No interior do palácio Bahia, uma enormidade de gente tão ou mais encalorada que nós tornou difícil saborear pormenores da arquitectura árabe, a beleza dos tectos, as colunas graciosas e o mais. O edifício foi remodelado, mas ressalta-lhe certo ar de abandono e deterioração desgostosa. Senti-lhe o desconsolo das portas abertas, a perda do mistério que perpassa no recato encantatório da intimidade que se quer velada de raios solares, o lamento de tantos pés sobre chão outrora vedado ao povoléu, o desagrado de tanto olhar irrestrito, estranho, pousando a doer no que antes era mundo particular. A patine do tempo, as rugas de casa velha, o cheiro mofento e cansado que se desprende do todo e condensa nas paredes, estão lá, espreitam por entre a beleza da construção, igual a miséria que se esgueira por frestas da opulência. Ouvi-lhe esse protesto rouco de séculos, a desdita calada de saber que este é o modo errado de ver o mundo árabe: a mágoa do contínuo de si sem véus, o sem limite turístico a destruir a pureza essencial que in illo tempore ali fez casa. É palácio que, imerso na diferença, no que não é si mesmo, vai perdendo a identidade. E contudo vive, sente. Doem-lhe os torniquetes, o lucro, as invasivas e diárias multidões que o vão amputando.
Não vimos os jardins que julgo terem vários hectares. Foi visita a má hora e julgo que o palácio só não fechou portas por delicadeza, afinal - terá pensado de umas janelas a outras -, vieram de tão longe, estão suados, não têm hábito destas torrinas, há que deixá-los entrar, deixá-los moer-me os ossos descarnados, permitir que transgridam e tragam às minhas rugas sem blush o pó das ruas, que agridam a penumbra e reserva que me pertenceu e encham as salas de cheiros profanos e bafos de sol abrasadores.
Mau grado o castigo do sol, a visita permitiu-nos, caminhando na parte velha da cidade, observar intra muros o quotidiano árabe. Ruas estreitas desembocavam noutras ruas e, mais ao fundo, vislumbrávamos ainda outras. Todas semelhantes. Labirínticas. Os gatos, animais que os árabes pensam selvagens e livres, são propriedade comum e existem em qualquer lugar; vivem nas ruas, bem alimentados, de todo o género e idade, não temem as pessoas - dei colo a alguns gatos bebé, tão pequeninos e ternos e bonitos quanto se pode imaginar. Edifícios que pareciam pobres lado a lado, tronco a tronco; nunca de mão dada. O guia pormenorizou que se nos internássemos neles verificaríamos que o interior tem aspecto diverso; os árabes, que descobri cheios de estratagemas, conservam-lhes o aspecto exterior de pobreza inacabada para fuga a impostos e ladroagem. No seu elemento, expondo-se ao sol como se na sombra, chamando clientes em mau inglês, mãos fatigadas armadas de abanico para afastar o mosquedo da mercadoria, assim vimos o povo árabe. E tão poucas mulheres nos foram visíveis nessas ruas onde decerto também existem. Mas os cheiros. Vários. Nem sempre a especiarias. O estômago a protestar na revolta da tagine. E ali sim, apercebemos o caótico movimento do trânsito em ruas e sobretudo nas praças mais antigas. Recordei Paris em hora de ponta: a Praça L’Étoile repleta de trânsito automóvel que entrava e saía por todos os lados, nós a configurarmos absurda desorganização. Que urgia atravessar. Num soslaio, apercebi duas japonesas mirando o trânsito como quem enfrenta um problema matemático de difícil resolução. Apostámos nelas e, mal avançaram, imitámos. Salvaram-nos. Despedimo-nos sorridentes e gratos.
Regressemos a Marrakesh. Saindo da medina, seguimos em autocarro confortável e chegámos à parte nova da cidade. Percorremos a avenida ampla e “civilizada” do hotel. Aqui e ali, manchas coloridas de buganvílias escorriam de muros altos ou erguiam-se em aprumos de orgulho bem alimentado. Do lado oposto, as habituais marcas próprias de cidades europeias, supermercados das mesmas cadeias, oferecendo quase os mesmos artigos (fui verificar). Podíamos imaginar-nos em qualquer lugar importante da Europa, tal a semelhança. A diferença patenteava-se na arquitectura do hotel e no polícia armado a guardá-lo na entrada. Que das fortalezas muradas, onde as buganvílias reinam, nada é visível. Como canta Chico Buarque, afirmo, "tanto mar", separa as duas Marrakesh. Tanto mar de preconceito, desejo vão, vaidade, poder a separar os homens. Muros em cima de muros.
(cont.)
Lá está, não me recordo muito, pois era pequena. Mas recordo-me que não me chamou muito a atenção, nada.
ResponderEliminarLembro-me que gostam de regatear tudo, tentar enganar... Lá está, para voltar lá com o pequeno, só mesmo se vir que valerá a pena
Cláudia - eutambemtenhoumblog
Posso estar errada, Cláudia, mas não me pareceu muito adequado a crianças. Mas um adolescente já é capaz de gostar:)
EliminarBoa noite
... viajando através da escrita 👏👏👏
ResponderEliminarBj Bea
É mesmo uma escrita viajante. Com assinatura:)
EliminarBoa noite, Gracinha
O uso que a Bea faz da prosopopeia já não é novo. Na verdade, em esforço de memória, creio que lhe está intrínseco na escrita, fazendo parte do seu estilo.
ResponderEliminarMas esta personificação da tristeza do palácio está tão perfeita que até me pareceu vê-lo soltar uma lágrima.
E porquê?
