As férias já foram, estão despachadas. Ignoro se fui eu a despachá-las, se elas a mim. Dias de praia não contam como férias. Na minha apreciação diferenciada e amorável de cada um, são equivalentes a férias, mas falta-lhes o dolce fare niente que as enforma. A praia exige-me o antes e o depois; que a casa não aprecia ausências de tal natureza e tem voz própria, comanda, quer tudo igual a sempre. Mas este ano está servida e é rainha de mim: pouco me desloco e ainda nem sequer espreitei a minha praia.
As basílicas e igrejas que percorri passo a passo são magníficas e profusas em pormenores, achei-as de uma beleza afortunada e não consegui memorizar e distinguir-lhes os interiores. Hoje lembro-as cada dia mais vagamente e sei que me ficarão na memória como símbolos da fortuna de reis e grandes senhores; sinais de uma época dourada de descobrimentos, mas também de escravos e tiranos, gente que morreu debaixo de pedras com as quais nada tinha a ver, por um deus desconhecido que nunca serviram senão a toque de chicote.
Contudo, no início fizemos um pleno: Mérida e as suas ruínas foram inéditos em visita guiada. Éramos poucos e com guia competente. Gostei de Mérida onde não investiguei lugares sagrados, a arena apenas dedicada aos jogos romanos, e logo o facto de não ter servido para derramar sangue humano me fez mirá-la e vê-la linda e leve. DE acordo com o que ouvi, Mérida destinava-se ao repouso dos guerreiros ou seja, servia para descanso dos veteranos de guerra (suponho que não todos, não o equivalente aos soldados rasos; não obtive resposta a tal pormenor) Depois as ruas estavam cheias de jovens guapas e mui romanas no trajar. Tão lindas! Pedi a um quarteto e tirei uma foto, olhos tão doces trouxe comigo. Mas a melhor foto foi mesmo sem pedir licença, a uma jovem ligeira e atrasada que quase corria praça fora enfunando tecidos maviosos que se colavam nas pernas e abriam na brisa: desmangada, brincos, tiara, pulseira no braço junto à axila, uma trança dourada a prender-lhe no ombro o véu escarlate, faixa dourada em cinturinha adolescente. E, sinal dos tempos modernos, os ténis brancos. Lembrou-me o que li há muito ano, na então Crónica Feminina acerca da foto de casamento (o primeiro) de Mike Jagger - vestido a rigor e calçando ténis brancos manchados de tinta, único traço de rebeldia que se permitiu.
Talvez um dia regresse a Mérida. Não é tão longe assim. E gostei das colunas de templos antigos, de um teatro representado por alunos do secundário, professores atentos dando as últimas dicas à vista do vulgo e mesmo antes da subida ao palco para apresentarem a morte de Marco António e Cleópatra. Tudo aconteceu nesse lugar mágico que foi templo de Diana; as colunas que eram romanas mas pareciam gregas e me trouxeram à mente o nosso Templo de Diana. Aquele, em melhor estado de conservação. Foi na frente dessa absorvente obra de arte que os garotos brilharam e morreram brevemente: elas pondo a mão no cesto, habitáculo da víbora, caíram com graça e de imediato. Marco António, como se sabe o primeiro a morrer, entrou a manquejar e, desfalecendo, acabou por morrer nos braços da amada e suas aias. E aplaudimos da sombra, que havia já uma aragem quente a intrometer-se e que esbraseava quando deixámos Mérida. Talvez seja da presença do rio, mas o calor não estrangula o verde e, quer das duas pontes, a nova e a romana, quer dos jardinzinhos que existem aqui e ali (há mesmo um jardim romano(?), adstrito à arena), a cidade verdeja e inspira, não nos seca a alma.
Inesquecível para mim o festival de teatro clássico de Mérida, tamanha a beleza dos espectáculos aos quais assisti no grande teatro romano. A cidade em si não achei por aí além...mas gostei muito de comer alcachofras de muitas e variadas maneiras, petisco que fiquei a conhecer lá. Acresce que foram as últimas férias felizes de uma relação de amor.
ResponderEliminar:) A minha relação feliz é mesmo com os lugares. É isso que mos torna eles ou os desfaz na memória. Não comi alcachofras, mas gostei das duas refeições que fizemos em Mérida. Têm uma cozinha apurada facto que em Espanha não é uma constante. Provei alcachofras em Florença nas pizzas, não lhes ligo muito.
ResponderEliminarA CC está em cima da jogada.
Boa semana
Serão em Outubro.
ResponderEliminarE sobretudo em Portugal que há muita coisa pendente e a exigir atenção.
Boa semana
Serão em Outubro?!
EliminarEu estou doida para ter as minhas... Que suplício.
ResponderEliminarJá fui a Mérida e também gostei. O marido teve lá uma prova e fomos alguns dias para visitar a cidade. Gostei =)
Beijocas
Em Espanha tantas são as cidades atravessadas por rios. Em poucas se sente a vulgar aridez de muitas das nossas urbes. Mas pertencem-nos tal qual como são e foi esse ser que aprendemos a gostar e nos fez tão diferentes dos espanhóis. Gostei de saber que Mérida também lhe agradou, Cláudia.
EliminarEu gostava de regressar a Mérida!
ResponderEliminarObrigada por me "levar" nas suas viagens!
Bom fim-de-semana Bea
Então e o que a Gracinha nos dá das suas imensas viagens? Isso não conta? Pode ser apenas gosto em fotografar, mas o meu gosto é pensar que também pensa em nós seus leitores.
EliminarBom fim-de-semana Gracinha
Já estive em Mérida mas não tive a sorte de assistir a representações no teatro romano, apenas imaginei, e deve ser arrebatador! Mérida é perto de nós, mas não tão perto que se possa ir quando se quer.
ResponderEliminarGostei de ler a tua descrição que me abriu a vontade de lá voltar.
Bom fim de semana Bea!
Penso que hei-de voltar, mas pode que não volte, E também concordo, deves voltar a Mérida. Digamos que apanhei o início de uma festividade qualquer na qual participaram todas as escolas, mesmo as do ensino especial. E, por ser o início e ser para escolas não havia muita gente (era quinta feira). Mas no fim de semana o pessoal ia arrasar, Fujo disso. Creio ter sido sorte, sim.
ResponderEliminarBom fim de semana, Prosa.
Ainda bem que a Bea ficou com essas boas imagens.
ResponderEliminarEu estive lá há muitos anos...gostei...mas estava tanto, tanto calor que não aproveitei como devia. Talvez passe por lá um dia...numa primavera ou inverno...
Com ou sem férias, boa semana Bea!
Há uma data de anos que fui a Mérida. Fiquei encantada. Com tudo o que vi e descobri. Apenas 2 dias. Com as concomitantes fotografias de que me estou a lembrar agora mesmo. As passadas romanas são inúmeras. Estou presentemente com um problema no pulso/mão, não posso quase escrever. Mas vou passando. Abçs Bettips
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