O
que tinha por certo era a incapacidade de viver sozinho. Porém, depois que me
despachei e me sentaram a mastigar um pão e beber uma caneca de café, achei a
vida melhor, que na noite anterior nem jantara. Ao longo do dia as crianças pertenciam
ao mundo da rua e não aqueciam lugar em casa. Portanto, ainda a mastigar, fomos
postos fora, enxotados do mundo caseiro que entrevíamos na doença e à hora das
refeições. Saí ladeado por dois garotos
da família e meus companheiros nas diurnas incursões da liberdade. Mal pusemos pé fora da porta, logo nos rodeou a curiosidade acesa de colegas de jogos e
brincadeiras que nos aguardavam em magote suspenso. Formaram círculo
compungido, a voz num baixo de seriedade por receio e respeito à morte. Queriam
saber tudo: como a encontrara, como tinha os olhos e as mãos, se estava ferida,
se espumava, se eu sentira medo, se a palpara e estava fria, se. Ali, a meio da
rua e à claridade matinal, a morte de tia Emília foi severa e quase
morbidamente escrutinada. Por momentos senti-me importante, a contar factos que
me pareciam história de livro, coisa que não se passara comigo mas de que eu era o
narrador. Entretanto, os dois que me ladeavam iam entremeando a elevar-se do
anonimato, ele dormiu na nossa casa e demos-lhe o café e tudo. Dúvidas
satisfeitas, olhámo-nos sem saber por onde continuar, a tristeza a aperrear-nos,
incómoda.
E veio a sugestão salvadora, se fôssemos a casa do Márinho ver os coelhos que
nasceram esta noite. Fomos. Ao pegar nos animais que nesse dia todos me passavam para as mãos, toma lá o peso
dele, olha este tão engraçado, sentia-lhes o coração assustado, os movimentos
do corpo pequeno e quente, e, involuntariamente, contrapunha essa vivacidade à quietude de tia
Emília. Era como palpar a diferença entre vida e morte. Mas, por outro lado, desejava iludir-me, prolongar
indefinidamente a visita à coelheira.
Ali, éramos os mesmos, tecíamos os comentários de sempre, brincávamos uns com
os outros, ocupavam-nos as mesmas funções. Ficando por lá, havia a
hipótese de a vida igual a antes. Era um pensamento pateta, mas acudiu-me.
Ao longo dos anos essa tendência para a pausa no meio dos atropelos trazia-me a
lembrança daquele montinho de crianças a braços com a ideia da morte e a noção clara
de me distraírem dela. A vida afastou-me deles, deu as suas voltas. Encontrei
outros amigos e colegas de caminho, e sempre insisti na repetição do mesmo
sentimento, experimentando guarida e o prazer da companhia e desejando sem
palavras o que o apóstolo exprimiu na transfiguração de Cristo “Mestre, é bom
estarmos aqui, façamos aqui três tendas”.
Brevemente vou visitar os amigos de uma vida que estão espalhados pelo Globo.
ResponderEliminarNum momento particularmente complicado para um deles.
Bfds
Obrigada, Pedro. Eu não poderia, senão virtualmente, visitar amigos espalhados pelo Globo:). Se tal lhe é possível, resta desejar que os reencontros sejam memoráveis. Por bem. E a bem da amizade. E que possa ajudar a sanar as complicações. Por vezes, a presença e a amizade são suficientes. O que esperamos dos amigos não é que nos resolvam a vida mas que nos ajudem a suportá-la. A amizade é suporte insubstituível; se falta, não se põe nada no lugar.
ResponderEliminarUm abraço
Bea, durante estas duas semanas fora, continuei com leituras na net e diariamente a visitei. Tocou-me intensamente a morte da tia Emília. O que será que essa macabra descoberta faz à cabeça de uma criança? A minha primeira perda foi a minha avó materna. Era uma morte expectável. Impressionou-me o cerimonial, mas sinto que dele retive um lado quase folclórico. Pouco mais. Impressionaram-me as lágrimas da minha mãe. Muito. Mas eu, miúda de 10 anos assisti de fora ao desenrolar do acontecimento. Não foi nada que se parecesse com a descoberta do corpo inerte da tia Emília, aos seus pertences espalhados, aos óculos caídos. É um relato autobiográfico? - interrogo-me. Tenha um bom fim de semana. Obrigada por partilhar os seus textos, Bea.
ResponderEliminarOlá Nina:)
ResponderEliminarObrigada, Nina. Começo a sentir-me em dívida:). Não é um relato auto ou sequer biográfico. É uma tentativa para dizer a dor e tristeza infantis e adultas perante a morte real e física e outras mortes que lhe hão-de sobrevir(o garoto há-de crescer, penso eu), sensação e sentimento que tenho grande dificuldade em traduzir por palavras. Estava a escrever mais um bocadinho e a pensar exactamente que está a ficar cada vez mais no género Maria não me mates que sou tua mãe:).
Pareceu-lhe real? Gostaria que sim.
Em criança não fui confrontada com a morte, o que escrevo é pura especulação. Minha mãe era nisso muito cuidadosa e nem me deixava entrar no cemitério; além disso, tive a sorte de nenhum dos meus avós ou entes queridos morrer cedo.