domingo, 19 de maio de 2019

Bom Dia, Tolentino



        Bom dia, Sempre. Bom dia para os dias em que te não vou ver ou ouvir falar de ti. Bom dia ao fim dos meus recados que não te atingem e nunca lerás. Bom Dia!
Pois eu, ao invés do hábito, cheguei cedo à tua igreja. Mas cedo – e tão cedo que cheguei – era tarde para a saudade dos teus paroquianos. Qual curso, qual carapuça. Estavam  todos. Um mar de gente em completa invasão e que só não trepou pelas colunas: coro, corredores, altar...tudo abarrotava.
Resolvi-me a ficar de pé, apertada entre cotovelos e discrições de um católico que em vão tentava não me tocar (quase cómico). Mas, como é vezeiro na minha terra, “foi sol de pouca dura”, que o corpo não me sustenta as intenções. Acabei por ouvir-te sentada no chão, beirando a aparelhagem, num corredor periférico, a fita girando em círculos.
Não falaste de saudade e brevemente agradeceste a atenção geral, o interesse, a amizade. És o mesmo, mas outro. Engordaste. E falaste do que fazes. Como se aquela não tivesse sido a tua capela e fosses visita a dar conta da sua função no Estado do Vaticano.
Contaste dos livros e da sua história, do privilégio e responsabilidade de tomares conta de seis milhões de livros dos quais  cerca de oitenta mil são manuscritos. Disseste que guardas também a numismática e lá se encontra uma moedita que um português desconhecido deixou  de esmola nos princípios de sermos país, a par de potentes moedas de ouro, oferta de grandes reis. Proclamaste nossa essa biblioteca a perder de vista, cinquenta quilómetros de estantes que tanto impressionaram Francisco. É ponto assente para ti, pertence a todos os crentes. Desculpa, mas essa é uma verdade que julgo muito relativa.
Era o teu convite, o teu, “sigam-me” isento do “deixar tudo”, que a amizade não requer. É na extensa rua dos livros e das palavras que ora te encontraremos. Não há outro caminho. Pertences onde estás e depois de estares não voltas à vida do padre simples que sempre serás. És bispo.
Comove-me até às lágrimas a tua ausência delas, o teu seguir em frente, a aceitação do novo desafio, a compreensão exacta do necessário no momento certo que foi este. De certo modo, Tolentino, mais que o reencontro estavas a despedir-te do rebanho, um mundo onde me senti penetra mas sempre grata. Acredito que não tenha sido fácil. É lindo o caminho e o que importa não é chegar.
Faz de conta que sou também do teu rebanho. Bora ir por aí.

12 comentários:

  1. Embora eu não seja do rebanho da igreja católica ou de outra qualquer igreja, encanta-me a maneira como a bea se dirige a esse tal Tolentino:-*

    Domingo divino ⛅

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  2. Não sigo mas gosto de pensar que vale a pena seguir! Bj

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  3. O que não segue Gracinha? Não será, decerto, o caminho dos livros e das letras.
    Bom domingo

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  4. Que Deus o guie neste seu caminho, nesta sua nova e nobre função.
    Bjs, boa semana

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  5. É preciso dizer adeus, aprender a por pontos finais, fechar capítulos, encerrar etapas da vida… Para abrir outras.
    Como diz José Mário Branco, a vida é composta de mudança, tomando sempre novas qualidades...
    Mas para isso, é preciso ter coragem e convicção, porque dizer adeus é desapegarmo-nos daquilo que um dia já acreditámos, e de todas as expectativas que criámos.
    E depois, temos para connosco um invisível compromisso maior, o de responder ao desafio, o de tentar alcançar o limiar da perfeição visível e não desiludir quem em nós aposta.
    Sensível crónica de quem fica com saudades ao ver partir quem parte sem lágrimas (visíveis).

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    1. Pois...a minha saudade de Tolentino inexiste, só o vi duas vezes ao vivo e uma foi esta que conto. Conheço-o da escrita que é o caminho dos que se conhecem sem corpo e nem dele necessitam. E esse está aberto, julgo. Ele é poeta e mantém as crónicas.
      Beneficio há dois anos dos cursos que criou há quatro na Capela do Rato. E por mais gente que os frequente, descreio de alguém mais grato, estou no top five :).
      É verdade que a vida é composta de mudança. A de uns mais que outros. Não tenho dela a sua perspectiva despegada. Levamos sempre connosco o que vivemos. Há uma unidade que não se desfaz e antes ganha substância na mudança. A mudança é um porfiar no caminho do eu com os outros que o mais das vezes não se procura, encontra-se. Foi assim com Tolentino, julgo. Um "deixa tudo e segue-me" a que vem obedecendo desde que foi ordenado.

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  6. Pode ser que o poeta (talvez não o bispo) José Tolentino de Mendonça, que eu muito admiro, venha a ler esta carta e lhe responda…
    Umas boa semana.
    Um beijo.

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  7. Obrigada, Graça. O hábito de cartas sem resposta quase nasceu comigo. Fica mais fácil escrever pensando num destinatário, estou até pensando em encontrar outro qualquer. Haver resposta não é assunto em que pense. Embora ele o desconheça, eu sei onde me encontro com Tolentino, o garoto a quem a avó iletrada contava histórias. Nao é ser bispo e nem sequer ser padre o que nos aproxima. São coisas de infância que fizeram ninho na mente, rastos a que os anos deram sotaque e são sinais de nós. Comuns de dois. Não sei se lhe prefiro poesia ou prosa.
    Boa semana para si também :).

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  8. Sempre bom ler estes seus textos epistolares, bea.

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  9. Obrigada, Luísa. E quando volta às publicações? Sinto-lhe a falta:)
    Boa semana

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