sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Carrossel


No regresso, avançávamos silenciosos, fechados em opacidade  contrafeita, pés a arrastarem.  Perto do local de partida e adivinhando propósitos, os meus guardiões atalharam-me o passo, não vás para lá, a mãe disse para não te deixarmos ir que os mortos não servem de companhia. A ausência de tia Emília. O para sempre da morte. Tão débeis os nossos “para sempre” vitais, tão pequenos todos. Mas não este. O para sempre da morte é o único que dura e se mantém, mau grado toda e qualquer circunstância. Tanto queríamos ser eternos e só nos eternizamos no não ser. Ironias e ideias que então não me ocorriam; de dentro dos meus dez anos feitos mergulhava na falta e no seu irremediável mas sem lhes atingir  dimensão. O nunca mais da morte, fui aprendendo depois, insinua-se pela vida como lâmina de faca. Mas naquele momento, ante a concretude de certezas tão desarmantes, os olhos marejavam. Logo o mais novo me aliciou a pretender distrair-me, olha, fiz um carrinho. Anda vê-lo.  Se quiseres, podes baptizá-lo. Segui-o até casa a fungar, a cadelita a ensarilhar-se nas nossas pernas. Mas, quando me passou o brinquedo para a mão, sem que eu percebesse porquê, que até me parecia que me ia aguentar a seco, desatou-se o único pranto da minha vida.
  Sentei-me num caixote, pus a cabeça entre os braços apoiados em mesa de faz de conta e deitei fora todas as lágrimas, expandi o desgosto, a cara a molhar o revestimento plástico. Naquela hora de eclipse, era eu e o desgosto soluçado em alta voz. À medida que o choro se prolongava ia enrouquecendo e, quando estava reduzido a espaçados frémitos soluçantes, sem que desse conta, o cansaço e o alívio levaram-me de vencida. Adormeci.
 Acordei à voz da prima farfalhuda, não sei que faça com o gaiato, ele não é da família e não o quero lá em casa. Sem bulir, ouvi a mãe dos meus amigos falando tão baixo que apenas entendia o sussurro. E ouvi espantado, não, não, a casa desmancha-se que não pago nem um mês de renda; e a ele ponho-o com dono. E depois, como quem matuta no assunto, tornou, há casas que recebem esta gente sem ninguém. Não me responsabilizo por ele. E depois é rapaz,  nem pensar nisso.

14 comentários:

  1. Caramba, bea, que maneira mais trágica de sair da infância; perder tudo assim de um dia para o outro, e depois descobrir que é um empecilho, um ser descartável; e ainda a procissão vai no adro...
    E aquele foi o único pranto da sua vida? Nunca mais chorou? Porque será que não me surpreende?
    Morreu um menino, nasceu um homem; e, como todos sabemos, os homens nunca choram!
    Sábado feliz.

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  2. Bom Dia, Maria:)
    Vou secar-lhe os olhos, sim. As tragédias são mais trágicas lidas, lembradas, a gente puxa por elas e engrandecem na ribalta, o palco do livro todo delas. No acto, são só azares da fortuna a que se tem de responder. Do lugar onde o plantei e nas condições que tinha a vida portuguesa, era desfecho normal, Maria. A reacção reduzia-se a compaixões, coitadinho, o que vai ser do garoto. A compaixão passageira, não transformadora como a da velha Emília. O miúdo sai mesmo do horizonte, e não há mais que esse lastro de compaixão que, mal comparado, é rasto, espuma de barco que se afasta.
    Igualmente, Maria. Sim, vai ser um sábado agradável, uma das minhas luzes vitais vem iluminar-me o dia cinzento e de chuva bem regressada. Fazia falta. Vamos ingressar no Outono e antevê-lo melhor que o verão. Tudo pode ser bom e belo antes de ser:).
    Um sábado repleto de agrados, Maria
    Bom Domingo

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  3. Feliz o momento em que vim espreitar ( como não quer a coisa ) este episódio da tua arte de escrita !
    Podia relevar outras, mas escolho estas linhas para dizer que gostei muito do que acabo de ler.
    " Naquela hora de eclipse, era eu e o desgosto soluçado em alta voz. "

    Que tudo seja como dizes : " Tudo pode ser bom e belo antes de ser. "

    Um beijo amigo antes que seja Domingo.

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  4. Bea, este "carrossel" é tramadote...
    Não fosse a tua arte no entrelaçamento das palavras e lágrimas soluçadas eu derramaria.
    Beijo, bom domingo «repleto de agrados».

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    1. Obrigada, Teresa. Propus-me treinar o tratamento da tristeza e da má sorte, dois elementos tão comuns à vida e que tanto me custam expressar.

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  5. Um carrossel de vida difícil, a deste miúdo.

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    1. É isso, Luísa. Vivemos aos altos e baixos. Menos previsíveis que os do carrossel.

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  6. Bea, sendo pura ficção - como me esclareceu - não deixa de ser uma narrativa poderosa, punjente, muito próxima da realidade- infelizmente.
    Espero que ao desenrolar este novelo determine uma saída caridosa para o rapazinho.
    Tenha uma boa tarde.

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    1. Subtraindo géneros específicos, parece-me que toda a história aspira a ser verdade e eu digo mesmo que se a "estamos mesmo a ver" à medida que lemos, para nós é verdadeira.
      Ninguém é feliz ou infeliz o tempo todo, Nina. Assim é o carrossel da vida.

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  7. A sua imaginação é que é um verdadeiro carrossel.
    Boa semana

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    1. Viajamos no carrossel da vida, Pedro. O meu imaginário, como o de toda a gente, apanha gestos e formas aqui e ali.

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  8. Um texto excelente! Não só pelo imaginário mas pela emoção posta nas palavras…
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  9. Boa semana, Graça. Muito obrigada.

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