Os preparativos de viagem são já viagem. Sente-se no fazer das malas que o corpo materializa e a alma não segue. Porque a alma foi na frente e está lá, no limiar do desconhecido, tão pronta para ele como, em cada manhã, o quadro negro da infância esteve pronto para o giz. Nela, ainda tudo é possível. Mas o corpo é outra coisa, mãos diligentes arrumam pertences, dobram, vincam, arredam docemente e nasce um breve espaço, logo preenchido por meias, uma écharpe leve, um sabe-se lá. A alma - a minha, que recusa pesquisar e antever - está em branco, sem possibilidades actualizadas sobre os ignotos lugares a que a diligência caduca do sensível é supostamente alheia. E será por esse natural aliciar do espírito, pelo que contém de expectante, que ele caminha na frente, liberto de concordâncias. Mau grado o reconhecimento sem evasivas do pragmatismo científico, nada nos existe tanto como enquanto vive de ser hipótese.
Nas viagens que usam o avião, o segundo momento acontece quando sentimos faltar-nos chão depois da nave emergir do ensaio em passinhos de bebé e armar em leão enfurecido. Repentina e insuspeita, ronca e galga na pista qual corredor alucinado para quem a insuficiência dos pés é notória porque breve se desprende do solo. Oh momento bendito! A par do irremediável de, em segundos, estarmos demasiado altos, convencemo-nos: somos parte da aventura.
Tenho um amigo que começa a babar mal delineia a viagem. Extasia com os lugares a visitar e programa o que ver e quando em cada um deles. A profissão de guia assentava-lhe que nem luva. Eu descansava-lhe nos planos. Conheço-lhe de perto a qualidade. Por motivos meramente circunstanciais e que não beliscam a nossa amizade, já não viajamos juntos. Portanto, viajei com uma agência. E digo: não é o mesmo. Redigo: é muito pior. Mas a vida é o que é. E mais vale deste modo que de modo nenhum como já sucedeu. Pura palermice encartada. Minha, pois claro.
Éramos quatro, número que nos pareceu suficiente para “manter o clima”, ainda que o resto da malta, hipoteticamente, fosse do mais sorumbático. Que nem eram. Mas viajar com amigos tem outro charme. E descansa-nos mais.
Vivemos ora em Portugal uns restos de verão. Mas, face à canícula do verão alentejano, o calor de Marrakesh é sufocante e o sol martiriza. O primeiro almoço, em restaurante marroquino, quase só para frequência turística e com ementa entre o marroquino e o europeu, encantou. Diga-se que mais pela decoração árabe do que pelas iguarias. Achei o máximo estar sentada num divã a almoçar rodeada de almofadas. Todos os dias as tagines estavam disponíveis. Tão disponíveis que causaram a vários excursionistas dissabores intestinos que, por acaso e alguma cautela, não me atingiram.
A primeira ronda pedestre aconteceu durante a tarde. À parte o massacre do calor, lembro as longas fitas de alcatrão, planas e rectas, nas avenidas modernas que atravessámos. Mas a esta imagem sobrepõe-se a confusão de tudo ao molho e fé em Alá, que é atravessar uma praça com trânsito. Entendemos de imediato que as motas – qualquer veículo motorizado com duas rodas – fazem a lei. Para elas não há semáforos, a cor vermelha não as altera: mantêm o ritmo, perseguindo o seu fim sem hesitações. Os automóveis são mais respeitadores e param no vermelho, mas colam-se uns aos outros e mudam inesperados de direcção. Vi alguns amassados, mas não tantos como seria de esperar. Resumindo: para um europeu, guiar em Marrakesh obriga a tirar nova licença de condução. A primeira impressão foi escaldante, cansativa e cativou pela diferença. A vida na cidade ocre, à parte as novas avenidas repletas de hotéis e condomínios fechados, lembrou-me em alguns aspectos, a vida portuguesa provinciana de há mais de cinquenta anos. No fim do dia os meus olhos insaciados reviam as buganvílias brancas e festivas, nem uma folha seca, acenos de frescura subindo e descendo muros. Impensável suavidade a debruar o inferno.
