De
Córdoba guardo imagem colorida. A cidade
surge-me avivada por usos e costumes, pinceladas de vida que a enformam. Recordo
hábitos que a defendem de agruras climáticas; o burburinho contente da vida nocturna,
mas sem o alarido de outras regiões espanholas; as lojas judaicas em discreta
exibição da sua arte comercial; os bancos de pedra virados à ponte romana, porto
seguro de quem anseia descansar, ou por ali se perde em devaneio contemplador; as
flores de varanda em sorrisos de salve-o Deus; o rasto vibrante dos árabes a ressumar
desde os seixos do chão. Córdoba permite repetir o desejo instante que me
acudiu em Ravena: podia viver aqui. E isto traz-me versos de canção, talvez de Sérgio
Godinho, “aqui (ali?) vivemos muitos anos”.
Olhando para trás, pesa-me o desconhecimento da
vida citadina de Granada. Nesta cidade, a memória descola do presente e guarda
pontos turísticos: o barrio Albaicín, Alhambra e o Generalife, Mosteiro da
Cartuja, a Catedral. Ali, a grandeza do passado oblitera o presente. Ruas,
granadinos, bulício de gente com seus usos e hábitos hodiernos, tudo se extingue,
resume, contrai. Granada vive circundada pela luminária da história. Nos
miradouros, turistas encandeados contemplam a cidade branca. Por entre as
casas, salpicos de cipreste são persistência militar no combate à aridez. E que
descanso, olhar essas manchas de verde profundo mescladas na alvura refulgente das
casas. Demoram-se os olhos nelas, repousam, como se a frescura lhes venha da
cor e sejam apenas sombra.
E
que dizer da ideia de trazer os rios até ao chão que se pisa? Em Córdoba e
Granada a calçada é uma renda feita de seixos, pequenos seixos rolados que
ardem sob os pés do turista desprevenido. Arrumados em formas várias,
quadrados, círculos, rectângulos, são pequena maravilha. E é bonito verificar a
utilidade de todas as coisas. Saber que os milhares de pedrinhas do chão vieram
da água e guardam na forma o seu efeito suave; não refresca, mas comporta
beleza imparável. Às pedras tão pisadas, já, por anos e anos, as afagou
a água. Pequenas e subsumidas em linhas de cimento, terão elas saudade?!
São duas cidades extraordinárias, repletas de um passado histórico que vale a pena conhecer. Ainda não tive essa felicidade e agradeço as observações feitas.
ResponderEliminarAbraço de amizade.
Juvenal Nunes
Fiquei a desconhecer Granada. Mas, o passado que visitei é soberbo.
EliminarBoa semana, Juvenal
Estou a ler o que escreveu, na sua prosa magnífica e vou recordando do meu espanto de quando visitei a Andaluzia: Córdova, Granada e Sevilha. Senti que tinham passado por ali pessoas que amaram aqueles lugares e os respeitaram. Obrigada por este texto.
ResponderEliminarTudo de bom para si.
Uma boa semana.
Um beijo.
Pensei isso mesmo, Graça. Alguém (que não foi singular, mas muita gente) amou profundamente aqueles lugares, os embelezou e protegeu dos vândalos (não o povo do mesmo nome) que acredito tenham existido desde sempre. Podermos visitá-los é privilégio e também pede respeito.
EliminarBoa semana
Um abraço
Por acaso não me recordo se já lá fui...
ResponderEliminarMas em tempos, quando era nova, fartávamo-nos de viajar, eu, meus irmãos, meus pais e meu avós. Era bom :)
Beijocas
Quando somos mais jovens vemos as coisas com olhos de juventude ou infância; e não são os mesmos olhos, não é, Cláudia.
ResponderEliminarBoa semana e as melhoras do avô.
Um beijinho
Adorei esta divagação final sobre os seixos que formam as calçadas, sobre o seu passado e presente, sobre a frescura que as moldou e o cimento que os aprisionou.
ResponderEliminarRespondendo à questão com que a Bia termina o post e dando "alma" a esses calhaus rolados....sim, estou certa que eles terão muitas saudades da liberdade que lhes foi tirada!
Oi, Bea!
ResponderEliminarViajei na sua prosa. Não conheço nenhuma das cidades mas a vontade de conhecer só aumentou lendo a postagem.
Beijus,
Pois vá por lá, Luma. Merece.
ResponderEliminarBom dia