Pois
eu, ao invés do hábito, cheguei cedo à tua igreja. Mas cedo – e tão cedo que
cheguei – era tarde para a saudade dos teus paroquianos. Qual curso, qual
carapuça. Estavam todos. Um mar de gente
em completa invasão e que só não trepou pelas colunas: coro, corredores, altar...tudo abarrotava.
Resolvi-me
a ficar de pé, apertada entre cotovelos e discrições de um católico que em vão tentava
não me tocar (quase cómico). Mas, como é vezeiro na minha terra, “foi sol de
pouca dura”, que o corpo não me sustenta as intenções. Acabei por ouvir-te sentada
no chão, beirando a aparelhagem, num corredor periférico, a fita girando em
círculos.
Não
falaste de saudade e brevemente agradeceste a atenção geral, o interesse, a
amizade. És o mesmo, mas outro. Engordaste. E falaste do que fazes. Como se
aquela não tivesse sido a tua capela e fosses visita a dar conta da sua função
no Estado do Vaticano.
Contaste
dos livros e da sua história, do privilégio e responsabilidade de tomares conta
de seis milhões de livros dos quais cerca de oitenta mil são manuscritos. Disseste
que guardas também a numismática e lá se encontra uma moedita que um português desconhecido
deixou de esmola nos princípios de
sermos país, a par de potentes moedas de ouro, oferta de grandes reis. Proclamaste
nossa essa biblioteca a perder de vista, cinquenta quilómetros de estantes que
tanto impressionaram Francisco. É ponto assente para ti, pertence a todos os
crentes. Desculpa, mas essa é uma verdade que julgo muito relativa.
Era
o teu convite, o teu, “sigam-me” isento do “deixar tudo”, que a amizade não
requer. É na extensa rua dos livros e das palavras que ora te encontraremos. Não
há outro caminho. Pertences onde estás e depois de estares não voltas à vida do padre simples que sempre serás. És bispo.
Comove-me
até às lágrimas a tua ausência delas, o teu seguir em frente, a aceitação do
novo desafio, a compreensão exacta do necessário no momento certo que foi este.
De certo modo, Tolentino, mais que o reencontro estavas a despedir-te do
rebanho, um mundo onde me senti penetra mas sempre grata. Acredito que não
tenha sido fácil. É lindo o caminho e o que importa não é chegar.
Faz
de conta que sou também do teu rebanho. Bora ir por aí.
Embora eu não seja do rebanho da igreja católica ou de outra qualquer igreja, encanta-me a maneira como a bea se dirige a esse tal Tolentino:-*
ResponderEliminarDomingo divino ⛅
Bons mestres, Teresa.
EliminarNão sigo mas gosto de pensar que vale a pena seguir! Bj
ResponderEliminarO que não segue Gracinha? Não será, decerto, o caminho dos livros e das letras.
ResponderEliminarBom domingo
Que Deus o guie neste seu caminho, nesta sua nova e nobre função.
ResponderEliminarBjs, boa semana
E digo eu: oxalá :)
EliminarÉ preciso dizer adeus, aprender a por pontos finais, fechar capítulos, encerrar etapas da vida… Para abrir outras.
ResponderEliminarComo diz José Mário Branco, a vida é composta de mudança, tomando sempre novas qualidades...
Mas para isso, é preciso ter coragem e convicção, porque dizer adeus é desapegarmo-nos daquilo que um dia já acreditámos, e de todas as expectativas que criámos.
E depois, temos para connosco um invisível compromisso maior, o de responder ao desafio, o de tentar alcançar o limiar da perfeição visível e não desiludir quem em nós aposta.
Sensível crónica de quem fica com saudades ao ver partir quem parte sem lágrimas (visíveis).
Pois...a minha saudade de Tolentino inexiste, só o vi duas vezes ao vivo e uma foi esta que conto. Conheço-o da escrita que é o caminho dos que se conhecem sem corpo e nem dele necessitam. E esse está aberto, julgo. Ele é poeta e mantém as crónicas.
EliminarBeneficio há dois anos dos cursos que criou há quatro na Capela do Rato. E por mais gente que os frequente, descreio de alguém mais grato, estou no top five :).
É verdade que a vida é composta de mudança. A de uns mais que outros. Não tenho dela a sua perspectiva despegada. Levamos sempre connosco o que vivemos. Há uma unidade que não se desfaz e antes ganha substância na mudança. A mudança é um porfiar no caminho do eu com os outros que o mais das vezes não se procura, encontra-se. Foi assim com Tolentino, julgo. Um "deixa tudo e segue-me" a que vem obedecendo desde que foi ordenado.
Pode ser que o poeta (talvez não o bispo) José Tolentino de Mendonça, que eu muito admiro, venha a ler esta carta e lhe responda…
ResponderEliminarUmas boa semana.
Um beijo.
Obrigada, Graça. O hábito de cartas sem resposta quase nasceu comigo. Fica mais fácil escrever pensando num destinatário, estou até pensando em encontrar outro qualquer. Haver resposta não é assunto em que pense. Embora ele o desconheça, eu sei onde me encontro com Tolentino, o garoto a quem a avó iletrada contava histórias. Nao é ser bispo e nem sequer ser padre o que nos aproxima. São coisas de infância que fizeram ninho na mente, rastos a que os anos deram sotaque e são sinais de nós. Comuns de dois. Não sei se lhe prefiro poesia ou prosa.
ResponderEliminarBoa semana para si também :).
Sempre bom ler estes seus textos epistolares, bea.
ResponderEliminarObrigada, Luísa. E quando volta às publicações? Sinto-lhe a falta:)
ResponderEliminarBoa semana