto mortos que os vemos e chamamos.

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  2. Pungente, admirável, belíssimo!
    Se fosse num livro ficaria cheio de sublinhados, tantas foram as memórias despertadas em mim por muitas das suas frases.
    Que magnífica professora deve ter sido, bea.

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    1. Fui uma professora normal, mas com boa relação com os alunos. Talvez porque levava o tempo a enchê-los de projectos e actividades extra disciplina curricular e que bastante nos uniram; gastámos juntos muita hora extra. Foi tempo de boa memória no que respeita a alunos.
      A Maria hoje abusou da adjectivação:).

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    2. De modo nenhum, até fiquei muito aquém...
      A bea é que hoje abusou do uso (abusou do uso?!?) de palavras mágicas.
      Mas prometo não me esticar tanto nos próximos comentários ;)))
      Dias felizes.

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  3. Não gosto de velórios pois muitas vezes... o ruído dá lugar ao silêncio, o riso substitui o choro e o lamento vira cusquice!!!
    Não gosto... aliás detesto!... mas respeito que o faz!
    Bj e gosto da partilha

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  4. Ninguém, excepto o proprietário da funerária, gosta de velórios, Gracinha. Velar os mortos é dever dos vivos e acompanhar a família enlutada também. Mas é impossível estar horas em silêncio. É ritual que, se abolido, nada se perdia. Toda a gente morre sozinha, mas nem toda a sós (diria que hoje a maioria morre mesmo a sós) e depois de morto achamos necessário acompanhar. Somos um poço de contradições.
    Boa noite:)

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  5. O fim de um era que coincide com o fim de uma crónica.

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  6. Em quem fica, o sentimento permanece. Tal e qual como os escravos e os donos das terras e casas. O imaginário enche-se com eles, sem diferença de castas. O nada que nos acolhe a todos e, por vezes, escavando no tempo, é recordado. Tal faço eu, andando entre ruínas e nunca esquecendo "os que ali viveram".
    O primeiro corpo que vi morto foi o Padre Américo. 1956. A bondade era uma auréloa e isso divinizava-o. Todos os outros dispenso, tirando os meus a que sou obrigada. A morte é um lugar solitário.

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  7. bettips, o culto da história julgo eu, não é o culto de tempos idos, mas dos homens. O que procuramos noutro tempo são os homens, interessam-nos no que resta dos sinais que deixaram. O tempo é a sujeição comum, o estigma, ferrete que nos marca para a vida.
    Bom Dia

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  8. Rituais de separação. Sempre tristes e misteriosos. Mas você tem uma narrativa excelente…
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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    1. É isso mesmo, Graça, rituais de separação.
      Abraço

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  9. Bea, de vez em quando vem-me à memória este episódio, pensando no destino que tecerá para o rapazinho. Coitadinho! Assim ver concretizar-se o "para sempre" da morte, com testemunho irrefutável da cor amarelada e gélida da tia Emília. Continuo a cismar no destino que lhe reserva.
    Boa semana.

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