sábado, 25 de outubro de 2025

Vida na Cidade Ocre

 

        A visita a Essaouira, também chamada Mogador por navegadores portugueses que ali construíram uma fortaleza, permitiu-nos mais uma lambuzadela de vida árabe. Da viagem nos ficou a imagem de quase deserto entre as cidades, há a visão da planura a perder de vista e a cor barrenta a uniformizar a paisagem. Nada de morros ou cumes, zonas imensas de nem uma árvore, um casinhoto, alguém. Por vezes, bem na distante linha do horizonte, adivinhávamos um casario.

        Fizemos uma paragem na beira de estrada onde um rebanho de cabras devorava uma árvore, os animais empoleirados pelos ramos em diligente repasto, facto que deleitou turista. E os camelos. Ingenuamente julguei estarem ali por acaso. Observei-lhes a bossa, os arreios sebentos, um certo ar de burro de carga, comum aos nossos já poucos burros. Passou-me uma onda de compaixão por vê-los assim “em quieta melancolia na poeira do caminho”. Mas logo houve turistas de apetite aceso para uma voltinha. E os árabes servis, contentes do dinheiro por vir, os camelos ajoelhados, a carga subindo e eles a levantarem-se e elevá-la às alturas, obedientes à rédea por curtos minutos. Os turistas exultavam encavalitados na pobreza resignada daqueles monstros de olhar tristonho. E eu abstracta, para quê esta exibição de europeu palerma, quanto vale dizer “andei de camelo”?! Lembrei-me dos circos que visitavam a minha terra e onde alguns meninos, mediante paga, montavam um ou outro animal. Somos sempre os mesmos. Ao longo da vida, os mesmos.

        Essaouira é cidade piscatória e a sua baía um semicírculo bem aberto de praia ventosa; a água não destoa do ocre e em nada se assemelha ao azul mediterrânico. Mas as ondas. Incansáveis no mesmíssimo marulhar. O mar nos seus longes, afastado dos barcos que ali repousam da faina, parece negro, faz-se mistério.

        Do forte que foi português nada resta, o que vimos é fruto de reconstrução. Nem sequer soubemos se manteve ou não a traça. Que, à parte o estado de conservação ser superior ao dos nossos fortes, é parecido e tão ventoso como linda é a paisagem marítima que se avista. Em dia claro, os vigorosos bamboleios do mar de breu, ali se transformam em fúria de vaga mal disposta e levam a imaginação ao caminho das embarcações portuguesas, um alvoroço na tripulação ansiosa de chão firme. Aqui e ali há uns resíduos de português em nomes de pensão ou outro comércio. Mas a cidade respira apenas o árabe. O comércio de rua torna difícil a caminhada até ao restaurante. Por todo o lugar se expõem matérias diversas. Pintores e artesãos têm na rua a sua oficina e a variedade manda: da roupa tradicional a peças em couro, dos doces mais simples a peças de fruta e alimentos para nós desconhecidos. Sem contar com as especiarias e perfumes que enchem o ar, cheiros pegajosos e adocicados em estranha promiscuidade. Essaouira não corre atrás do turista, mas todos oferecem o que têm ou sabem fazer. E todos inclui velhos e crianças expondo artigos simples dos que nem consideramos poderem ser vendáveis e me fizeram olhá-los melhor: notei-lhes o ar indiferente e recolhido, estavam e não estavam ali, cumpriam.

        O povo árabe cultiva a aparência. Qualquer dos restaurantes que visitámos tinha portas velhas e gastas, entrada pequena e amorfa em rua estreita, e não indiciava o espaço alargado e sumptuoso das zonas de comer quase só frequentadas por turistas. Onde e o que comem os artistas de rua, os pescadores, os comerciantes, os tantos que vi nas motas a cair de podre e que, miraculosas, os transportam? Perguntei ao guia e ele respondeu que não comem nos restaurantes por onde andámos e que a sua vida não é como a nossa, eles não têm poder de compra.

        Na volta, por entre os descampados que se enterravam em silêncio próximo à noite, as torres de mesquita destacavam-se nos povoados e garotos sujos, e suponho que suados, envoltos em nuvens de poeira, jogavam futebol em campos de improviso. Passámos por vários grupos de garotos, o entusiasmo correndo atrás da bola. É fora de dúvida: o futebol existe-lhes.

