domingo, 4 de dezembro de 2022

Sublinhados

 

As minhas desculpas ao calendário, mas ontem o Natal esfumou por inteiro, talvez antevendo a névoa de hoje, duvidosa de um improvável D. Sebastião-cadáver. Não me lembro se esfumou enquanto ouvia Lídia Jorge a conversar com Bernardo Mendonça e eu de mãos ocupadas no futuro de um cachecol; se foi à sua vida na cozinha e, farto de cheiros e clamores de panela, se resolveu em amuada brevidade de “vou ali e já venho”. Qualquer coisa. Também não sei se voltou; para abreviar hiatos e os aguentar na maior, compensei com um café. E agora, venha quando lhe der na bolha.

E dado ter-me faltado espírito para a escrita, veio-me à memória um trio que conheci em meus anos verdes que já não eram tão verdes assim. E posto que ao telemóvel deu para morrer nesta altura do ano (é que não dá jeito nenhum) e me faltam todos os contactos – nem o meu sei de cor – resta-me a outra memória. A lembrança é presença só com um vector, não existe diálogo entre lembrado e lembrador, e é grande pena.

Dos vinte e quatro aos trinta anos fui hóspede de uma senhora já de provecta idade (teria uns oitenta e tal quando a deixei). Era uma casa muito sui generis. O aluguel era em conta, mas, em casa, faltava quase tudo. Não tinha frigorífico, esquentador, máquina de lavar, …etc. Mas tinha a grande chance de a proprietária só a usar para dormir (entrava sempre depois de mim) e quanta vez nos vimos apenas ao fim de semana. Ou nem isso.  No fundo, era eu quem vivia ali em permanência. Viúva, a senhoria gastava-se literalmente a ser a empregada doméstica gratuita da única filha. Sem feriados ou dias santos.  Ponderada a situação, como nunca gostei de quem espiolhasse as minhas acções e em casa de meu pai nem sequer ainda havia luz eléctrica, avaliei que entre prós e contras a que estava habituada, era preferível ficar. Demo-nos como Deus e os anjos. Foram bons tempos, os nossos. O lugar geográfico era-me totalmente desconhecido e do que mais me lembro, talvez pela novidade que representou, era que, à semelhança do que sucede nos USA, as ruas tinham números em vez de nomes. Também me parece que jamais assistira a tão grande miscelânea de pessoas cruzando-se nas ruas. Vivia eu ali há mais de um ano, quando comecei a conversar, de varanda a varanda, com a filha dos vizinhos do lado. Era uma garota baixinha e amorosa, grandes olhos esverdeados, carinha de bebé, boquinha diminuta e aquelas bochechinhas de pele sedosa que apetece mordiscar. Frequentava o 12º ano e tínhamos uns cinco a seis anos de diferença. Mas demo-nos lindamente. Tão lindamente que chegámos a acampar juntas e fomos vezes sem conta ao cinema e à praia, víamos tv  em sua casa (filmes, filmes) e a mãe, uma doce senhora, conhecedora das minhas parcas condições de hospedagem, passou a dispensar-me, no frigorífico, algum espaço que eu tentava não fosse muito invasivo. Devo muito àquele casal, e a amizade com a filha foi panaceia num período em que a minha melhor amiga, seguindo a ordem natural das coisas, namorou e casou, a nossa amizade sofrendo o afastamento de que ambos os estados carecem. Aquela garota estava tão bem para mim e eu para ela que dávamos por nós a lamentar o ano que perdemos sem saber uma da outra sendo vizinhas.  Este post é um Deo Gratias a tanta gente que me compreendeu sem palavras e assim me deu a mão, aos que me ajudaram a ser fazendo-se próximos. A todos os que, cruzando o meu caminho se detiveram e incorreram em percurso conjunto, aos que me ensinaram, sem palavra expressa mas com exemplo, a dádiva de sermos uns com os outros.

Do fundo do meu coração, lugar onde moram comigo até à eternidade: Bem Hajam.

7 comentários:

  1. Eu chamo-lhes as pessoas casa:) Também tive desses abrigos fundamentais sem os quais jamais me teria salvo.
    Bonito Bea lhes agradecermos, mesmo que nem nos possam ler ou já nem delas saibamos.

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  2. Suponho que todos nós encontramos pela vida gente boa, CC. Mas o que desejo mesmo é que alguém, escrevendo ou não, sinta o mesmo em relação a mim. Alguém que não sejam os mais próximos. Que eu tenha sido de algum préstimo na vida dos outros. Disso, só eles sabem.
    Boa noite

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  3. Não estou a conseguir publicar comentários no teu blog. Por que será?

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  4. Há amigas/os assim que de repente, sem percebermos bem entram na nossa vida e não saem mais mesmo que se afastem. Penso que será uma empatia simultânea que vai ganhando raízes. Obrigada pela tua amizade.

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  5. E essas pessoas são tão boas. Das que fazem bem à alma.

    Beijocas

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  6. São pessoas que se vão chegando à medida que nos vão conhecendo. E nós, idem. Não são amizades intuitivas, daquelas que nos surgem como um amor: a gente sabe que vai ser amiga daquela pessoa desde o primeiro olhar. Estas são fruto da convivência e do jogo dos homens e da vida que os junta. Talvez sejam os nossos anjos da guarda que vão ficando para trás nos lugares que percorremos. É o que gosto de pensar, Cláudia.

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