quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Carrossel


Nus e brincalhões, a comparação no tamanho do sexo sempre presente. Olhares intrigados de um ou outro, vaidade de campeão nos mais velhos, ares protectores e sabedoria fingida numa promessa, quando cresceres mais vais ver, ainda me passas. E o apelo da água. As conversas adultas em fundo de aviso, diz que há ali um pego debaixo do choupo, ninguém vai para lá. Espadanávamos na correnteza, contentes e sozinhos, olha lá onde cheguei; fazíamos competições assistidas e muito comentadas, cada nadador com seus adeptos; e ensinávamos uns aos outros a boiar, dar braçadas, experimentar bruços ou costas. Depois, por orientação solar, secávamos beatíficos e exaustos, deitados pelas margens. E surgiam as histórias onde o imaginário dava mão à realidade, cada um querendo atrair mais atenção que o vizinho. Mas o regresso. O caminho de volta tão dissemelhante. Moroso. Difícil de pernas e ânimo. E todos cientes, a pontualidade era a última alínea do segredo. O cansaço ia silenciando os mais novos, fazia-os atrasar o passo e, por mais instados, não raro tínhamos de transportá-los às cavalitas. Chegávamos ao Bairro da Venezuela de mãos nos bolsos ou de mão dada aos mais novos prontamente tresladados para o chão antes da barreira, uns assobiavam, outros entretinham-se a pontapear algum pedrisco solto no caminho.  A bem da nação todos fingíamos. Tínhamos ido aos ninhos. E se a franja ainda húmida, é do suor, subir aos pinheiros custa.
E eu que entrava em casa com pena  de não poder contar o júbilo da água, tão calado e contente como certo de castigo e proíbição se a verdade viesse à tona. Eu que tinha hábito a mostrar-me, já cá estou, cheguei. E a cabeça de tia Emília assomando na porta da cozinha, vai-te lavar que estás um porquinho. Ou a voz pausada com ligeiro toque militar, anda cá, quero ver o lindo estado em que vens. Mas hoje, que é sempre hoje na minha lembrança e como já disse, fazer o quê, estou a entrar em casa. Satisfeito, cansado, na certeza de gestos e actos sempre os mesmos. A casa igual, de porta sempre aberta. E tudo tão quieto e sem resposta que saio a espreitar a rua, o quintal, a estrada, o quintal da vizinhança.  E volto a entrar. Alteio a voz, quem sabe está no quarto e não ouviu, tia Emília, tia Emília.  Passo a cozinha. A velha está  ainda sentada à mesa quinane, os óculos da costura escorregaram-lhe para o chão, o cesto das linhas virado, agulhas e alfinetes sem destino, as linhas às cores rodaram até ao obstáculo mais próximo e estão paradas num pé de cadeira ou de mesa, enfiadas debaixo da cama. Apanho-lhe os óculos na estranheza de tia Emília neste sossego e tudo desarrumado. Acerco-me de óculos na mão, chamo ao ouvido, tia Emília, esperando o seu sobressalto. E ela de cabeça pendida ao peito, tão sem acordo como os pássaros. A esfriar e endurecer como eles. Devo ter dado alarme que se encheu a casa de gente sentada nas nossas cadeiras, sobre as nossas camas, à soleira da nossa porta. Era Verão. Tinha vindo de nadar. Mas sentei-me ao canto da lareira vazia e por ali fiquei. Veio a prima farfalhuda e não me fez caso, as vizinhas que também me esqueceram e ouvi sem ouvir senhores e senhoras que não me importaram e do meu buraco eram apenas pernas e fins de calças e saias a mover-se. Não comi nem bebi. Não sei se pensei. A morte súbita de tia Emília esvaiu-me. Foi quando a última vizinha fechava a porta que – conta ela – me viu no canto mais escuro da chaminé. Não falava, não gemia, e parecia nada entender. Levou-me ao colo para sua casa, fez-me cama no chão da cozinha e deitou-me. Conta que só quando ensejou despir-me reparou que segurava ainda os óculos da costura.


12 comentários:

  1. AQUI não é um blogue de entrar com um pé e sair imediatamente com o outro. Penso ter mais tempo no fim-de-semana para ler devagarinho este texto, cujo título já promete‼

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  2. Deixou-me triste Bea, esta sua bela história. Estive para me remeter ao silêncio, porque as palavras saem muito mastigadas e o nó na garganta aperta quando o assunto é órfãos. No prédio ao lado, tenho dois gémeos de um ano que perderam a mãe há dias.
    O rapaz desta história não conheceu os pais, mas é órfão porque perdeu aquela mulher que dele cuidava, que lhe dava amor, carinho, afeição, e que preenchia a falta de sua mãe biológica -Tia Emília.
    Só espero que não perca a sua identidade e consiga um ponto de referência na vida.

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  3. A vida é só vida, Joaquim. Veremos se é capaz.

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  4. Depois da viva e alegre descrição do folguedo dos gaiatos, o drama da morte da tia Emília e a tristeza do narrador em choque.

    Muito bom, bea.

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  5. Uma nota triste para o início do fim-de-semana.

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  6. Pedro, a ficção, como a vida, não tem apenas sorriso e alegria. E à tristeza não importam dias; chega quando chega, parte quando parte. Mas a realidade é que o fim de semana está à porta (e há a sua tolerância de ponto) e, para muita gente, é uma boa notícia.
    Um abraço e muita coisa boa a acontecer nestes dias de descanso

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    1. Sugiro que nós leitores nos unamos e façamos uma petição à autora para moldar os contornos dos capítulos da sua novela ao gosto de cada um e ao dia da semana :)
      BFS

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  7. Há livros escritos assim:). Cada capítulo constitui um desenvolvimento diverso do mesmo acontecimento. E outros que são, por capítulo, a perspectiva de cada interveniente sobre um mesmo acontecimento. São experiências literárias:). E parece que, na net também há obras do género. Já há de tudo, Joaquim, não se inventa nada:).

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  8. O pego fez-me lembrar a peguia junto ao moinho de um tio-avô, no rio Ocreza, onde eu adorava estar quando cá vinha de férias em miúda. Sempre me diziam: Não vás para cima daquelas pedras, se escorregas ficas lá, olha que já lá ficaram dois homens. E eu a tentar vê-los (às escondidas), mas a água era muito escura... ao contrário de outros sítios onde era tão transparente que se viam peixes pequeninos, cágados e uma ou outra cobra de água.
    Que belas recordações me trouxe, bea :)))

    Mas a história ainda não acabou, pois não?

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  9. Pois Maria foi agora o tempo de lê-la. Mais vale tarde.
    A Maria como todas as crianças levava à letra o que ouvia. Do que me lembro, e já não era tão pequena como isso, é de ler sobre os afogados e ouvir dizer que todos os corpos dão à costa; isto bastou para pensar que os mares estavam cheios deles, a branquejar à tona, envolvidos em lismo e conchas.
    Não acabou, este carrossel tem viagem comprida.
    Boa noite

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