quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Um Alisar de Folha

 

O calendário de Natal do ano passado começou a 8 de dezembro. O de 2020 não me lembro, mas hoje inicio o calendário de Natal 2022.

Ora bem. Atendamos aos pressupostos acerca da data: a festa da consoada é a minha preferida. Encaro-a como o lugar aprazível e familiar que nos  preenche nessa noite em que o Menino-Deus faz anos. Imagino que lá no etéreo haja festa rija e os intervenientes originais recordem esse dia aziago que acabou bem – isto de andar muito grávida de estalagem em estalagem não é brincadeira nenhuma. E depois um burro é vagaroso e as dores de parto, garanto, são terríveis. Bom, numa virgem não sei, mas imagino que sejam em tudo a mesma coisa. Tenho imensa pena de Maria. Calculo que estivesse mal comida, andasse a fazer a dilatação sentada no burrico, toda dobrada e dorida por inteiro - o primeiro filho fica-nos na memória. Pronto, era a mãe de Deus, mas ele lembrou-se de ser homem e lá sacrificou a pobre. No nascer e no morrer não a poupou. Maria bem mereceu a assunção,  elevar-se assim, inteirinha, com sapatos e tudo. Mas um Deus é necessariamente bom filho. Um Deus cristão, entenda-se, que por exemplo os deuses gregos eram terríveis de maus, estou a lembrar-me de um(a) que pontapeou com tanto afinco o filho que o deixou coxo para sempre (pobre Hefestos, já não lhe bastava este nome horrível, ainda teve de ser coxo e feio). É como se vê, a violência doméstica começou cedo e em alta patente.

Retornando ao tema, parece-me bem que no Natal de Jesus Cristo (Cristo seria apelido? E da mãe Maria, ou do pai José?), o mais feliz foi ele. Porque, vejam só: o pobre José, aflito por Maria se encontrar naquele belo estado, calcorreava sítio atrás de sítio, a pé, guiando o burro que devia estar como ele, cansado; entrava nas estalagens, ouvia as negas e continuava caminho num lugar que desconhecia. E os anjos, em vez de lhe dizerem qualquer coisita, não. Andavam todos lá para Belém, entretidos a escolher poiso no estábulo, como se não tivessem tempo para isso. O parto do primeiro filho demora um tempo desgraçado, dava-lhes até para voar ao céu e fazer uns gargarejos ou mudar a harpa. E já agora: estou ciente de que Jesus é filho de Deus. Mas vocês desculpem, o pai é quem cria e educa. Portanto, não me venham cá com a teoria de pai adoptivo e tal e tal. José era o pai. Ponto final. Por outro lado, penso que o sangue de Deus (pai natural e sobrenatural) corria nas veias do bebé de mistura com o de Maria. É bonito um Deus de verdade misturar o seu sangue com o de uma mulher. Mesmo que o resto seja por obra e graça do Espírito Santo. Julgo eu que Deus-Pai fez de propósito só para lhe dar algum trabalho porque nem os católicos se lembram do tal Espírito Santo que, desculpem lá a má língua, é uma figura muito apagada, parece-me que, literalmente, existe para fazer número. Pessoa, no amoroso poema dedicado ao seu Menino Jesus, arrasa-o (ao Espírito Santo). Um dia que me lembre ainda hei-de trazê-lo aqui.

Mas atenção, mesmo na descontra, tenho de reconhecer: alguém que vem ao mundo por amor aos homens só pode ser Deus. Um Cristo que prega o amor e se deixa matar pela humanidade tem de mim o que queira. É que nós não prestamos, temos por vezes alguns actos dignos e é só. O resto é ramerrão, mais do mesmo com muita calinada à mistura. Bem precisávamos ser resgatados. Para o amor. Não há no mundo coisa que valha mais a pena que dar a mão a quem precisa e, na medida do possível, conservar a inocência de alma (se quiserem, do espírito; ou mesmo da mente).

E hoje foi Natal, pois foi. Paguei um almoço que devia há tempos. Pagar, em linguagem pessoal é fazê-lo, agarrar nele e levá-lo lá onde o esperam. Que agradável sentir-me bem recebida. Havia na mesa uma toalha de linho antigo, daquele fiado em tear manual com florinhas bordadas a ponto cheio (nunca tinha visto e palpado um linho tão linho). E, melhor que isso, em homenagem ao almoço, as minhas meninas que já quase não mexem, desceram à vez a escada, sentadinhas na cadeira igual às que vemos na TV. E comeram o que lhes pus no prato e depois  servi a sobremesa. Para remate, por entre cuidados e fragilidades, levei uma a ver as suas flores in loco (não as visitava havia muitos meses). Deu-me uma data de beijos e ciciou quando lhe ajeitei a manta nas pernas - já só cicia -, assim sim, almocei uma coisa que me soube bem; e vi as minhas flores.

Digo eu, foi um bom Natal.

9 comentários:

  1. Como já lhe disse muitas vezes, Bea, todos os dias visito este cantinho e delicio-me com a sua escrita que muitas vezes me leva a tempos idos onde ouvia certos termos que a Bea usa bastante. Mas, hoje, Amiga, não resisti e eis-me aqui a dizer-lhe que fiquei mais que fascinada, fiquei emocionada com a visita que fez às " suas meninas "; não podia , como de costume, entrar, ler e sair sem dizer nada, Bea: hoje tenho que lhe dizer, do fundo do coração, que, sim, que " FOI UM BOM NATAL " e, se me permite, acrescento, que Natal deve ser todos os dias, que Natal tem de ser fraternidade, partilha, amor ao próximo e não consumismo desenfreado, presentes , mesa farta e neste texto a Bea mostra-nos como podemos ter um Natal com essência, um Natal com o seu verdadeiro significado, um Natal que nos deixe realmente felizes; repartir faz-nos bem e nesta época natalicia, o desperdicio choca. Obrigada, Bea, pela emoção sentida, uma emoção que, de certeza, fará com que repense o meu Natal Um beijinho e boa noite
    Emilia 🙏 👏





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  2. Um postal lindo para celebrar o Natal.
    Bfds

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  3. Ora viva, Pedro:). Seja bem regressado.
    Bom Dia.

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  4. Aiiii, adorei este Natal daqui :)
    Mas que bem escrito, com os pormenores todos.

    Beijocas

    Sou eu, a Cláudia (eutambemtenhoumblog) mas não consigo "registar-me

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  5. Que tenha sido um bom dia, Cláudia. E haja por aí um fim de semana à sua espera.
    Vamos de dia em dia. Alentejanamente.
    Beijinho

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  6. Cada vez me sinto mais distante do Natal, de todo este folclore...quer em termos religiosos, quer no resto...mas gostei muito do almoço com as suas flores e disso já ser natal.

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  7. É. Foi o meu princípio de Natal. Espero que tenha sido o delas também.
    Sobre o Natal: a CC sabe o que penso; eu sei o que pensa. Gosto dele e sempre vou gostar, até quando termine tal como o vivo e entendo; aí, ficarei a relembrar. Não penso que seja folclore. Dá-me imenso prazer olhar os enfeites e as pequenas coisas que surgiram devido ao nascimento de um Deus que pregou o amor.
    Boa noite, CC.

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  8. Adorei o texto e os comentários sobre as famílias divinas e o teu Natal começou muito bem ,bem digno de tquem tu és. Obrigada.

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  9. São esses gestos solidários que fazem o verdadeiro Natal.
    Bem haja por seguir esse caminho!

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