terça-feira, 10 de setembro de 2019

O Tempo que Vai


Setembro. Setembro que chegou em calor de lume lembrando torrinas negadas por Agosto. Mas em Agosto houve o luar. As férias de quem. O subsídio de quase todos. As pequenas loucuras e passeios, gelados, tempo de dias grandes correndo a fio nas esplanadas, roupas leves, o corpo ousando a liberdade que é sempre maior e mais linda no feminino, um ror de pernas, decotes que se prolongam em Vê e até onde, o movimento um pincel delineando curvas evidências. E o sol. Nos cabelos, na pele, o enigma do rosto sob um chapéu, boca no beijo da luz.  
Em Agosto houve os frutos da natureza. Maduros, sumarentos, chamariz de olfacto e mãos. A doçura que escorre por entre os dedos, melões, pêssegos, sangue de ameixas pegajosas, um resto de saudade no coração vermelho dos morangos que se despedem. E a carne vegetal das cerejas, firmeza macia que se deseja e os dentes mordem em festa. Ou os figos, impossível doçura. Os figos que escorrem mel e são labareda, quentes como um trópico.
Em Agosto há as malvas olorosas, as rosas insistentes, cravos e cravinas de cheiro quente e íntimo, os malmequeres diáfanos e adstringentes. Em Agosto os jardins cheiram à vida adulta vegetal e ao mistério da criação. O verão exacerba odores. Tudo cheira. Matinais, os jardins convidam e perfumam. Mas nas horas de canícula os cheiros entontecem, respira-se a saturação clorofílica a exalar, o viço que se desprende. As plantas suam perfume. De noite, a mistura de odores é ainda mais insurgente, razão por que os jardins são murados e fechados a cadeado. Assim se protegem os homens do perfumado mistério nocturno, dos suspiros e desmaios longos das flores, do cheiro a respiração vegetal.  
Não sabemos por que grato acaso tanto nos inquieta e exalta a prodigalidade de cheiros vegetais. Mas inquieta. Exalta. E também acalma. Copiamos de plantas cheirosas o que podemos, quanto podemos. Contudo, o laboratório não  chega ao rasto sublime da cravina humilde, da modesta violeta, da quotidiana malva de cheiro, da madeira e casca de algumas árvores e arbustos.
Mas é Setembro. Os odores encurtam e surgem leves indícios de certo colírio natural, amarelecem e caem as primeiras folhas. À tontura do frenesim odorífico sucede a acalmia. A  natureza dispõe-se ao repouso. Devagar. Em beleza.


16 comentários:

  1. E, para outros, este belo, calmo e repousante Setembro... foi o fim da linha.

    Morreram 600 pessoas nas estradas portuguesas no ano passado. Para mim é zero ou quase zero, porque não conhecia nenhuma delas. Não passa de uma cifra. Preocupa-me, e muito, mas não senti dor, a mim não me doeu.

    Ontem recebi a notícia que uma senhora que morava no prédio ao lado, casada e mãe de gémeos de 1 ano, faleceu vítima de acidente de viação. É brutal. É uma tragédia. Esta noite não consegui pensar em outra coisa. Cá em casa não se fala de outra coisa. Na padaria, no café, no supermercado não se fala em outra coisa. E, no próximo ano, vai representar apenas mais um número. No entanto é tão brutal, tão trágico meu Deus. Por que caminhos andas Tu?

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    1. É mesmo, Joaquim. Ainda cá estamos. Para o bem e para o mal. Sem conhecermos o prazo de validade. O da sua vizinha já expirou. É verdade que são números e os números não doem. Mas neste caso doer não é o mais importante. Importa a consciência de serem mortes criminosas na maior parte dos casos. Provocadas pelos homens. A si. Aos outros.
      Deus não segue ao volante dos veículos. E não me parece que a Sua função seja desresponsabilizar os homens dos seus actos. Contra mim falo, condutora muito assim assim.

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  2. Ó Senhora Dona Bea, este texto está de antologia :)))
    Quando for grande também quero escrever assim,juro!
    Eu gosto do Setembro (e agora sai um cliché) talvez porque já estou no Setembro da vida, talvez porque vêm aí as belas e quentes cores do Outono, talvez porque o querido mês de Agosto é tão infernalmente quente aqui na Beira Interior... enfim gosto do Setembro.

    Feliz Setembro!
    🍁🍁🍁

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    1. Eu gostava intensamente de Agosto, que em nós é que os meses são. Pensando num certo eu que me deve existir e que prefere, já os meses vão sendo todos por igual. Ocupo-me a descobrir-lhes a beleza. Ou a inventá-la.

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    2. São folhas de plátano, adoro caminhar sobre estas fallen leaves...

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  3. Ah mas setembro também tem seus aromas... As uvas maduras, as romãs que vão ganhando cor, as abóboras que em breve poderão ser doce, a promessa de marmelada das gamboas... E o ar que fica mais leve. :)

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  4. mi dissculpi Luísa, mais não tô nem aí para esses cheirinhos piquenos qui cê falou. São coisinha mixuruca. Abóbora, gambôa não tem cheiro. Romã não cheira, uva, si beim mádura, quasi cheira a vinho azedo. E dôci, bem o dôci cheira uma coisinha dji nada. Qué compará?! Pois compara.

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    1. Não é comparação, bea, é complementação... :))

      Vije Maria qu'inté parece qui tu qué briga muié...

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  5. Sou fã do mês de Setembro.
    O calor já não é tanto e o frio ainda não chegou.

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  6. A natureza é magnânima em qualquer mês. É agradável poder observar e sentir a diversidade.

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  7. Os meses, os anos, os dias, as horas, os momentos... tudo passa, tudo se renova e nada é igual a antes, nem dura o mesmo tempo, nem é igual para toda a gente. Que bom registares essa beleza. Abraço!

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  8. Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

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  9. Cada mês com seu encanto e sentir esse encantamento não é para qualquer um!!!
    👏👏👏👏👏

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