segunda-feira, 20 de maio de 2019

Dias de Poesia



Ouvir falar de poesia a quem sabe mais que nós é maravilha, gesto de mestre desvelando pedacinhos de mistério.  Encanto que alguns estragam com qualificativos vocabulares estranhos, em manejo de intrusos bisturis que se entretêm a retalhar o que é inteiro. Indiciam supérfluos fogos fátuos, mas, quem sabe, têm a sua acuidade.
Movida a intenções, rumei ao II Colóquio Internacional sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, para mim, apenas Sophia. Sophia e Eugénio de Andrade foram as grandes descobertas da minha vida. Antes deles, a poesia era a dos livros de leitura, nem boa nem má. Era. Para todo o sempre da memória moramos juntos, como Pessoa e o seu Menino Jesus.  Pertenço-lhes só porque sim, em extensa intuição amorosa de todas as letras. A sua poesia atingiu-me e trouxe-me, de seguida, outros poetas.
Foi um colóquio de qualidade, nomes sonantes da política à mistura. Que também por lá a inteireza de Sophia lutou e se desiludiu. Mas é agradável saber que a gente da Polis lê Sophia, a conhece. Não sei se os senhores ministros e ex ministros têm consciência que a convivialidade com a poeta lhes aporta ainda mais responsabilidade. Mas esse é problema deles.
O meu problema foi Adília Lopes. Conhecia Adília das palavras aqui e ali. Gostava delas sem mergulhos de luz, mas reconhecendo na poeta a afinidade despida de artifício que me seduz na vida, uma atenção ao quotidiano e à banalidade humana. Não estava preparada para uma mulher de massa densa que se levanta e, como criança tímida que mostra o rodado da saia e quer agradar, diz, Bom Dia. Nada me preparara para o seu quase pedido de desculpas por ir ler uma coisa pequenina. Como se nos estivesse a machucar ou pisar um pé. E leu a coisa mais simples e bonita, a sua história com a poeta. De como a conheceu e ela lhe acompanha a vida. Não o disse, mas escreve muito de encontro e contra Sophia, pega nos seus poemas e reverte-os ao seu sentido. Afirmou que a lê quando não lhe apetece escrever e, reconheceu, continua a motivá-la. Depois retirou-se e não mais se viu.
(cont) 

16 comentários:

  1. Pessoa preenche-me; abarca-me tantas latitudes que descuro os outros...é uma heresia eu sei!
    E uma injustiça... talvez.

    Não sei se gosto mais das suas crónicas, se das suas respostas aos meus comentários. O anterior é elucidativo.
    Por vezes, até dou comigo a desviar-me do tema, só para "puxar por si" e lhe conhecer uma opinião sobre matéria que me importa. Aprecio-lhe a inteligência e acuidade que coloca nos comentários; o modo certeiro com que afasta o acessório e penetra no nuclear. Na crónica sobressai a sua prosa poética, já tão elogiada pelos cibernautas residentes.
    E é neste jogo de escreve e espera, "neste caminho dos que se conhecem sem corpo e nem dele necessitam" (palavras suas), que se entreabre a luz nos opacos dias da minha existência. Bem-haja.

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    1. Joaquim, muito obrigada. Pode não acreditar, mas minto pouco. Digo-lhe que a net, mesmo com seus perigos e desaires, também traz certa luz ao meu entardecer. Talvez seja a minha estrela da tarde:)
      Puxe por mim à vontade. Gosto de escrever e de pensar em coisas.
      Um abraço

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  2. Gostava de ter assistido.

    Sophia comove-me até às lágrimas de tal modo que, por uma vez perdi o pé e emocionei-me como não podia,nem devia ao ler "um dia quebrarei todas as pontes ...". Ainda hoje, ainda agora, neste momento preciso, me toca até ao nervo.
    Já ouvi falar em Adília Lopes, mas não estou segura de a conhecer.

