terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Uma Aberta

 

Sempre gostarei da prosa de Miguel Esteves Cardoso. Ao seu tempo, parece que foi inovador e que muitos ali beberam o estilo. Tudo coisas que pouco me interessam. Dei por ele quando, durante algum tempo, e já não me lembro porquê, comprei o Independente. Julgo ter sido por lá que descobri a publicação do livro de crónicas “A Causa das Coisas”. E bastante me serviu. Usei-o vezes sem conta em recreação pessoal, nas aulas, ofereci-o a amigas e julgo que, se nessa altura me falassem mal do Miguel, eu defendia o meu osso com unhas e dentes. Não fazia ideia do seu aspecto, mas isso não interessa nada. O élan aconteceu pela escrita.

Ora, o Miguel foi entrevistado para a Visão desta semana. E fiquei a saber mais umas coisitas sobre ele. Por exemplo, que coincidimos em Évora no mesmo ano, que ele chumbou por faltas em Sociologia, dado só escrever e ler. Bem gostaria de saber se seria o rapaz que, no Largo onde morei e de que não recordo o nome, mesmo de frente para nós, num primeiro andar de varandas verdes, víamos, dia e noite, sentado à secretária. Jamais o encarámos de frente, mas o perfil era-nos sobejamente conhecido. Nesse tempo de freiras e padres, aguentando verões e invernos difíceis, o Instituto era o suprassumo, o púlpito da juventude eborense. Qualquer garota que conseguisse um namorado do Instituto, subia de posto. Mas parece que o Miguel não apreciou. Creio que temos de Évora opinião muito idêntica e talvez seja esse o nosso único ponto de contacto. Além da relação leitor-escritor que desenvolvemos nos livros e artigos,  ele só imagina e eu sei.

O Miguel é um exagerado. Mas, por entre os seus exageros, diz grandes verdades, aponta caminhos, planta esperança. O que venho aqui ressalvar, razão do meu desvio nos caminhos do natal, é essencialmente: O gosto de viver que o possui - e é lógico e natural - sendo que desse gosto fazem parte os prazeres quotidianos. É como diz, a vida não tem tempos livres, o prazer é a toda a hora, não se deixa para quando. E agradou-me que tenha referido um dos meus/nossos prazeres – beber água se temos sede. Depois, avança com uma ideia bem prazerosa, uma visão de futuro que oxalá. Diz o meu guru que a este imperialismo do eu, se vai sobrepor a cultura do outro, cuja lhe parece mais realista e consentânea. Ou seja, lá está o professor Cerqueira Gonçalves a acenar com o peso da relação (o outro só existe nela). Digo que o eu precisa do outro para existir, é o outro que o reconhece. E o Miguel, que não tem papas na língua, arrasa o eu e mais a importância que a si mesmo se dá: cada um de nós é mera desimportância, grão de areia no deserto universal; o prazer quotidiano é aquilo a que nos devemos na efeméride da vida. E lá vem ele, de novo concordando comigo, a propor o limite moral: não se aceitam prazeres que magoem os outros.

A entrevista é longa e tem muito por onde pegar. Cada leitor a lê a seu modo, a interpretação é grande coisa. A escrita e o que distingue o escritor do narrador daria outro post, mas numa aberta não há tempo para mais. Portanto, deixo à vossa consideração a leitura.

Só mais um pormenor: diz o Miguel que  tem apenas 365 dias para viver os 67 anos.

 E, ainda que noutra idade, não acontece o mesmo connosco?!

6 comentários:

  1. E eu que achava que ele tinha a mesma idade que eu! Gosto dele, moderadamente (ah, ah...isto é só para dizer que não sou uma apaixonada).

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    1. Bom, o tempo da paixão literária também me passou há muito. Mas continuo leitora ainda que não leia hoje nem metade do que escreve.
      Bom dia, CC

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  2. Companheiro há longos anos.
    Nas leituras, nas músicas, nas crónicas que só ele pode escrever.

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  3. Também me acompanha. Como disse ali atrás, muito moderadamente. Mas não deixo de ser fã.

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  4. É um mix de "sentimentos" por ele.
    Há coisas que gosto, como há outras que parece que não lembram ao menino Jesus :) é como em tudo na vida.

    Beijocas Bea

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  5. Mas eu gosto das barbaridades e contradições que existem nele:). Porque as diz com graça e parece convicto. Olhe, só na entrevista, e lida sem grande atenção, encontrei algumas.
    Um beijinho, Cláudia

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