Não sabemos todas as razões de lembrar ou esquecer. Acodem-me estes fragmentos em nebulosa, lembranças de
entreter que são apenas rebordo de dias felizes e sem história. Pespegam-se na
memória como vincos que o tempo se
esqueceu de passar a ferro. Quanto deixei cair dessas horas que levaram consigo
lugares, gente, acontecimentos. Em tempo mais negro, alenta-me a almofada de
dias e meses esquecidos, essa bolsa de pequenos nadas que é limbo e
amparo.
Porém, há horas tão vívidas que
tenho de olhar-me por inteiro, passar a mão por rosto e cabelos, medir o
tamanho de pernas e braços, para saber que cresci e passaram anos. Que não sou já aquele que renascia com o
verão, a palpar-se na ligeireza da roupa e vivendo a largura de liberdade que o
tempo e as férias permitiam. Nas longas tardes de Julho, sem palavra
ou ordem de adulto, íamos nadar à ribeira. A ribeira tinha os seus rituais. O
primeiro era não aceitar raparigas no grupo e nem sonhar em contar-lhes ou logo
delambiam a novidade; e as mães, ou mesmo o cinto dos pais, moíam de
porrada. Os iniciados no segredo, mãos sobrepostas em pirâmide e cenho franzido de veemência, juravam as
conveniências do silêncio. E depois de combinação prévia e secreta - sempre após o almoço -, um a um, íamos
sumindo, o bairro a sossegar por fases. Que as raparigas, só por elas
e pelos catraios de berço e a engatinhar, excepção feita a uma birra ou outra,
pouco se ouviam. Usávamos juntar-nos atrás da parede de barro, uma montanha
clara e dura, depósito de um catterpilar na abertura de ruas no bairro e onde, verão afora, escorregávamos a puir e rasgar fundilhos novos
e velhos, sempre assombrados por lamparinas bem assentes. O monte de barro
desmedia à curva, separando a zona ocupada pelo Bairro da Venezuela da terra de
ninguém que lhe verdejava por detrás. Na revessa, isolávamos de olhares alcoviteiros. Composto o ramo, embrenhávamos na floresta densa e altíssima que lhe ficava nas costas e
era apenas um pinhal desasado e cheio de tojo onde arranhávamos as pernas. Na
mira do recreio aquático, corríamos em alegria uns três quilómetros, saltando
matos, pisando cogumelos, tropeçando nos vasos de resina caídos, rindo do som
abafado e polvoroso das bufas de lobo rebentadas e que nos sujavam as pernas. E nas margens
da ribeira o segundo preceito: roupas guardadas em lugar seco ou éramos
descobertos.
Levou-me à minha juventude e ao Penedo Alto.
ResponderEliminara sério? E que esse Penedo Alto lhe lembre bons momentos, Pedro.
EliminarRecordações que nos encantam!!! Bj
ResponderEliminarObrigada, Gracinha:)
ResponderEliminarPodia ter sido lá...
ResponderEliminarDesde miúdo que gosto de ribeiras, lagoas... e de westerns, especialmente com aquelas cidades fantasma do faroeste poeirento que tanto me fascinam o imaginário.
Hoje em dia, algures entre Setúbal e Montemor encontra-se a Aldeia de Safira que está desabitada. Estima-se que os seus últimos habitantes a tenham abandonado em meados de 1965. A razão, dizem, é muito simples.
Os antigos moradores abandonaram-na na procura de melhores condições de vida, pois trata-se de um local muito isolado. E assim o que resta desta aldeia (para além do bonito nome) são as suas construções em escombros, a sua igreja que já há muito deixou de estar caiada e "uma pequena lagoa", onde o sol reflete todas as tardes.
Safira fica entre Montemor o Novo e Silveiras:). Sempre que passo na estrada, e desconhecendo que está desabitada, dá-me vontade de torcer o volante e visitar a aldeia. O mesmo em S. Gens, Guadalupe onde o complexo dos almendres espera na sua pobreza secular. E outros lugares que não lembro. Quem sabe por que despovoou Safira. A quem a visita surge pacífica, escancarada de vida vegetal e animal. Mas, aos que por ali viveram, que medida de sofrimento instigou à partida. Por certo o quotidiano se fez impossível ou a morte lhes chegou, que não há como o alentejano para permanecer e resistir às contrariedades. Era bonito se alguém comprasse a aldeia. Mas o povo foge de onde tudo falta. Um dia destes, Safira deixa até de ser direcção nas estradas de Portugal.
EliminarSim, podia ter sido ali nessa represa que se juntavam os meus garotos. Mas eles e eu gostamos mais de água corrente, do esforço de palmilhar quase descalços alguns quilómetros até ao doce embalo de águas que fazem o seu caminho mas os aceitam e saúdam. As represas são lugares de gado que dessedenta, água escura de lismo e detritos, povoada de vidas minúsculas que proliferam, coio de insectos, uma ou outra cobra de água aninhada em buracos que se não vêm. Represas são lugares medonhos e pelas noites de lua nova os mais velhos ali sacrifícavam aos espíritos das águas a afugentar malignidades que ferviam no sangue dos homens. Hoje, sem rituais, estarão soltas e sedentas, prontas a abocanhar qualquer, no breu que é ali mais terrífico.
Não sei se lhe serve:). Quando tenha companhia, hei-de visitar Safira. De dia, claro.
buracos que se não vêem
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