quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Carrossel


O que tinha por certo era a incapacidade de viver sozinho. Porém, depois que me despachei e me sentaram a mastigar um pão e beber uma caneca de café, achei a vida melhor, que na noite anterior nem jantara. Ao longo do dia as crianças pertenciam ao mundo da rua e não aqueciam lugar em casa. Portanto, ainda a mastigar, fomos postos fora, enxotados do mundo caseiro que entrevíamos na doença e à hora das refeições.  Saí ladeado por dois garotos da família e meus companheiros nas diurnas incursões da liberdade. Mal pusemos pé fora da porta, logo nos rodeou a curiosidade acesa de colegas de jogos e brincadeiras que nos aguardavam em magote suspenso. Formaram círculo compungido, a voz num baixo de seriedade por receio e respeito à morte. Queriam saber tudo: como a encontrara, como tinha os olhos e as mãos, se estava ferida, se espumava, se eu sentira medo, se a palpara e estava fria, se. Ali, a meio da rua e à claridade matinal, a morte de tia Emília foi severa e quase morbidamente escrutinada. Por momentos senti-me importante, a contar factos que me pareciam história de livro, coisa que não se passara comigo mas de que eu era o narrador. Entretanto, os dois que me ladeavam iam entremeando a elevar-se do anonimato, ele dormiu na nossa casa e demos-lhe o café e tudo. Dúvidas satisfeitas, olhámo-nos sem saber por onde continuar, a tristeza a aperrear-nos, incómoda. E veio a sugestão salvadora, se fôssemos a casa do Márinho ver os coelhos que nasceram esta noite. Fomos.  Ao pegar nos animais que nesse dia todos me passavam para as mãos, toma lá o peso dele, olha este tão engraçado, sentia-lhes o coração assustado, os movimentos do corpo pequeno e quente, e, involuntariamente, contrapunha essa vivacidade à quietude de tia Emília. Era como palpar a diferença entre vida e morte.  Mas, por outro lado, desejava iludir-me, prolongar indefinidamente  a visita à coelheira. Ali, éramos os mesmos, tecíamos os comentários de sempre, brincávamos uns com os outros, ocupavam-nos as mesmas funções. Ficando por lá, havia a hipótese de a vida igual a antes. Era um pensamento pateta, mas acudiu-me. Ao longo dos anos essa tendência para a pausa no meio dos atropelos trazia-me a lembrança daquele montinho de crianças a braços com a ideia da morte e a noção clara de me distraírem dela. A vida afastou-me deles, deu as suas voltas. Encontrei outros amigos e colegas de caminho, e sempre insisti na repetição do mesmo sentimento, experimentando guarida e o prazer da companhia e desejando sem palavras o que o apóstolo exprimiu na transfiguração de Cristo “Mestre, é bom estarmos aqui, façamos aqui três tendas”.

4 comentários:

  1. Brevemente vou visitar os amigos de uma vida que estão espalhados pelo Globo.
    Num momento particularmente complicado para um deles.
    Bfds

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  2. Obrigada, Pedro. Eu não poderia, senão virtualmente, visitar amigos espalhados pelo Globo:). Se tal lhe é possível, resta desejar que os reencontros sejam memoráveis. Por bem. E a bem da amizade. E que possa ajudar a sanar as complicações. Por vezes, a presença e a amizade são suficientes. O que esperamos dos amigos não é que nos resolvam a vida mas que nos ajudem a suportá-la. A amizade é suporte insubstituível; se falta, não se põe nada no lugar.
    Um abraço

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  3. Bea, durante estas duas semanas fora, continuei com leituras na net e diariamente a visitei. Tocou-me intensamente a morte da tia Emília. O que será que essa macabra descoberta faz à cabeça de uma criança? A minha primeira perda foi a minha avó materna. Era uma morte expectável. Impressionou-me o cerimonial, mas sinto que dele retive um lado quase folclórico. Pouco mais. Impressionaram-me as lágrimas da minha mãe. Muito. Mas eu, miúda de 10 anos assisti de fora ao desenrolar do acontecimento. Não foi nada que se parecesse com a descoberta do corpo inerte da tia Emília, aos seus pertences espalhados, aos óculos caídos. É um relato autobiográfico? - interrogo-me. Tenha um bom fim de semana. Obrigada por partilhar os seus textos, Bea.

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  4. Olá Nina:)
    Obrigada, Nina. Começo a sentir-me em dívida:). Não é um relato auto ou sequer biográfico. É uma tentativa para dizer a dor e tristeza infantis e adultas perante a morte real e física e outras mortes que lhe hão-de sobrevir(o garoto há-de crescer, penso eu), sensação e sentimento que tenho grande dificuldade em traduzir por palavras. Estava a escrever mais um bocadinho e a pensar exactamente que está a ficar cada vez mais no género Maria não me mates que sou tua mãe:).
    Pareceu-lhe real? Gostaria que sim.
    Em criança não fui confrontada com a morte, o que escrevo é pura especulação. Minha mãe era nisso muito cuidadosa e nem me deixava entrar no cemitério; além disso, tive a sorte de nenhum dos meus avós ou entes queridos morrer cedo.

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