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    1. O meu amor por Sophia e Eugénio é coisa visceral e que não se explica. São um pouco como a água da praia, mas mais fáceis, posso tê-los sempre à cabeceira:). Mas gosto de saber que também tem assim uma queda enorme pela poesia de Sophia. Pode estar certa que ia gostar bastante do colóquio. Valeu a pena. Mas vai também haver um no Porto. E não creio que desmereça. Parece-me que há-de ser mais a sua zona. Quem sabe pode ir ouvir...
      Adília também não a conheço; daí a surpresa. Talvez deva ler mais umas coisas dela. Quem sabe na happy hour da feira do livro encontro alguma coisa...

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  3. Pessoa, Sophia e Eugénio sempre foram os meus poetas de eleição, aqueles a que volto sempre e sempre, sem nunca me cansar.
    Como gostaria de ter assistido... curiosamente, comprei hoje uma biografia da Sophia e estou desejosa de começar a lê-la.
    Também gosto muito da Adília, daquele seu jeito de menina grande, daquele seu jeito tão peculiar de dizer/escrever tudo, mas mesmo tudo, com uma tão desarmante sinceridade.

    Maria

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    1. Julgo que essa biografia pode ser a que foi escrita por um dos oradores e que o livro foi lançado na véspera do colóquio.
      Vai também sair - não sei ainda quando - toda a prosa reunida de Sophia, coisa que me interessa, desconheço os artigos que escreveu para jornais e revistas. E já saíram as cartas entre ela e Jorge de Sena editadas pela Guerra e Paz. Além disso, os seus contos infantis e menos infantis são inigualáveis.
      Ora ainda bem que também acha que Adília é uma menina grande.

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    2. Olá Bea, a biografia é da Isabel Nery, acabadinha de sair, e a capa é linda. A Sophia era um daqueles raros seres belos por dentro e por fora :).
      Falta-me ainda comprar esse da correspondência com o Jorge de Sena, mas tenho muitos livros dela e sobre ela: é um amor já muito antigo.
      Quanto à Adília, fui espreitar o livro "Manhã" e não é que encontrei lá uma crónica do José Tolentino Mendonça dedicada à Adília?
      Eu costumava guardar as crónicas dele, aliás o primeiro livro que comprei foi O Hipopótamo de Deus, uma colectânea de crónicas. Mais tarde passei aos haikus com A Papoila e o Monge - e outros se seguiram.
      Isto anda tudo ligado...

      Maria

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    3. Também tenho o hipopótamo de Deus:). Obrigada pelas informações. Hei-de ver esse livro de Isabel Nery

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  4. Sophia foi aqui homenageada muito recentemente.
    E com a presença do filho.

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    1. Ainda bem. Tenho esperança que a vão lembrando pelos séculos, que, como eu, há muita gente que existe e não lhe conhece a escrita embora comungue e seja sem saber os seus poemas. Em meus tempos também a dei a conhecer e fiz alguns fãs:).
      Parece que o filho Miguel não quis ou não pôde estar presente nesta homenagem (quem sabe não lhe apeteceu privar com tanta individualidade e amizade suposta).
      Alguém leu um excerto de uma carta a Jorge de Sena que achei um bom resumo: dizia ela que era difícil viver sendo em simultâneo poeta, mulher de um D. Quixote e mãe de cinco filhos.
      Bom Dia:)

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  5. A poesia para mim tem de ser simples... intensa e que me toque a alma e a mente se não... não prende meu olhar e muito menos o meu coração!
    Bj

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  6. A Poesia, Gracinha, pode assumir muita forma. Fernando Pessoa não é um poeta emocional e nem simples (mas parece); e no entanto, não conheço quem não goste dele. Sendo boa, a poesia é sempre atractiva. Depois, é claro, há o nosso gosto e adesão pessoal a prender-se espontânea a formas específicas.
    Bom Dia

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  7. "No poema ficou o fogo mais secreto
    O intenso fogo devorador das coisas
    Que esteve sempre muito longe e muito perto"

    Este seu postal deu-me vontade de procurar as palavras de Sophia. :)

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  8. Obrigada por elas, Luísa:). Como Sophia, julgo que o fogo secreto alimenta o poema; é o fogo primordial, uma matriz que elide as coisas e estando longe está sempre muito perto.
    Noto profunda religiosidade nas palavras da poeta.

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