(cont.)


19 comentários:

  1. Obrigada por dar a conhecer Bea!
    As palavras transformam_se em olhares!
    Boa semana 😘

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    1. Penso por vezes nisso, Gracinha. Cada uma de nós pinta os lugares com o pincel que tem:).
      Bom dia!

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  2. O que mais me impressiona negativamente nos países árabes é a falta de higiene na exposição e manuseamento ao ar livre dos géneros alimentícios, em especial a carne e o peixe.
    Quando se pede qualquer coisa para comer em tendas e quiosques dos mercados, a comida até pode ter algum sabor, devido às ervas e especiarias que lhe põem, mas é de fechar os olhos, comer e não pensar mais nisso.
    Para além disso é o gosto que eles têm em negociar qualquer artigo com o turista incauto e estarem horas a regatear o preço e a mercadoria.

    Às vezes penso que Miguel Sousa Tavares deve ter sido muito feliz em Marraquexe para a designar como a cidade onde gostaria de viver e ter escrito um roteiro partilhado num blog, que inclui o seu hotel favorito, o Mamounia, bem como sugestões de restaurantes, bares, lojas, livrarias e museus e também "o segredo de Marraquexe", que se refere à Praça Jemaa el-Fna ao pôr-do-sol, onde convida os leitores a vaguearem e não terem medo de provar os linguados fritos e os caracóis. "Outro segredo, esse mais bem guardado, são os palácios encobertos, na Kasbah, onde se entra por uma banal porta e se descobre um interior deslumbrante, inesperado, e a dona-de-casa nos serve um chá com biscoitos".

    E é tudo Bea, tenha uma boa noite, uma boa semana e aproveito para lhe deixar um bombom:
    Tema do post: voltar ao lugar onde se foi feliz.
    "Concordo com a ideia de voltar, se é o lugar que nos faz feliz. Mas voltar a lugares onde fomos felizes com outras pessoas e por elas, pode ser não apenas difícil, mas doloroso. Há lugares que talvez seja melhor manter intocados. E outros onde, ao contrário, rumamos de saudade uma e outra vez até que a vida os faz banais."
    Bea, 2018 (comentário num blog).
    PS: a senhora não tem arca, mas a nuvem está cheia de pérolas suas.

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    1. Bom, confesso que não tive coragem para comer nada do que a rua oferecia, mesmo pela falta de higiene. Talvez fosse saboroso, sim, mas no meio de tanta gente e cozinhado sabe Deus como....
      E depois há isso que diz, Joaquim, aborreço o modo de regateio constante. É jogo a que não me presto e para que não presto. Comprei mais caro no supermercado, mas havia preço fixo:). Há uma malícia no regateio que beneficia sempre o vendedor; na compra eles estão num patamar mais elevado. Parece-me desleal.

      Não li esse livro de Miguel Sousa Tavares. Li "Sul" e gostei qb. Também julgo que MST seja bem mais aventureiro que eu e compreendo-lhe o fascínio pelo diferente. Sim, terá sido feliz por lá. E teve muito mais tempo (julgo que também dispendeu mais verba) para ver a cidade e penetrar nos lugares mais interessantes. E aposto que o chá com biscoitos - que nos ofertaram em vários lugares e restaurantes e de que não gostei mesmo nada por ser dulcíssimo (os biscoitos não provei) - que lhe ofertaram seria até bem melhor. Ou terá MST grande falta de gosto, o que não me parece. Dos palácios encobertos não sei, depreendo que sejam particulares, vimos apenas o palácio Bahia que pouco tem de encoberto.
      Também é verdade que não esqueço "o segredo de Marraquexe".

      Pois não imaginava ter escrito isso. Li e até gostei:), está bem visto. Mera curiosidade: o Joaquim anotou o que escrevi há anos num blog?! É assim: eu gostei, mas não achei especial.
      Que a semana lhe corra como deseja
      Bom dia!

