Desculpa
não te ter atendido no tempo certo. Talvez pelo facto de não ter pelo termo
advento um gosto particular. Mesmo no tempo de sentido nenhum, quando era
apenas palavra de acrescento vocabular, encontrava-a bafienta, tristonha, chocha.
Falta-lhe uma álacre vogal, um ditongo delator que nos entristeça ou arrebite. O
som sabe-me a mofo e fechamento de carranca. Pode significar espera, ânsia de
tempo novo que virá. O que entenderes. Mas não altera o sentir.
Chegou-me
– finalmente – o espírito. Terá vindo de Madrid com o Turrón. Ou de Lisboa com
o saco de roupa suja. Ou passou à minha porta e entrou. Não interessa o como,
mas que esteja. Bem sabes que tenho andado na azáfama de doces e sopas e o mais
para entregar. A propósito, e por favor, dá olhada em minha tia. A pobre não
provou as maçãs assadas nem o arroz doce. Então é coisa que se faça, Menino
Jesus?! A visita marcada não te tolheu os desígnios. Ok, bem sei que não mando
nada – nunca mando nada, que coisa - Está a pobre longe e meio morta, coração
descompensado em data tão de família. Cá ou lá é o mesmo, não a deixes sofrer
em demasia, deixa-a ter a visita do filho por uns minutos. É o meu pedido mais
instante. Para mim, nada. Está visto que devo ser uma pessoa feliz, ocupas-te
sempre com outras coisas; portanto, desobrigo-te da minha pessoa. Vira-te por
exemplo para a Ucrânia (só para te dar um nome, ainda assim não te iludas e nos
julgues no paraíso. Toma atenção: o facto deste ser o melhor dos mundos não é
sinónimo de um mundo melhor). Se puderes, entre a mudança de fraldas, faz
qualquer coisa pela dignidade humana que é tão afrontada. Diariamente, há gente
que morre por ela e gente que, até sem sem o saber, morre por falta dela. Dizes
o quê, vê se te explicas, é melhor tirares a chucha que assim não te percebo.
Ah, pronto. A dignidade é problema nosso?! Mau Maria (desculpa lá, Mãe de
Deus), é que Tu és só um, pode ser que eu te convença; bem sabes que não chego
para a humanidade inteira, parece-me mais tarefa divina. Continuo a pensar que
devias tocar o coração de alguns, mas pronto, se não podes, não podes.
Bom,
isto de falar com um recém nascido (é que ainda nem nasceste) por via digital envolve umas paletes de crença. Resmas.
Bem
gostaria de fazer o caminho dos pastores, campos fora. Mas de comboio, dou-me
mal com caminhadas e Belém é uma lonjura. Acho eu que não te levava presentes,
um Deus que mora no astro –como frisava minha avó espingardeira - de que
precisa. Mas ia beijar-te o pezito e a
bochecha. Com olhos de amor sentido.
E
posto isto, fica bem. Que hoje sou de muito afazer - com tanto doce para fora,
os próprios ficaram para trás. E já tenho convivas a almoçar. O arroz doce saiu
bem e já só está em metade, julgo que não chegue à consoada. Mas que é que isso
interessa. Desejo que a vaca e o burro estejam de feição que os animais são
como o vento, se embirram de não respirar para o teu lado ainda te constipas.
Dá os meus parabéns a tua Santa Mãe e aos dois pais e diz-lhes – embora os três
saibam, não é de mais repetir – que têm muita sorte, calhou-lhes um filho que faz
anos eternamente, já vai em dois mil e tal festas de aniversário. É obra. E
coisa mais divina não existe.
Um
beijinho doce
Desta
que se assina
Bea
Só passei para lhe desejar um Bom Natal e recolher para o meu sapatinho três ou quatro crónicas suas que ainda não li. Muito grato.
ResponderEliminarBom Natal, Joaquim. Desejo que tenha outras prendas no sapatinho. Ou vai muito mal aviado:).
EliminarA primeira frase deste texto é a frase certa para eu aqui deixar. :) Um Feliz Natal, bea.
ResponderEliminarBom Natal, Luísa. Ia deixar-lhe os meus votos de Boas Festas. Mas já que passou à minha porta, aproveito o momento
ResponderEliminarO meu espírito natalício nunca chegou e, por um lado, ainda bem que já passou.
ResponderEliminarO que eu me ri com a frase de falar com um recém nascido envolve resmas de crenças :)
Beijocas
O espírito natalício dá-me uma pica desgraçada. E quando passa escangalha-me. A Cláudia talvez não as tenha conhecido, mas havia umas bonecas cujos membros e cabeça não eram atarrachados, mas unidos no interior por um elástico (um, ou alguns) daqueles redondos e finos de cor amarelada. Se o elástico partia, a boneca desarticulava por inteiro, deixava de ser ela, restava uma data de peças. Quando o espírito evola, sou boneca sem elástico, nem sei a que terra pertenço.
ResponderEliminarEstas cartas a um Menino Jesus recém nascido ou a comemorar mais de dois mil anos têm muita incongruência. Mas desanuviam.
Boa semana, Cláudia
Adorei esta carta ao menino Jesus cheia de amor e de humor.
ResponderEliminarEu sou uma m8lher muito bem humorada:); por escrito.
ResponderEliminarUm beijinho, Prosa