No
regresso, avançávamos silenciosos, fechados em opacidade contrafeita, pés a arrastarem. Perto do local de partida e adivinhando propósitos, os meus guardiões atalharam-me o passo, não vás para lá, a mãe disse para não te deixarmos ir que os mortos não servem de companhia.
A ausência de tia Emília. O para sempre da morte. Tão débeis os nossos “para
sempre” vitais, tão pequenos todos. Mas não este. O para sempre da morte é o
único que dura e se mantém, mau grado toda e qualquer circunstância. Tanto
queríamos ser eternos e só nos eternizamos no não ser. Ironias e ideias que
então não me ocorriam; de dentro dos meus dez anos feitos mergulhava na falta e
no seu irremediável mas sem lhes atingir
dimensão. O nunca mais da morte, fui aprendendo depois, insinua-se pela
vida como lâmina de faca. Mas naquele momento, ante a concretude de certezas
tão desarmantes, os olhos marejavam. Logo o mais novo me aliciou a pretender
distrair-me, olha, fiz um carrinho. Anda vê-lo. Se quiseres, podes baptizá-lo. Segui-o até
casa a fungar, a cadelita a ensarilhar-se nas nossas pernas. Mas, quando me
passou o brinquedo para a mão, sem que eu percebesse porquê, que até me parecia
que me ia aguentar a seco, desatou-se o único pranto da minha vida.
Sentei-me
num caixote, pus a cabeça entre os braços apoiados em mesa de faz de conta e
deitei fora todas as lágrimas, expandi o desgosto, a cara a molhar o revestimento plástico. Naquela hora de eclipse, era eu e o desgosto soluçado em alta voz. À
medida que o choro se prolongava ia enrouquecendo e, quando estava reduzido a
espaçados frémitos soluçantes, sem que desse conta, o cansaço e o alívio
levaram-me de vencida. Adormeci.
Acordei à voz da prima farfalhuda, não sei que faça com o gaiato, ele não é da família e não o quero lá em casa. Sem bulir, ouvi a mãe dos meus amigos falando tão baixo que apenas entendia o sussurro. E ouvi espantado, não, não, a casa desmancha-se que não pago nem um mês de renda; e a ele ponho-o com dono. E depois, como quem matuta no assunto, tornou, há casas que recebem esta gente sem ninguém. Não me responsabilizo por ele. E depois é rapaz, nem pensar nisso.
Acordei à voz da prima farfalhuda, não sei que faça com o gaiato, ele não é da família e não o quero lá em casa. Sem bulir, ouvi a mãe dos meus amigos falando tão baixo que apenas entendia o sussurro. E ouvi espantado, não, não, a casa desmancha-se que não pago nem um mês de renda; e a ele ponho-o com dono. E depois, como quem matuta no assunto, tornou, há casas que recebem esta gente sem ninguém. Não me responsabilizo por ele. E depois é rapaz, nem pensar nisso.
Caramba, bea, que maneira mais trágica de sair da infância; perder tudo assim de um dia para o outro, e depois descobrir que é um empecilho, um ser descartável; e ainda a procissão vai no adro...
ResponderEliminarE aquele foi o único pranto da sua vida? Nunca mais chorou? Porque será que não me surpreende?
Morreu um menino, nasceu um homem; e, como todos sabemos, os homens nunca choram!
Sábado feliz.
⚘
Bom Dia, Maria:)
ResponderEliminarVou secar-lhe os olhos, sim. As tragédias são mais trágicas lidas, lembradas, a gente puxa por elas e engrandecem na ribalta, o palco do livro todo delas. No acto, são só azares da fortuna a que se tem de responder. Do lugar onde o plantei e nas condições que tinha a vida portuguesa, era desfecho normal, Maria. A reacção reduzia-se a compaixões, coitadinho, o que vai ser do garoto. A compaixão passageira, não transformadora como a da velha Emília. O miúdo sai mesmo do horizonte, e não há mais que esse lastro de compaixão que, mal comparado, é rasto, espuma de barco que se afasta.
Igualmente, Maria. Sim, vai ser um sábado agradável, uma das minhas luzes vitais vem iluminar-me o dia cinzento e de chuva bem regressada. Fazia falta. Vamos ingressar no Outono e antevê-lo melhor que o verão. Tudo pode ser bom e belo antes de ser:).
Um sábado repleto de agrados, Maria
Bom Domingo
Feliz o momento em que vim espreitar ( como não quer a coisa ) este episódio da tua arte de escrita !
ResponderEliminarPodia relevar outras, mas escolho estas linhas para dizer que gostei muito do que acabo de ler.
" Naquela hora de eclipse, era eu e o desgosto soluçado em alta voz. "
Que tudo seja como dizes : " Tudo pode ser bom e belo antes de ser. "
Um beijo amigo antes que seja Domingo.
Obrigada, João.
ResponderEliminarBom domingo:)
Bea, este "carrossel" é tramadote...
ResponderEliminarNão fosse a tua arte no entrelaçamento das palavras e lágrimas soluçadas eu derramaria.
Beijo, bom domingo «repleto de agrados».
Obrigada, Teresa. Propus-me treinar o tratamento da tristeza e da má sorte, dois elementos tão comuns à vida e que tanto me custam expressar.
EliminarUm carrossel de vida difícil, a deste miúdo.
ResponderEliminarÉ isso, Luísa. Vivemos aos altos e baixos. Menos previsíveis que os do carrossel.
EliminarBea, sendo pura ficção - como me esclareceu - não deixa de ser uma narrativa poderosa, punjente, muito próxima da realidade- infelizmente.
ResponderEliminarEspero que ao desenrolar este novelo determine uma saída caridosa para o rapazinho.
Tenha uma boa tarde.
Subtraindo géneros específicos, parece-me que toda a história aspira a ser verdade e eu digo mesmo que se a "estamos mesmo a ver" à medida que lemos, para nós é verdadeira.
EliminarNinguém é feliz ou infeliz o tempo todo, Nina. Assim é o carrossel da vida.
A sua imaginação é que é um verdadeiro carrossel.
ResponderEliminarBoa semana
Viajamos no carrossel da vida, Pedro. O meu imaginário, como o de toda a gente, apanha gestos e formas aqui e ali.
EliminarUm texto excelente! Não só pelo imaginário mas pela emoção posta nas palavras…
ResponderEliminarUma boa semana.
Um beijo.
Boa semana, Graça. Muito obrigada.
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