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    2. É isso mesmo Bea, anoto o que acho interessante já que não posso pegar num lápis e sublinhar...
      E pode crer, a sua nuvem está carregadinha.

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    3. Eh lá, Joaquim!... :)). Graças a Deus que escrevo e esqueço. Não me pesa. Mas nunca soube de pessoa (além de uma amiga muito querida) que me anotasse. Sou-lhe pois muito grata por esse seu peculiar. É certo já ter dito que gostava dos meus comentários. Não julguei que andasse tanto por seu pé (quero dizer, mão, dedos).
      Boa tarde

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  3. É como lhe disse: não há como ir e observar.
    Boa semana, Pedro

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  4. Obrigada pela descrição que faz de Essaouira. essa terra árabe que não conheço. Confesso que até fiquei com pena dos camelos e sem vontade de comer o que quer que seja. Gosto do que nos dá a conhecer.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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    1. Essaouira é um porto de pesca com a sua praia de ondas lânguidas a sobrepôr ao mar profundo e remexido a que assisti. As ruas do comércio ao ar livre estão pejadas de gente, os vendedores devem ser em número semelhante ao dos compradores. Há gatos por todo o lugar, tão ou mais lindos que nos postais e as túnicas femininas,, coloridas e muito bordadas, são invejáveis. Mas digo-lhe Graça que dar pelos gatos enroscados ao lado da mercadoria nem sempre foi surpresa agradável. Por entre os vendedores escuros e envoltos nas túnicas (algumas com capuz) havia as manchas claras de um ou outro europeu. Perguntei-me o que os fará ir ficando por lá, num mundo tão diferente. Talvez aquela vida aglomerada e sem intervalos de banca, o tu a tu comercial com os árabes, lhes diga alguma coisa. Talvez a mistura de cheiros os embriague e domine. Pensei sem querer pensar que seria um bom lugar para drogas e afins. Mas nada me foi dado ver, é mera suposição.
      Boa tarde, Graça

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  5. Um texto lindíssimo, cheio de imagens que quase se podem tocar 🍂 A tua escrita faz sentir o pulsar da cidade, com as suas cores, sons e memórias que se misturam. Há uma melancolia doce nas tuas palavras que encanta e prende o leitor 🌆

    Com carinho,
    Daniela Silva 💗
    alma-leveblog.blogspot.com — convido-te a visitar o meu cantinho ✨

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  6. Muito obrigada, Daniela.
    Vamos ver se visito esse canto desconhecido e me agrada.
    Boa tarde

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  7. Isto acaba por ser giro, conhecer sem realmente lá ter estado. Mas a descrição é boa, lá isso é :)

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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    1. Pois é, Cláudia, só hoje tenho tempo para rebobinar e ver o que me faltava responder:).
      Um bejinho

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  8. Quando há descrições de viagens/itenerários gosto muito de ir acompanhando através do Google maps, em especial quando são países ou locais que não conheço.. e onde provavelmente não irei. Ou seja, tenho acompanhado virtualmente por onde vai passando e as suas descrições desses locais.
    Para mim o olhar e sensibilidade do outro também é uma forma de viajar.
    Que continue a descrição!

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    1. Vou terminá-la, sim, Dulce:). Nem tudo me é fácil na escrita.
      Um abraço

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  9. Ninguém conhece verdadeiramente sem ir. As sensações face à realidade tudo superam (para o bem e para o mal). Ler é lenitivo, um anúncio, pode ser propedêutica e dar uma ideia que é a ideia de quem viu, sentiu,....subjectiva, portanto. Mas a realidade está sempre muito além das palavras, é outra coisa.
    Um abraço, Cláudia

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  10. Gostei muito desta tua descrição que me fez voltar lá, mas o palmeiral no fundo dum Ued pareceu-me mais bonito ou não seria o mesmo?

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  11. Não seria o mesmo, não. Eram palmeiras velhas e decrépitas à beirinha de Marraquexe. Um arremedo de palmeiral para turista pouco exigente, dos que só gostam de montar camelos para exibição das fotos. Mais ou menos isto. Detestei a guia sobre cuja eu escreveria qb. Mas não aprecio posts onde se desdenha.
    Bom dia, Prosa!

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