terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Escorrências

 

A chuva fustiga-nos e ameaça tornar este Natal numa grande tristeza. Para muitos, é já  dolorosa verdade. Ficamos pendurados no écran, a olhar. Incrédulos e esparvecidos. Tanta desgraça. São casas inundadas, mobílias e electro domésticos a boiar e sem serventia, automóveis submersos. E gente que empurra à vassourada a água invasora, como quem esconjura a má sorte. São lares que não se parecem consigo, estabelecimentos e postos de venda que deixaram de o ser. E, proprietários ou locatários, ainda sem fazer conta ao prejuízo,  de vassoura em punho. A par desta paisagem de ruas que viraram rio caudaloso, de moradores abismados, “há casas onde a água chegou ao tecto”, de automóveis candidatos à sucata, há os velhos. Os velhos que perderam o seu lugar de muito ano e não têm a força necessária para o recomeço. Falta-lhes tudo – o lugar onde se sentam, a cama que lhes tirou o molde ao corpo, as gavetas da roupa, a televisão, a liberdade do seu pequeno mundo. A água varreu-lhes os rituais quotidianos. E agora? Agora dizem - inconformados e desiludidos - como aquele senhor de Rio Maior: “agora vou lá para o norte para casa de família”. E encolhia ombros cépticos. Ele sabe o que todos sabemos: que as casas e as famílias de hoje não contam com os velhos. Por muitos quartos que existam em casa, os velhos ocupam sempre um quarto de que se precisa para outra coisa. Mas, na maioria dos casos, nem sequer há quarto ou lugar para eles. Dormem no sofá da sala onde ninguém os deseja porque a tv é ali e não apetece deitar cedo (a eles parece tarde); ou, pior ainda, dormem no quarto de um dos netos. E depois ressonam muito alto, e durante a noite levantam-se, acendem a luz, levam a vida na casa de banho. As casas modernas– salvo as excepções que o dinheiro compra – não foram feitas a contar com os velhos. Os velhos são um peso que se disfarça com sorrisos iniciais e se empurra à mínima aberta. E depois há ainda os que são recebidos no anexo e dali não saem. Não importa se o frio é muito porque o tecto é de telha vã; carregam-nos de cobertores pesados e sem uso, naftalinas de fundo de roupeiro. Que os edredons ficam todos em casa, pertencem aos netos e filhos. Por vezes, deixam-nos entrar em casa e sentar à sua mesa. Em muitas outras, nem isso. Mas os velhos precisam espaço próprio em casa dos filhos, ou serão infelizes. Essa é uma das razões para desejarem a permanência no Lar que sempre repudiaram. Deixam de ser pesados. Não estorvam. Não sofrem o desamor daqueles a quem deram o melhor de si e que nunca na vida abandonariam.

Foi isto que vi naquele encolher de ombros.  O mau é ser verdade. Existir.

10 comentários:

  1. Bem, Bea, que texto!
    Carregado de verdades que doem só de ler.

    Por ter um avô já bem velhote e uns pais a caminhar para lá, cada vez penso mais nisso.
    E como já referi várias vezes, sou toda contra lares, etc, a não ser que não tenha mesmo hipótese. Como é agora o caso do meu avô. Se não se curar a 100%, não terá outra solução, que a minha mãe não consegue com ele ao colo e todos nós trabalhamos.
    Até essa conversa já tive com a minha mãe. É horrível, mas tem que ser. Eles vão sendo cada vez mais velhotes mas nós ainda trabalhamos todos.
    É a vida. Mas não os conseguiria abandonar nunca. E lugar à mesa têm sempre.

    Beijocas

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    1. Em fim de vida não há quem mereça tal desamor. Dos velhos fala-se bem quando morrem, Cláudia. Há excepções, mas são excepções. E os velhos de hoje têm ainda a seu favor o terem vivido tempos difíceis, o salazarismo não foi pera doce. Mas de nada lhes valem agruras de outrora. Deixaram de ser produtivos e continuaram a ser aceites enquanto mantinham a sua autonomia. Mas quando começam a precisar da acção dos outros, a necessitá-los em continuidade, tornam-se um peso. Internam-se no lar. Visitam-no às vezes. Alguns têm a sorte de os irem buscar nas festas para invariáveis almoços em restaurante (que é isso de levar os velhos para casa). E não estou a inventar, observo isto até em mim. Não há muito quem os visite no Lar. Mas eles, até à morte - e independente do quanto a família os lembra -, gastam-se em memórias de filhos e netos. A vida é de uma injustiça notável, Cláudia.
      Boa noite

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  2. Aquilo que mais me custou Bea, foi ver tanto em Algés, como em Alcântara ou em Campo Maior, pessoas desiludidas e já sem vontade de reconstruir a vida. Levaram com as primeiras chuvadas, perderam imenso, meteram mãos à obra e uma semana depois levaram com outra pior.
    Isto fez-me lembrar o mito de Sísifo, repetindo eternamente a tarefa de empurrar a pedra enorme até ao topo da montanha, sendo que, quando o estava quase alcançando, a pedra rolava novamente montanha abaixo. Camus defendia que este absurdo exigia a revolta. Contra quê, os elementos?