(cont.)
Eu adoro viajar e sabe sempre bem também quando se regressa.
ResponderEliminarMas também adoro planear e fazer logo planos, ver o que se pode visitar, etc.
Cláudia - eutambemtenhoumblog
Nunca gosto de voltar:). Nem sequer entendo bem porquê, sou pessoa caseira.
ResponderEliminarBoa tarde, Cláudia
Também gosto de planear uma viagem, na verdade ela começa aí, e não gosto do regresso. É como ir a uma festa ou vir de uma festa!
ResponderEliminarLembro-me de Miguel Sousa Tavares dizer ou escrever que Marraquexe era a sua cidade preferida se tivesse que abandonar Lisboa (o que não deixa de ser curioso para um portuense). Adiante.
Também achei bizarro a escolha desta cidade para viver, eu sei que ele adora o deserto, mas eu também gosto de ir à província, sabendo de antemão que ao fim de cinco dias regresso à cidade. Somos ambos citadinos e eu nunca fui a Marrocos, mas vislumbrei o deserto e o seu poder quando há muito ano fui à Tunísia. Mas continuo a achar que são deslumbramentos fátuos. No deserto, as coisas em que confiamos falham. Não há comida, nem água, nem sombra, nem abrigo, mas estamos mais próximos da nossa espiritualidade. Para quem como eu navega num mar de dúvidas e concede apenas crer numa concepção panteísta do universo, o deserto, como o resto da natureza, embora com especificidades únicas, mais não é do que uma parte ou manifestação do divino. Mas também estou curioso de conhecer Marraquexe.
Dizem que a praça Jemaa el-Fna é a alma de Marraquexe com os seus mil e um feirantes, desde o afamado sumo de laranja aos encantadores de serpente e que a cada hora que passa ganha uma nova fisionomia e que se torna muito interessante deambular pelos seus recantos. Penso ser o ponto principal da visita, embora haja que ter pachorra para a abordagem insistente dos mercadores como acontece em qualquer mercado ou bazar árabes.
Fico pois a aguardar com água na boca, pelas suas impressões como turista, especialmente os sítios onde encontrou beleza ou a falta dela, não descurando a parte social e as histórias que lhe feriram a sensibilidade e que a Bea tão bem capta.
Não há o que possa acrescentar , Joaquim. Concordo consigo acerca de desertos que nunca vi senão do avião. Está muito bem dito. Fica assim e não mexe mais:).
EliminarNão me parece que gostasse de viver em Marrakesh. Cristiano Ronaldo tem por lá uma casa sumptuosa, deu nome a uma rua e não sei se adquiriu um ou dois hotéis. Churchil teve lá uma casa - alguém contou ter morrido por lá - e parece que gostava muito de Marrakesh por vários motivos. Porém, lugares com demasiada poeira no ar, miséria aliada a espertezas rasteiras, não me são sugestivos.
Sim, também vou escrever sobre a dita praça:).
Vamos ver quando.
Um recanto que ainda não conheço mas espero visitar um dia destes!
ResponderEliminarTambém fiz as malas para um fim-de-semana português! Algo que dispensava e faço sempre em cima da hora!
Adoro regressar a 🏡
Bom fim-de-semana Bea 😘
A Gracinha inda não conhece?! Pois muito me admira. Para quem joga na diferença, é óptimo. Para quem só quer conhecer, também. Para quem prefere boas refeições europeias e não se cansar muito, não recomendo. E que ninguém vá no verão:)).
ResponderEliminarUm abraço
É uma experiência que não tenho (viajar com agência) mas admito vir a ter. E também nunca fui a Marrocos, infelizmente....para a próxima vou consigo:)
ResponderEliminarJá tinha viajado e mais do que uma vez, com agência. E é como disse: outra coisa. Mas a idade tem suas limitações. Até para alugar carro.
ResponderEliminarClaro, para a próxima junta-se à nossa comitiva, CC:).