domingo, 2 de outubro de 2022

Pormenores

 

De Córdoba guardo  imagem colorida. A cidade surge-me avivada por usos e costumes, pinceladas de vida que a enformam. Recordo hábitos que a defendem de agruras climáticas; o burburinho contente da vida nocturna, mas sem o alarido de outras regiões espanholas; as lojas judaicas em discreta exibição da sua arte comercial; os bancos de pedra virados à ponte romana, porto seguro de quem anseia descansar, ou por ali se perde em devaneio contemplador; as flores de varanda em sorrisos de salve-o Deus; o rasto vibrante dos árabes a ressumar desde os seixos do chão. Córdoba permite repetir o desejo instante que me acudiu em Ravena: podia viver aqui. E isto traz-me versos de canção, talvez de Sérgio Godinho, “aqui (ali?) vivemos muitos anos”.

 Olhando para trás, pesa-me o desconhecimento da vida citadina de Granada. Nesta cidade, a memória descola do presente e guarda pontos turísticos: o barrio Albaicín, Alhambra e o Generalife, Mosteiro da Cartuja, a Catedral. Ali, a grandeza do passado oblitera o presente. Ruas, granadinos, bulício de gente com seus usos e hábitos hodiernos, tudo se extingue, resume, contrai. Granada vive circundada pela luminária da história. Nos miradouros, turistas encandeados contemplam a cidade branca. Por entre as casas, salpicos de cipreste são persistência militar no combate à aridez. E que descanso, olhar essas manchas de verde profundo mescladas na alvura refulgente das casas. Demoram-se os olhos nelas, repousam, como se a frescura lhes venha da cor e sejam apenas sombra.

E que dizer da ideia de trazer os rios até ao chão que se pisa? Em Córdoba e Granada a calçada é uma renda feita de seixos, pequenos seixos rolados que ardem sob os pés do turista desprevenido. Arrumados em formas várias, quadrados, círculos, rectângulos, são pequena maravilha. E é bonito verificar a utilidade de todas as coisas. Saber que os milhares de pedrinhas do chão vieram da água e guardam na forma o seu efeito suave; não refresca, mas comporta beleza imparável. Às pedras tão pisadas, já, por anos e anos, as afagou a água. Pequenas e subsumidas em linhas de cimento, terão elas saudade?!

9 comentários:

  1. São duas cidades extraordinárias, repletas de um passado histórico que vale a pena conhecer. Ainda não tive essa felicidade e agradeço as observações feitas.
    Abraço de amizade.
    Juvenal Nunes

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    1. Fiquei a desconhecer Granada. Mas, o passado que visitei é soberbo.
      Boa semana, Juvenal

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  2. Estou a ler o que escreveu, na sua prosa magnífica e vou recordando do meu espanto de quando visitei a Andaluzia: Córdova, Granada e Sevilha. Senti que tinham passado por ali pessoas que amaram aqueles lugares e os respeitaram. Obrigada por este texto.
    Tudo de bom para si.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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    1. Pensei isso mesmo, Graça. Alguém (que não foi singular, mas muita gente) amou profundamente aqueles lugares, os embelezou e protegeu dos vândalos (não o povo do mesmo nome) que acredito tenham existido desde sempre. Podermos visitá-los é privilégio e também pede respeito.
      Boa semana
      Um abraço

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  3. Por acaso não me recordo se já lá fui...
    Mas em tempos, quando era nova, fartávamo-nos de viajar, eu, meus irmãos, meus pais e meu avós. Era bom :)

    Beijocas

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  4. Quando somos mais jovens vemos as coisas com olhos de juventude ou infância; e não são os mesmos olhos, não é, Cláudia.
    Boa semana e as melhoras do avô.
    Um beijinho

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  5. Adorei esta divagação final sobre os seixos que formam as calçadas, sobre o seu passado e presente, sobre a frescura que as moldou e o cimento que os aprisionou.
    Respondendo à questão com que a Bia termina o post e dando "alma" a esses calhaus rolados....sim, estou certa que eles terão muitas saudades da liberdade que lhes foi tirada!

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  6. Oi, Bea!
    Viajei na sua prosa. Não conheço nenhuma das cidades mas a vontade de conhecer só aumentou lendo a postagem.
    Beijus,

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  7. Pois vá por lá, Luma. Merece.
    Bom dia

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