    Eu que não leio regularmente a Visão, comprei-a esta semana por causa da entrevista de MEC, sem saber do post que lhe dedicou.
    É raro encontrar um homem livre em Portugal como MEC. Transportamos na consciência o medo do que vão pensar os amigos, os cunhados, a vizinha do quinto direito sobre o que pensamos e dizemos.
    Quanto ao post, achei piada por nos dar a conhecer mais umas migalhas sobre si.
    Apanhei-as todas :)

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  3. Pode crer que foi o mesmo facto a custar-nos. Pareceu-me demais da conta. E julgo que a proximidade do Natal ajuda a fazer tudo pior. Podia ser eu, alguém próximo de mim. Por um acaso não nos calhou desta vez. Tenho muita pena de todos; sei, por saber de experiência feito, o trabalho, o grande esforço que se faz para, como diz o povo, "levantar cabelo". Ver tudo isso - ou parte - ruir deve ser atroz. Mas a atrocidade é maior na velhice, quando a reconstrução já é impossível.
    Sobre Miguel Esteves Cardoso já disse alguma coisa do que penso:).
    Boa noite, Joaquim

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  4. Tens razão Bea, os velhos precisam do carinho dos filhos e netos e seria junto deles que se sentiriam felizes, por precária que fosse a sua existência. Mas a sociedade de hoje prefere, muitas vezes, por impossibilidades de vária ordem, colocá-los num lar. Como é assimétrica e injusta a relação entre pais e filhos!... E as coisas são piores , embora nem sempre, nos meios mais pobres. Há ainda situações anormais como estas das cheias que agravam o que já está mal.

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    1. Parece-me problema social. Uma falta de compaixão. Quando a alguém foge a utilidade - e mais se é por velhice -, o mundo não se compadece e estuga o passo. Considero isso uma falta de respeito; até à morte, todos somos homens. A poucos importa a dignidade de quem já deu o melhor de si à família e ao mundo.
      Bom dia, Prosa

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  5. Uma triste realidade! Recordo que me reformei para cuidar da minha mãe que partiu o fémur e acamou (podia ter dado mais aulas, mas os 35 anos ao serviço do ensino já tinham concretizado um sonho de menina)!... Meus pais não queriam ir para um lar de modo que realizei o seu desejo e cuidei deles até partirem! Não foi fácil...cuidar tem momentos muito bons mas também causa muito sofrimento e muito sacrifício! Eu, sinceramente não me importo de ir para um lar! O ideal seria terminarmos o nosso viver junto de quem amamos mas acredito que para muitos é tarefa muito complicada e para outros, os que podem e não querem... não se compreende!
    Bj

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    1. A Gracinha, decerto, não irá para um lar sem condições; ou um daqueles onde os velhos são encargo e todos sofrem de idêntico tratamento, onde as doenças agravam dia a dia, mas a idade serve de desculpa para todos os males. Onde os médicos que os visitam pouco ou nada fazem pelos residentes e antes cumprem a obrigação contratualizada. Onde os obrigam a levantar às cinco da manhã para ficarem sentados o dia todo, porque são muitos e a higiene de cada um exige tempo e espaço. E mais coisas que sei e não digo e ainda as que desconheço. O aspecto económico manda muito no final da vida, Gracinha (manda sempre muito, mas existe menos dano noutras fases da vida). Não somos todos iguais na morte, como é uso dizer. Mais certo é afirmar que todos estamos sujeitos a ela.
      Bom dia, Gracinha

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  6. O maior absurdo disto tudo é que a água que limpa, purifica, alimenta e dá vida...é a mesma que é capaz de sujar, destruir, dar cabo de tudo e até de tirar vidas. A natureza está bem zangada connosco...
    Por muito que tente não consigo imaginar a tristeza e a falta de perspectivas de tantos afectados. Creio que a Bea leu muito bem o tal enconlher de ombros......

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  7. Os homens colhem o que semearam, Dulce. Embora a natureza seja acéfala e penalize mais os sempre os mesmos. Danos causados a um pobre sem seguro podem até ser menores do que os do senhor que viu a sua casa invadida pelas águas; mas pode crer, causam mais estrago no primeiro. Os mais pobres fogem aos seguros, é menos uma prestação a pagar. Quem vive de cêntimos contados até ao fim do mês poupa onde pode, tira de um lado para pôr no outro semana a semana e, tanta vez, dia a dia. As catástrofes apanham-nos sempre de calças na mão. São pouco avisados? Não. São ignorantes e vivem em permanente dificuldade económica.
    Bom dia, Dulce

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