Era
ainda manhã fresca quando desembocámos nos jardins do Generalife. Ou seriam de
Alhambra, que de tudo neste mundo se me baralha a geografia. Vivo desgarrada de conjuntos, em alheios
lugares que ao mundo pertencem, mas torno meus e únicos, cortando - sem
intenção - amarras de continuidade. Irrompem-me a sós, desligados, imersos no
meu mal geográfico. E, ainda assim, são eles e não eu.
Desmedimos
na surpresa natural que nos recebe e naquela que nos diz adeus. Em delicioso
remanso, tudo por ali floresce. São aprazíveis jardins de canteiros coloridos e cheirosos, árvores aqui
e ali, arbustos de viço invejável, um pacífico sussurro de águas a
acompanhar-nos o andar por ruas cheirosas e com debrum de verdura. No meu parco entender, logo ali me quedava.
Ficaria rente aos cheiros a cedro e murta, dedos a saborear o frescor da água
corrente, desenhos de luz e sombra a tremeluzir-me na roupa. Surgiam-me
recatadas mouras (penso-as vagarosas e susceptíveis de deleite), num vaguear
dolente, ora debruçadas sobre as flores, ora no remanso de fresca sombra.
Contudo, penso que talvez fossem minorcas magrinhas ou anafadas e cabeludas, o que
não cai nada bem no quadro, mas é capaz de ser real; é comum de gente tão
morena ter abundância de pêlo. Quem sabe se não eram bigodudas ou assim. Mas
calma aí, os gostos da época também contam; e podiam ser esses. O buço de maior
acento era bem capaz de ser o mais requestado.
Ora esta, estou a esbandalhar o quadro. Avante.
Não
juro, mas parece-me ter entrado pelo Generalife. Sei que esparveci perante aqueles
tectos de madeira finamente talhada. Uma coisa do outro mundo, espécie de
paraíso que, traduzido, era a fina delicadeza de madeira trabalhada, aparentando
véus rendados e parcialmente sobrepostos. Nada o indica, mas são milhares de
pequenos pedacinhos encaixados uns nos outros de forma milagrosa e em leveza
inconcebível. Ignoro como foi possível executar tal maravilha. Mas existe, está
lá, pronta a ser admirada por olhos pagãos. Os nossos.
Depois deste cenário de paraíso, reparei na sala dos embaixadores (não tenho certezas acerca do nome). Por ser linda, penumbrosa, e ter na frente um pátio rectangular, enorme e luminoso. Nele, salienta-se um tanque com repuxos, a todo o comprimento debruado de murta. Tanta murta, pensa alguém. Ora aí está, a murta servia para desanimar maus odores. Porque - estas minhoquices sou capaz de recordar -, depois do tal tanque, lá ao fundo e mesmo defronte da sala do trono onde o califa recebia os ditos embaixadores, ficava a sala onde os cavaleiros aportavam vindos de todo o sítio. E não havia duches nessa sala. Nem abluções (não haveria?! Então e a hospitalidade...estarei a inventar?). Os sábios califas tinham a arquitectura por eles. Sentavam-se de frente para o pátio e ficavam da penumbra a escrutinar os visitantes que chegavam cansados da viagem de vários dias e é claro que cheiravam mal. Portanto, parece-me que a disposição e fausto do pátio que tinham de atravessar, acrescidos à canseira do caminho, faziam mais vulneráveis os emissários que, atemorizados e encandeados por fausto e luminosidade, penetravam na sala do trono incapazes de distinguir o califa (viam-lhe a silhueta). Que os estudava. Observava-os à indiscreta e pesada luz do sol, desde os confins do pátio e assistia à perturbada entrada na sala do trono. Não haja dúvida, os califas sabiam o que fazer e como. Até nos aspectos da política útil sublinhavam a sua superioridade. Alguns sorriam da turvação dos cavaleiros e a outros divertia-os a imagem de cavaleiros poderosos e muito senhores do seu nariz que entravam receosos, ofuscados e meio cegos, quem sabe se aos tropeços.
Grande texto!
ResponderEliminarAdorei cada pormenor Bea!
Beijocas
A Cláudia é uma querida que não sei mesmo como se diverte com as parvidades de uma velha a dar para o tonto.
EliminarSou-lhe muito grata por isso.
Bom dia e bom resto de semana
E assim imaginei a forte influência mourisca no local visitado.
ResponderEliminarForte, como dizia Ricardo Araújo Pereira, "forte é o Tarzan Taborda". Que é mesmo bem gorda essa influência, já que foi lugar concebido e edificado pelos mouros. As influências cristãs são de notar, por exemplo no palácio de Carlos V - que não apreciei -, redondo no interior e onde o imperador não chegou a viver. A parte que preferi em Alhambra é inteiramente árabe, e é conhecida por Os palácios dos Nasridas e situa-se no Generalife. Andei a pesquisar um bocadinho e verifiquei que entrei em Alhambra pela zona das torres que é fortificada. Mas quase só recordo o Generalife. E foi o que descrevi no post. Aquilo a que chamei sala dos embaixadores (?) é a sala do trono e mais suas envolvências. Tem completa traça árabe e é magnífica, uma rendição ao bom gosto.
ResponderEliminarUm belo diário de viagem 👏👏👏
ResponderEliminarBom sábado Bea
Bem haja, Gracinha.
ResponderEliminarBom domingo
O ALHAMBRA É INESQUECÍVEL E A TUA PROSA TAMBÉM.BJS
ResponderEliminarQuando penso no que vi em Alhambra, lembro-me das mil e uma noites; não o livro que as conta, mas o que eu imaginei quando pela primeira vez ouvi a expressão e que em mim tinha conotação bem mais exuberante e misteriosa.
ResponderEliminarUm beijinho, Prosa