sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Sissi

 

Fui ver Corsage. Por gosto à Sissi que Romy Scheneider ajudou a vender com tanto êxito.  Não vi qualquer dos filmes em que interpretava a mui original imperatriz, mas tenho pena. Acontece que, aos 8 anos, lia tudo que aparecesse sob os meus olhos (sob e sobre). Ora, Sissi, uma garota de sonho, explodiu-me nos livros da Colecção Cinema que minha tia caçula adquiria munida de espírito missionário. Depois de lê-los, abandonava-os em qualquer lado e não voltavam a interessá-la. Leitura acabada, a missão evaporava. Minha avó, na sua prática de analfabeta despachada, atirava-os para o carrinho onde passeara meu primo em bebé e que estava sem uso junto à capoeira das galinhas. Não era bem a capoeira, a carripana morria devagar na casota onde as aves dormiam, chocavam e meditavam. As galinhas são assim, têm horas de silêncio: empoleiram e ficam por lá pensando, olhos vagos. Será por terem tão pouca massa cinzenta que os pensamentos não repercutem na acção. Ou estarão apenas dormindo de olho aberto.

Portanto, minha gente, se queria ler, tinha de me sujeitar ao mundo. A primeira coisa que o mundo me exigia era a espera. A longa espera de ver minha avó azafamada com o panelão do almoço e mais o lume de chão que o alimentava. Nessas horas benditas, esgueirava-me sem esforço até ao que eu chamava a capoeira das galinhas e tentava destapar o depósito de livros. Minha avó teria certo pejo em deixá-los ao apetite dos galináceos e cobria a parte aberta do carro - nesse tempo, já descapotável retinto - com uma tábua que a inabilidade dos meus braços ajuizava ser de chumbo. O ex-carro de bebé era um artefacto rectangular, em tudo semelhante a uma banheira com rodas, excepto na pega onde me lembro de pôr as mãos para empurrar a cria de goela aberta, eu circundando a casa na esperança de emudecê-la. A segunda dificuldade era pôr à vista o tesouro. Talvez os livros nem fossem muitos, mas, mal conseguia arredar a tábua um nadinha e pôr-lhes a mão em anzol, parecia-me entrar num mundo imenso que lamentava não poder abraçar de mente limpa. Porque raras vezes tive ensejo de ver o tesouro na totalidade, a minha imaginação nadava no exagero e, para mim, eram volumes incontáveis. A terceira dificuldade, o cheiro a cocó de galinha, nauseava-me e suponho que seja móbil da pituitária esquisitinha que me possui. Mas era mister ler ali e estar atenta ao exterior. Minha avó proibia-me os romances como se fossem veneno. Se me apanhava em flagrante - acontecia de vez em quando -, tirava-me o livro sem cerimónias e arremessava-o para o lugar, apressando-se a fechar a gruta de Ali-babá com estrondo. Enfiava um carão severo e resmungava enquanto me punha fora da casota,  não te quero ali, a tua tia é maluca deixa tudo por todo o lado; aqueles livros não são para ti. Por vezes, chorava  a história interrompida, desejava a continuação. Mas nada demovia minha avó.  

Posto isto, como poderia eu esquecer aquela Sissi tão linda e o esplêndido Francisco José. Os livros da Colecção Cinema, tinham três ou quatro fotos do filme e precisei que minha mãe elucidasse que não eram dois bonecos perfeitos, mas duas pessoas. Fiquei ainda mais fã.

Mas a Sissi de Corsage é outra coisa. Já o nome indica. Lá iremos.

 

4 comentários:

  1. Até aos 18 anos vivi em Angola e recordo que ia ao cinema com o meu pai! Coboyada e amor eram os preferidos! Quanto a livros, morando eu em frente a uma livraria, era rara a semana em que não trazia um e o meu pai depois ia lá pagar!
    As minhas leituras sempre foram "avançadas" para a idade... até que um dia trouxe um de educação sexual que chocou o meu pai... 🫣😉 Perguntei-lhe se queria conversar comigo sobre o assunto! Ele olhou pra mim, sorriu e eu trouxe aquele calhamaço que desbravei na companhia do meu namorado...😃... Bj

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  2. A Gracinha era, isso sim, muito avançada para o tempo. Ou Angola era mais permissiva. Ler um livro de educação sexual com o namorado é mais coisa do actualmente:)

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  3. Nunca tinha ouvido falar... Mas eu quando era mais nova lia bem mais do que agora :/

    Beijocas

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  4. Sissi é personagem que vale a pena, Cláudia.

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