Sentimentos
e emoções opostos são unicidade que dualiza na vida dos homens. Tia Emília estendeu a mão
e ganhou-me para a vida, mas foi também com ela que experimentei a perda. Estamos
destinados a perder tudo ou, como gostamos de pensar, a despojar-nos de
mundo. A verdade é que perdemos, é a vida quem
tira, subtrai, rouba. Vivemos a
aprender, de perda em perda. E mais se aprende com o sofrimento do que com as
alegrias, mas há aprendizagens desnecessárias por exorbitantes e demasiado intrusivas.
Pode a má sorte marcar-nos para elas. Ou não é mal universal e o que há é gente incapaz de finais felizes, que não
segura a sua gota de água, escorre antes de ser usada; gente que perde os
sapatos no caminho e faz muita vida descalça. Tem mais história, essa gente a que pertenço. Que em todos os caminhos
há troços simples, planos, lisos; e troços que se enchem de apertadas curvas e
contracurvas; caminhos existem que bifurcam e metem uns nos outros e os nós de
junção e separação pedem maior cuidado, atenção extra. Decerto me faltou essa
atenção cuidadosa e extraviei. Tia Emília, quando se desorientava e não acertava com o
lugar pretendido, dizia ter almariado; talvez eu tenha almariado na
vida. Mas não no troço que nos juntou. Vivíamos em linha recta, eu, na certeza
de que ela era eterna. Na época em que preparava as festas de casamento, atordoava-me
a sua ausência. E apesar de ter por certo o regresso, já esses três dias eram os maiores do ano.
Mal acordei no dia seguinte, os factos impuseram-se. Fixos. Definitivos. Encontrava-me deitado no chão de uma casa com cheiros desconhecidos e
nada da mesa quinane com o pequeno almoço. Não havia água aquecida para
abluções matinais, nem peças de roupa lavada a olharem-me da cadeira. Não havia
cadeira. Enovelado na lã de ovelha de um colchão velho, lembrei o dia anterior
e a ideia feriu-me de tão nua, estava sozinho. Sozinho a vestir, calçar, lavar. Sozinho era termo de que eu
nem atingia o tamanho, ultrapassava a minha debilitada compreensão e avivava tristeza e desconcerto.
Um texto que retrata fielmente o horror que é a solidão.
ResponderEliminarEstive a reler e, como texto, acho-o fraco. A solidão é lugar claustrofóbico e que desapetece, falta-lhe luz e mãos estendidas. Mas existe e não é eterna:)
ResponderEliminarBom dia, Pedro
Existe em muito coração...em muita mente e em muito viver!
ResponderEliminar👏👏👏👏👏
É mesmo, Gracinha.
EliminarLi e reli este teu «carrossel» e de fraco nada vi...
ResponderEliminarBea, porque escreves tu tanto sobre esse lugar que defines como claustrofóbico?
Não espero resposta, mas fico de mão estendida.
Beijo.
(Meio «almariada», vou pensar no que aqui li.)
Olá Teresa:). É um prazer tê-la de novo connosco.
EliminarNão sei bem, mas suponho que é por ser o que mais encontro nas pessoas e verifico que não tenho remédio que as satisfaça; também por eu mesma ter essa experiência; e por saber que não se foge do que somos e também somos sozinhos. Uns mais que outros porque a vida não é toda igual.
Obrigada pela mão:). Faz falta saber que existe. Pode crer.Mas julgo que a gente não tem mãos que cheguem para atender tanta solidão.
"Almariada" é palavra de muito quid.
A bea não chegou a responder à minha pergunta lá mais atrás, mas eu bem pressentia que a história ainda não tinha terminado...
ResponderEliminarEu por vezes (muitas vezes) digo que "a vida é sempre a perder" e sei do que falo. Não que não tenha tido momentos felizes (que os tive), não que não tenha conseguido alguns pequenos sucessos, mas foi sempre tudo tão difícil, foi preciso sempre tanto sacrifício, tanto remar contra a maré, e foi sempre tudo tão efémero, que talvez tivesse valido mais ter ficado quieta no meu canto.
Há uns bons anos a coisa piorou, têm sido perdas atrás de perdas (humanas e materiais) e a força para tentar reverter a situação desapareceu.
Por isso, bea, me revejo tanto em algumas frases deste seu texto, triste mas muito belo.
E por isso reitero:
A vida é sempre a perder.
(For a happy few não será, mas para a grande maioria é!).
Mas, porém, todavia, contudo, também existem anjos (com ou sem asas, isso não interessa), e ontem um bateu à minha porta.
E só posso estar grata :)
⚘
Sorry por não ter respondido, Maria. Tenho andado um bocadinho deslembrada.
EliminarNa minha opinião, e não é pessimismo, a vida é mesmo para perder (facto de que todos estão cientes). Mas não é sempre a perder, como diz a canção; ainda que cresçamos de perda em perda. Julgo eu que temos de nos gastar nela, esse era, pelo menos, o meu objectivo pessoal. Posso garantir que tenho cumprido fielmente o objectivo, vou morrer completamente avariada. Só espero que escrever - mau grado as artroses - seja uma das últimas avarias. E a mente me não falhe para já.
Também acredito nos anjos humanos. Nem sei se acreditar é a palavra certa, tenho provas concretas de que existem. Mas sou de crenças, portanto, acredito.
Desengane-se, nenhum é alado. Não voam, mas fazem-nos voar e enchem a nossa vida de alegria. Podem ser momentos, mas valem por dias e até anos.
Não me entenda mal, sou grata por viver; não consigo ser grata pelas perdas que mais me marcaram, mas elas determinaram-me a existência. E quantas vezes o facto de haver coisas difíceis me aliciou.
Sempre a resposta certa, bea.
ResponderEliminarBoa noite :)
⚘
Belíssima !
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