Setembro.
Setembro que chegou em calor de lume lembrando torrinas negadas por Agosto. Mas
em Agosto houve o luar. As férias de quem. O subsídio de quase todos. As
pequenas loucuras e passeios, gelados, tempo de dias grandes correndo a fio nas
esplanadas, roupas leves, o corpo ousando a liberdade que é sempre maior e mais
linda no feminino, um ror de pernas, decotes que se prolongam em Vê e até onde,
o movimento um pincel delineando curvas evidências. E o sol. Nos cabelos, na
pele, o enigma do rosto sob um chapéu, boca no beijo da luz.
Em
Agosto houve os frutos da natureza. Maduros, sumarentos, chamariz de olfacto e
mãos. A doçura que escorre por entre os dedos, melões, pêssegos, sangue de ameixas
pegajosas, um resto de saudade no coração vermelho dos morangos que se despedem.
E a carne vegetal das cerejas, firmeza macia que se deseja e os dentes mordem em
festa. Ou os figos, impossível doçura. Os figos que escorrem mel e são
labareda, quentes como um trópico.
Em
Agosto há as malvas olorosas, as rosas insistentes, cravos e cravinas de cheiro
quente e íntimo, os malmequeres diáfanos e adstringentes. Em Agosto os jardins
cheiram à vida adulta vegetal e ao mistério da criação. O verão exacerba
odores. Tudo cheira. Matinais, os jardins convidam e perfumam. Mas nas horas de
canícula os cheiros entontecem, respira-se a saturação clorofílica a exalar, o
viço que se desprende. As plantas suam perfume. De noite, a mistura de
odores é ainda mais insurgente, razão por que os jardins são murados e fechados a cadeado. Assim se protegem os homens do perfumado mistério nocturno, dos
suspiros e desmaios longos das flores, do cheiro a respiração vegetal.
Não
sabemos por que grato acaso tanto nos inquieta e exalta a prodigalidade de
cheiros vegetais. Mas inquieta. Exalta. E também acalma. Copiamos de plantas
cheirosas o que podemos, quanto podemos. Contudo, o laboratório não chega ao rasto sublime da cravina humilde, da
modesta violeta, da quotidiana malva de cheiro, da madeira e casca de algumas
árvores e arbustos.
Mas
é Setembro. Os odores encurtam e surgem leves indícios de certo colírio
natural, amarelecem e caem as primeiras folhas. À tontura do frenesim odorífico
sucede a acalmia. A natureza
dispõe-se ao repouso. Devagar. Em beleza.
E, para outros, este belo, calmo e repousante Setembro... foi o fim da linha.
ResponderEliminarMorreram 600 pessoas nas estradas portuguesas no ano passado. Para mim é zero ou quase zero, porque não conhecia nenhuma delas. Não passa de uma cifra. Preocupa-me, e muito, mas não senti dor, a mim não me doeu.
Ontem recebi a notícia que uma senhora que morava no prédio ao lado, casada e mãe de gémeos de 1 ano, faleceu vítima de acidente de viação. É brutal. É uma tragédia. Esta noite não consegui pensar em outra coisa. Cá em casa não se fala de outra coisa. Na padaria, no café, no supermercado não se fala em outra coisa. E, no próximo ano, vai representar apenas mais um número. No entanto é tão brutal, tão trágico meu Deus. Por que caminhos andas Tu?
É mesmo, Joaquim. Ainda cá estamos. Para o bem e para o mal. Sem conhecermos o prazo de validade. O da sua vizinha já expirou. É verdade que são números e os números não doem. Mas neste caso doer não é o mais importante. Importa a consciência de serem mortes criminosas na maior parte dos casos. Provocadas pelos homens. A si. Aos outros.
EliminarDeus não segue ao volante dos veículos. E não me parece que a Sua função seja desresponsabilizar os homens dos seus actos. Contra mim falo, condutora muito assim assim.
Ó Senhora Dona Bea, este texto está de antologia :)))
ResponderEliminarQuando for grande também quero escrever assim,juro!
Eu gosto do Setembro (e agora sai um cliché) talvez porque já estou no Setembro da vida, talvez porque vêm aí as belas e quentes cores do Outono, talvez porque o querido mês de Agosto é tão infernalmente quente aqui na Beira Interior... enfim gosto do Setembro.
Feliz Setembro!
🍁🍁🍁
Eu gostava intensamente de Agosto, que em nós é que os meses são. Pensando num certo eu que me deve existir e que prefere, já os meses vão sendo todos por igual. Ocupo-me a descobrir-lhes a beleza. Ou a inventá-la.
EliminarQue flores lindas:)
EliminarSão folhas de plátano, adoro caminhar sobre estas fallen leaves...
Eliminar⚘
Ah mas setembro também tem seus aromas... As uvas maduras, as romãs que vão ganhando cor, as abóboras que em breve poderão ser doce, a promessa de marmelada das gamboas... E o ar que fica mais leve. :)
ResponderEliminarmi dissculpi Luísa, mais não tô nem aí para esses cheirinhos piquenos qui cê falou. São coisinha mixuruca. Abóbora, gambôa não tem cheiro. Romã não cheira, uva, si beim mádura, quasi cheira a vinho azedo. E dôci, bem o dôci cheira uma coisinha dji nada. Qué compará?! Pois compara.
ResponderEliminarNão é comparação, bea, é complementação... :))
EliminarVije Maria qu'inté parece qui tu qué briga muié...
Sou fã do mês de Setembro.
ResponderEliminarO calor já não é tanto e o frio ainda não chegou.
A natureza é magnânima em qualquer mês. É agradável poder observar e sentir a diversidade.
ResponderEliminarOs meses, os anos, os dias, as horas, os momentos... tudo passa, tudo se renova e nada é igual a antes, nem dura o mesmo tempo, nem é igual para toda a gente. Que bom registares essa beleza. Abraço!
ResponderEliminar:))
EliminarEste comentário foi removido por um gestor do blogue.
ResponderEliminarCada mês com seu encanto e sentir esse encantamento não é para qualquer um!!!
ResponderEliminar👏👏👏👏👏
Obrigada, Gracinha.
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