A abertura de portas da propriedade (pública ou privada) ao público em geral é bom ou é necessariamente mau? Quantas propriedades não sobrevivem à custa da exploração turística, mantendo uma economia que lhes permite pagar impostos (algumas) ou ficarem isentas deles (outras) e suportar os custos de manutenção e de conservação?
O próprio interesse público, havendo, não é só por si um motivo maior?
Mal comparado, imaginemos que a célebre arca de Pessoa, nunca tinha sido aberta e divulgado o seu conteúdo. Já viu o que a humanidade tinha perdido à custa da preservação da privacidade do poeta?
Por outro lado, lanço-lhe a questão (lá estou eu a puxar por si), será que o interesse público se deve sobrepôr aos outros direitos de carácter pessoal? Sempre, por vezes e com que critério? Esta ponderação talvez não se afigure fácil.
Tenha um bom resto de tarde Bea e aproveito para lhe deixar um bombom.
"A morte não me pode ferir
Mais do que tu me feriste, minha amada vida".
Louise Glück, Nobel literatura 2020 - in Outubro, Averno
Aqui está um sentimento que bem pode ser partilhado pelo "palácio". Quem sabe?
Ora bolas, Joaquim, nem sequer me lembrava da prosopopeia que estudei há tanto ano. Confirmo.
EliminarOs palácios também choram, é verdade. Senti-lhe o desalento. As suas questões são notáveis, mas, se no que escrevi leu um protesto ao facto das obras de arte serem públicas, não é bem isso. Senti que as hordas de gente danificam, sim. Senti que a beleza do palácio está doente, anémica de tão esventrada. Nunca serei contra as visitas turísticas que tanto me deram já. Sou contra quem não preserva o património, quem deixa fugir o espírito e não respeita a integridade da arte, contra o sem regra e o inúmero de gente. Desejo que o palácio seja reabilitado com o rigor que ora não tem, que ele mesmo tenha guias próprios que o gostem e cumpram com prazer o papel; que estejam aptos para informar e educar o turista e que não admitam senão um certo número de pessoas dentro do edifício. É claro que isto é quase ideal, mas sem ideais não se avança.
Quanto à arca de Pessoa, está a parecer-me a arca de Noé, aquilo não tem fundo?! Pessoa não foi quem é à conta dela. E sim, sou contra o impudor de tornar públicas matérias que o escritor não quis dar ao prelo. Perdíamos muito? Mas já tínhamos o Pessoa que ele quis ser para nós. Não nos bastava? Pelo visto, não.
As questões não se respondem no geral, mas no particular. Portanto, dada a situação específica, aí é que cabe decidir. Casos existem em que vence o interesse público e noutros o inverso.
Quanto ao seu bombom: digo a Louise Gluck que ela não sabe porque nunca morreu, está a auto consolar-se. A vida pode golpear mais vezes, mas não com a força arrasadora da morte. Enquanto vivos renascemos dos maiores golpes; porém, morrer e renascer é próprio de um deus; que eu saiba, só aconteceu a Lázaro, por intermédio de poder divino.
Não, Joaquim. O palácio Bahia vai renascer. É verdade que a vida o tem maltratado, mas acredito que alguém lhe proteja a essência, para bem do próprio e dos visitantes.
Obrigado Bea pela sua resposta tão completa ao meu comentário. No geral, concordo consigo. A ponderação de valores obriga realmente a uma análise particular em função do caso concreto.
EliminarInfelizmente as verbas das administrações, quer central quer local, destinadas à conservação do património são muitos escassas porque há sectores como a saúde, a educação e a segurança onde fazem mais falta. A dúvida que se levanta é a de saber se uma correcta gestão dos dinheiros públicos não alteraria a situação.
No que respeita a Pessoa, se ficássemos somente com a sua obra publicada em vida, conheceríamos apenas a Mensagem e alguns artigos e poemas publicados em jornais, revistas e opúsculos. Demasiado insuficiente, perante a totalidade da sua obra, o que seria uma grande perda.
Nunca visitei Marrocos.
ResponderEliminarQuem sabe, um dia...
O ir é sempre outra coisa, Pedro. Filósofos houve que muito condenaram a sensação por ser enganadora. Mas deixarmo-nos ir por ela também chama o imaginário e ajuda a ver. Se é na mente que tudo sabemos e sentimos, é na sensação que se inicia o processo. Sou tacanha a conceber o inatismo. Bom, mas isso é outra conversa.
EliminarBom fim de semana, Pedro
Gosto das suas descrições porque fogem ao maravilhamento do turista típico e são criticas, realistas e questionadoras. Mas também me fica sobretudo a sua aflição com o calor...mas em que altura do ano é que foi?
ResponderEliminarFui em meados de Outubro. E a aflição não foi única; houve gente vária que não aguentou e voltou para o hotel:). Os termómetros chegaram apenas aos 32 graus. Mas deserto é deserto, e ele não está longe. O calor alentejano sofre-se melhor e é menos extenuante.
EliminarAlegra-me que esteja a gostar, CC.
Bom fim de semana
Visitei Marrocos em 2014 e pude reviver agora alguns aspectos de Marraquexe que tão bem descreves. O que me recordo principalmente dessa cidade é da praça Jemaa el-Fna, da sua efervecência e das sua luminosidade à noite. Fico à espera da tua versão! Obrigada!
ResponderEliminar:). Estou a seguir a cronologia e só vi a praça no último dia, Prosa.
EliminarBom fim de semana pati
Nunca visitei e sempre esteve no meu pensar. Pela Bea vou seguindo e VENDO, até cheirando, um mundo que existiu antes do nosso. Uma descrição original de quem sente o que vê e o que ouve. Aqui tenho vindo e virei. Obg Bettips
ResponderEliminarQuerida Bettips:). Volte sempre.
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