quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Alhambra e Generalife

 

Era ainda manhã fresca quando desembocámos nos jardins do Generalife. Ou seriam de Alhambra, que de tudo neste mundo se me baralha a geografia.  Vivo desgarrada de conjuntos, em alheios lugares que ao mundo pertencem, mas torno meus e únicos, cortando - sem intenção - amarras de continuidade. Irrompem-me a sós, desligados, imersos no meu mal geográfico. E, ainda assim, são eles e não eu.

Desmedimos na surpresa natural que nos recebe e naquela que nos diz adeus. Em delicioso remanso, tudo por ali floresce. São aprazíveis jardins de  canteiros coloridos e cheirosos, árvores aqui e ali, arbustos de viço invejável, um pacífico sussurro de águas a acompanhar-nos o andar por ruas cheirosas e com debrum de verdura.  No meu parco entender, logo ali me quedava. Ficaria rente aos cheiros a cedro e murta, dedos a saborear o frescor da água corrente, desenhos de luz e sombra a tremeluzir-me na roupa. Surgiam-me recatadas mouras (penso-as vagarosas e susceptíveis de deleite), num vaguear dolente, ora debruçadas sobre as flores, ora no remanso de fresca sombra. Contudo, penso que talvez fossem minorcas magrinhas ou anafadas e cabeludas, o que não cai nada bem no quadro, mas é capaz de ser real; é comum de gente tão morena ter abundância de pêlo. Quem sabe se não eram bigodudas ou assim. Mas calma aí, os gostos da época também contam; e podiam ser esses. O buço de maior acento era bem capaz de ser o mais requestado.  Ora esta, estou a esbandalhar o quadro. Avante.

Não juro, mas parece-me ter entrado pelo Generalife. Sei que esparveci perante aqueles tectos de madeira finamente talhada. Uma coisa do outro mundo, espécie de paraíso que, traduzido, era a fina delicadeza de madeira trabalhada, aparentando véus rendados e parcialmente sobrepostos. Nada o indica, mas são milhares de pequenos pedacinhos encaixados uns nos outros de forma milagrosa e em leveza inconcebível. Ignoro como foi possível executar tal maravilha. Mas existe, está lá, pronta a ser admirada por olhos pagãos. Os nossos.

Depois deste cenário de paraíso, reparei na sala dos embaixadores (não tenho certezas acerca do nome). Por ser linda, penumbrosa, e ter na frente um pátio rectangular, enorme e luminoso. Nele, salienta-se um tanque com repuxos, a todo o comprimento debruado de murta. Tanta murta, pensa alguém. Ora aí está, a murta servia para desanimar maus odores. Porque - estas minhoquices sou capaz de recordar -, depois do tal tanque, lá ao fundo e mesmo defronte da sala do trono onde o califa recebia os ditos embaixadores, ficava a sala onde os cavaleiros aportavam vindos de todo o sítio. E não havia duches nessa sala. Nem abluções (não haveria?! Então e a hospitalidade...estarei a inventar?). Os sábios califas tinham a arquitectura por eles.  Sentavam-se de frente para o pátio e ficavam da penumbra a escrutinar os visitantes que chegavam cansados da viagem de vários dias e é claro que cheiravam mal. Portanto, parece-me que a disposição e fausto do pátio que tinham de atravessar, acrescidos à canseira do caminho, faziam mais vulneráveis os emissários que, atemorizados e encandeados por fausto e luminosidade, penetravam na sala do trono incapazes de distinguir o califa (viam-lhe a silhueta). Que os estudava. Observava-os à indiscreta e pesada luz do sol, desde os confins do pátio  e assistia à perturbada entrada na sala do trono. Não haja dúvida, os califas sabiam o que fazer e como. Até nos aspectos da política útil sublinhavam a sua superioridade.   Alguns sorriam da turvação dos cavaleiros e a outros divertia-os a imagem de cavaleiros poderosos e muito senhores do seu nariz que entravam receosos, ofuscados e meio cegos, quem sabe se aos tropeços.

 

8 comentários:

  1. Grande texto!
    Adorei cada pormenor Bea!

    Beijocas

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    1. A Cláudia é uma querida que não sei mesmo como se diverte com as parvidades de uma velha a dar para o tonto.
      Sou-lhe muito grata por isso.
      Bom dia e bom resto de semana

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  2. E assim imaginei a forte influência mourisca no local visitado.

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  3. Forte, como dizia Ricardo Araújo Pereira, "forte é o Tarzan Taborda". Que é mesmo bem gorda essa influência, já que foi lugar concebido e edificado pelos mouros. As influências cristãs são de notar, por exemplo no palácio de Carlos V - que não apreciei -, redondo no interior e onde o imperador não chegou a viver. A parte que preferi em Alhambra é inteiramente árabe, e é conhecida por Os palácios dos Nasridas e situa-se no Generalife. Andei a pesquisar um bocadinho e verifiquei que entrei em Alhambra pela zona das torres que é fortificada. Mas quase só recordo o Generalife. E foi o que descrevi no post. Aquilo a que chamei sala dos embaixadores (?) é a sala do trono e mais suas envolvências. Tem completa traça árabe e é magnífica, uma rendição ao bom gosto.

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  4. Um belo diário de viagem 👏👏👏
    Bom sábado Bea

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  5. O ALHAMBRA É INESQUECÍVEL E A TUA PROSA TAMBÉM.BJS

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  6. Quando penso no que vi em Alhambra, lembro-me das mil e uma noites; não o livro que as conta, mas o que eu imaginei quando pela primeira vez ouvi a expressão e que em mim tinha conotação bem mais exuberante e misteriosa.
    Um beijinho, Prosa

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