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sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Palácios dos Nasridas

 

Os palácios da dinastia nasrida são a jóia da coroa: Mexuar, Comares e dos Leões. Mexuar servia aos sultões para receberem os súbditos. Nele existe a ampla sala de audiências e, ao fundo do pátio – cada palácio tem um pátio -, a sala de espera. Lembro melhor o Palácio e pátio de Comares, onde se encontra a sala do trono de que já falei e que tem o tecto em madeira escura toda bordada a luz e tão recortada como qualquer bordado inglês que se preze; as janelas, veladas por uma rede de madeira trabalhada e perfurada, dão à sala certo aspecto de confessionário gigante, tal a penumbra. O que ali percepcionamos bastaria para nos render à arte árabe: a evidente inteligência da concepção; a beleza paciente e delicada que reveste paredes e colunas com azulejo miniatural e colorido; as inscrições em árabe e os frisos, um mais belo que o outro. E tanto pormenor que já não recordo, mas faz do conjunto uma obra primorosa. 

Mas o que decerto mais surpreende a maioria dos visitantes é o miradouro de Daraxa, situado – julgo – no Palácio dos Leões. É coisa de outro mundo. Avassalado, o visitante imerge, sente-se a sós com ele. Esquece que está rodeado de gente e que vive no século XXI. O donaire artístico daquelas janelas – sobretudo a que tem uma coluna a meio -  é de ver e não de descrever. E depois há toda a envolvência, a luxuriante vegetação e a simetria a que obedece, nos pátios  baixos que rodeiam o famoso miradouro. Apesar de nunca estarmos sozinhos, entra em nós um prazer grato e uma paz que se julgariam impossíveis. Vista dali, Granada aparece como a vida de cada um: irrelevante.

O pátio dos Leões é exemplo dessa harmonia entre materiais e construção. Não se esquece a elegância das colunas nem a sua disposição relativa; e tampouco a claridade que o chão de mármore proporciona ao olhar. A meus olhos, os ditos animais surgiram para justificar o nome, e eu trocava todos eles pela harmonia de qualquer coluna.

Talvez califas e sultões fossem seres de muita preocupação e guerra. Mas souberam rodear-se de beleza. O apreço ao belo e o reconhecimento da sua importância na vida humana são os melhores indicadores da sua cultura.

Não sei como lhes agradecer o facto de terem invadido a península ibérica. Por outro lado, pergunto-me como é que um povo tão evoluído se atrasou tanto e é capaz de infligir tamanho sofrimento às mulheres.

 

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Alhambra e Generalife

 

Era ainda manhã fresca quando desembocámos nos jardins do Generalife. Ou seriam de Alhambra, que de tudo neste mundo se me baralha a geografia.  Vivo desgarrada de conjuntos, em alheios lugares que ao mundo pertencem, mas torno meus e únicos, cortando - sem intenção - amarras de continuidade. Irrompem-me a sós, desligados, imersos no meu mal geográfico. E, ainda assim, são eles e não eu.

Desmedimos na surpresa natural que nos recebe e naquela que nos diz adeus. Em delicioso remanso, tudo por ali floresce. São aprazíveis jardins de  canteiros coloridos e cheirosos, árvores aqui e ali, arbustos de viço invejável, um pacífico sussurro de águas a acompanhar-nos o andar por ruas cheirosas e com debrum de verdura.  No meu parco entender, logo ali me quedava. Ficaria rente aos cheiros a cedro e murta, dedos a saborear o frescor da água corrente, desenhos de luz e sombra a tremeluzir-me na roupa. Surgiam-me recatadas mouras (penso-as vagarosas e susceptíveis de deleite), num vaguear dolente, ora debruçadas sobre as flores, ora no remanso de fresca sombra. Contudo, penso que talvez fossem minorcas magrinhas ou anafadas e cabeludas, o que não cai nada bem no quadro, mas é capaz de ser real; é comum de gente tão morena ter abundância de pêlo. Quem sabe se não eram bigodudas ou assim. Mas calma aí, os gostos da época também contam; e podiam ser esses. O buço de maior acento era bem capaz de ser o mais requestado.  Ora esta, estou a esbandalhar o quadro. Avante.

Não juro, mas parece-me ter entrado pelo Generalife. Sei que esparveci perante aqueles tectos de madeira finamente talhada. Uma coisa do outro mundo, espécie de paraíso que, traduzido, era a fina delicadeza de madeira trabalhada, aparentando véus rendados e parcialmente sobrepostos. Nada o indica, mas são milhares de pequenos pedacinhos encaixados uns nos outros de forma milagrosa e em leveza inconcebível. Ignoro como foi possível executar tal maravilha. Mas existe, está lá, pronta a ser admirada por olhos pagãos. Os nossos.

Depois deste cenário de paraíso, reparei na sala dos embaixadores (não tenho certezas acerca do nome). Por ser linda, penumbrosa, e ter na frente um pátio rectangular, enorme e luminoso. Nele, salienta-se um tanque com repuxos, a todo o comprimento debruado de murta. Tanta murta, pensa alguém. Ora aí está, a murta servia para desanimar maus odores. Porque - estas minhoquices sou capaz de recordar -, depois do tal tanque, lá ao fundo e mesmo defronte da sala do trono onde o califa recebia os ditos embaixadores, ficava a sala onde os cavaleiros aportavam vindos de todo o sítio. E não havia duches nessa sala. Nem abluções (não haveria?! Então e a hospitalidade...estarei a inventar?). Os sábios califas tinham a arquitectura por eles.  Sentavam-se de frente para o pátio e ficavam da penumbra a escrutinar os visitantes que chegavam cansados da viagem de vários dias e é claro que cheiravam mal. Portanto, parece-me que a disposição e fausto do pátio que tinham de atravessar, acrescidos à canseira do caminho, faziam mais vulneráveis os emissários que, atemorizados e encandeados por fausto e luminosidade, penetravam na sala do trono incapazes de distinguir o califa (viam-lhe a silhueta). Que os estudava. Observava-os à indiscreta e pesada luz do sol, desde os confins do pátio  e assistia à perturbada entrada na sala do trono. Não haja dúvida, os califas sabiam o que fazer e como. Até nos aspectos da política útil sublinhavam a sua superioridade.   Alguns sorriam da turvação dos cavaleiros e a outros divertia-os a imagem de cavaleiros poderosos e muito senhores do seu nariz que entravam receosos, ofuscados e meio cegos, quem sabe se aos tropeços.