sábado, 7 de setembro de 2019

Carrossel


Na infância feliz há uma certeza de eternidade e a morte é  insignificância destinada a gente ignota. Morreu fulano. Morreu sicrano. Morreu. E eu pensava nos pássaros mortos que não conseguia ressuscitar por mais que fizesse, nos gatitos que morriam ao nascer, as gatas mães a abandoná-los mal o cheiro da morte os bafejava. Eu cheio de pena da mexida dos pobrezinhos, as patitas ainda a procurar pêlo, todos boca e olhos cegos buscando têtas que se negavam indiferentes. Eu com vontade de sovar as gatas malvadas que desmediam em ternura e guarida a filhos viçosos. A injustiça que é existir e ser gato. Em mim, o mundo injusto da morte não abarcava ainda os humanos, que a ceifeira só nos existe quando macula o horizonte afectivo.
No meu bairro, ruas de terra batida e poeirenta, empoçadas a cada inverno,  a vida ia passando de manso e  sempre comigo ao colo. Tia Emília bulia por tudo e, rodeada e miséria, a nossa casa era, ainda assim, a mais farta. Tínhamos mobília, mesas e cadeiras, pés e pernas em curva de agrado.  Nas demais casas, os caixotes de fruta aconchegados uns nos outros serviam de mesa e, solitários, arremedavam bancos baixos que nas horas vagas viravam saco multifunções, escadote, berço dos que nasciam, carro sem rodas que se puxava a atilho e força de braços infantis, saco de roupa, e mais um  infindo etecetera. Maravilhava-se a juventude da Maria do Víctor com os nossos pertences, a mão festejando a madeira do tampo, ou pousada num arroubo de gosto sobre o burilado artístico de uma cadeira, um tudo nada de inveja vaidosa a ecoar sob a sentença certificada, são Quinane. Eu ouvia isto e o termo Quinane entravava na minha pobreza vocabular arredado de compreensão.   Supunha que a nossa mesa e cadeiras tinham vindo directas e sem delongas das províncias ultramarinas, lugares com gente de nome esquisito como Gungunhana, quem teria baptizado o Gungunhana, pensava eu cheio de pena. Portanto, Quinane soava a Angola, chegava-me prenhe da quentura dos trópicos, dos cheiros de mato e do terror a panteras espreitadeiras, um olho de farol maldoso a fazer-se presente, ferocidade amarela que atravessava as folhas da selva.  A minha selva cingia-se a um ror de folhas e folhas sobrepostas e incisivas, uma vitalidade libertina e em crescendo que quebrava a luz e  esverdeava os poucos raios de claridade. Para além de albergar todo o género de perigos animais.  Na selva andava tudo à solta, cobras, lagartos, leões e as panteras aceradas. Às girafas riscadinhas retirava-as do quadro, a sua cabeça de periscópio a estragar-me a esquadria da imagem; além disso eram herbívoras e eu cultivava a teoria dos animais selvagens e carnívoros que esfacelavam tudo a eito com dentuça terrífica. Só mais tarde, quando a vida me clareou as ideias a injecções de realidade excessiva, vim a entender que quinane era a versão popular e portuguesa de um estilo de mobiliário inglês. Lá na outra vida, queen Anne há-de ter sorrido. De mim. Do aportuguesamento. Queen Anne, milady...


19 comentários:

  1. Eu sei, eu sei, a bea não gosta de elogios, mas a sua escrita é magistral. Quem o diz, não é uma amiga, é sim, alguém que analisa obras literárias, daí saber muito bem a qualidade literária desta história. Uma história que merece ser publicada.

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    1. Obrigada, Teresa. É assim, Teresa, eu cheguei aqui e já fiz não sei quantas emendas, troquei palavras, acrescentei, pus e tirei vírgulas. E isto só porque ainda não tinha lido aqui o que escrevi. Acha a Teresa que numa escrita magistral acontecia o mesmo?!:)).
      Também analiso obras literárias, se considerarmos que as leio com a atenção devida.

