Os palácios da dinastia nasrida são a jóia da coroa: Mexuar, Comares e dos Leões. Mexuar servia aos sultões para receberem os súbditos. Nele existe a ampla sala de audiências e, ao fundo do pátio – cada palácio tem um pátio -, a sala de espera. Lembro melhor o Palácio e pátio de Comares, onde se encontra a sala do trono de que já falei e que tem o tecto em madeira escura toda bordada a luz e tão recortada como qualquer bordado inglês que se preze; as janelas, veladas por uma rede de madeira trabalhada e perfurada, dão à sala certo aspecto de confessionário gigante, tal a penumbra. O que ali percepcionamos bastaria para nos render à arte árabe: a evidente inteligência da concepção; a beleza paciente e delicada que reveste paredes e colunas com azulejo miniatural e colorido; as inscrições em árabe e os frisos, um mais belo que o outro. E tanto pormenor que já não recordo, mas faz do conjunto uma obra primorosa.
Mas o que decerto mais surpreende
a maioria dos visitantes é o miradouro de Daraxa, situado – julgo – no Palácio
dos Leões. É coisa de outro mundo. Avassalado, o visitante imerge, sente-se a
sós com ele. Esquece que está rodeado de gente e que vive no século XXI. O
donaire artístico daquelas janelas – sobretudo a que tem uma coluna a meio - é de ver e não de descrever. E depois há toda
a envolvência, a luxuriante vegetação e a simetria a que obedece, nos pátios baixos que rodeiam o famoso miradouro. Apesar
de nunca estarmos sozinhos, entra em nós um prazer grato e uma paz que se
julgariam impossíveis. Vista dali, Granada aparece como a vida de cada um: irrelevante.
O pátio dos Leões é exemplo dessa harmonia entre materiais e construção. Não se esquece a elegância das colunas nem a sua disposição relativa; e tampouco a claridade que o chão de mármore proporciona ao olhar. A meus olhos, os ditos animais surgiram para justificar o nome, e eu trocava todos eles pela harmonia de qualquer coluna.
Talvez
califas e sultões fossem seres de muita preocupação e guerra. Mas souberam
rodear-se de beleza. O apreço ao belo e o reconhecimento da sua importância na
vida humana são os melhores indicadores da sua cultura.
Não sei como lhes agradecer o facto de terem invadido a península ibérica. Por
outro lado, pergunto-me como é que um povo tão evoluído se atrasou tanto e é
capaz de infligir tamanho sofrimento às mulheres.