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  2. E eu, bea, analisando apenas o que sinto, digo que gostei muito de ler mais um capítulo desta sua netnovela ;)
    Nunca apreciei essas mobílias de régios nomes (sou muito plebeia), o que eu queria mesmo ter era uma daquelas mobílias alentejanas pintadas à mão (branca com motivos rosa e verde claro), mas os meus pais informaram-me que não havia orçamento para essas princesices :(
    Todavia mantive-me fiel ao branco, arranjei uma cama de ferro que pintei de branco e os móveis são todos brancos, o rosa e o verde estão nos tapetes e nas colchas e almofadas, de preferência com gatos 🐈🐈🐈
    E até consegui arranhar um Toshiba branco 📺
    Gosto de tons claros, luminosos.
    Na sala tenho estantes de faia, pinho, verga e bambu (tudo a abarrotar de livros, filmes, CD e tralhas) e um enorme tapete de Arraiolos (não, não é do século não sei quantos nem fui eu que o fiz!)
    Nada de quinanes, portanto :)))
    Bom fds, bea.

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    1. Adenda:
      Caraças (Pardon my French)!
      Tenho mesmo que mudar as lentes, ou então comprar um portátil, pois a escrever no smart é só gatos; eu arranjei (não arranhei) um Toshiba.
      Sorry!

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    2. Maria
      Uma netnovela é um nome que lhe assenta, sim. Gosto:)
      Também não aprecio mobílias pesadonas e estilos assim e assado e tenho uma única peça desse teor. Nunca houve quinanes nem queen Annes em minha casa, desconhecia a sua existência. Sonhei ter uma mobília alentejana, sim. Isto por ter trabalhado ainda na infância para um casal cuja casa era inteiramente mobilada em estilo alentejano; talvez fosse por ter 10 ou 11 anos, mas encantei naquelas florinhas pintadas sobre a cor. Lembro-me da sala de jantar ser verde e o quarto infantil, ocupado pela empregada fixa, branco; o quarto dos senhores era em azul escuro. No escritório do senhor não limpava e estava proibida de entrar, apagou-se-me da memória embora tenha aberto a porta algumas vezes.
      Também nunca tive a cama de ferro que desejava. Mas comprei-a para um dos meus infantes e hoje dou-lhe algum uso; é simples, ampla, airosa.
      Gosto bastante de gatos. Mas não os repito em imagens pela casa e menos nos quartos, lugar que convida ao descanso. Hoje, nem sei se tanta flor na mobília branca não me cansava a vista:).
      A minha sala é um espaço amplo de visitas e acumula com casa de jantar. Não lhe ligo meia e raramente a ocupo, coisa que os restantes membros da família não fazem. No verão, vivo entre a cozinha e o quarto:).
      Percebi a do toshiba à primeira:). Automóveis e computadores brancos não me seduzem.
      BFS, Maria

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    3. Bea, o Toshiba que refiro é um televisor. Quando a TV passou a TDT tive que comprar um grande para a sala e dois pequenos para os quartos. A Worten tinha lá 1 branco e eu não resisti: fica mesmo bem lá no quarto para não quebrar a harmonia :)
      E nem imagina a gataria que há por toda a casa: eu faço colecção de gatos... e quando vou à Loja do Gato Preto desatino um bocadinho, só um bocadinho.

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    4. Hummm...também ligo pouco à TV e não me lembraria de a harmonizar numa sala:). Mas, por acaso, comprei uma para poder assistir as aulas do ano propedêutico e era branca.
      Boa noite

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    5. Agora quase não a ligo, apenas para ver alguma coisa na rtp-2 (que aquilo que me interessa geralmente passa tardíssimo).
      É bom tê-la ali para as insónias, que cada vez gostam mais de mim ;)
      Bom domingo.

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    6. Bom, no intervalo da insónia durmo um bocadinho. Neste momento duvido até da nomenclatura.

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  3. E estamos mesmo sempre a prender.
    Boa semana

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  4. Li, reli, tornei a re(ler). De tanto ler quase perdia o timing do comentário. Mas não consegui decorar, nada de especial. Nothing special. Já não consigo decorar nada. Como me vou safar no discurso de casamento da descendência?
    Até lá, os meus opacos dias ficam preenchidos com a sua balsâmica leitura que opera o milagre dum realvorecer.

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    1. Obrigada, Joaquim. Quem me dera ser mesmo um bálsamo. E não se preocupe com o discurso nos casamentos da descendência, bastam umas palavras e, saindo do coração, ficam lindas e não chegam a aborrecer os convivas:)).

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  5. Muito bem narrado o seu texto. As memórias da infância muito presentes na sua lembrança. Gostei de ler.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  6. A infância, penso eu, é o chão da vida.
    Obrigada e boa semana, Graça

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  7. Quinane, quinane... e eu sem vislumbrar o que seria até ao final do capítulo... :))

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  8. é que há mesmo o estilo quinane, não é apenas má pronúncia popular:)

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