terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Paisagem de Fundo

 

É do conhecimento geral que o Natal deste ano vai ter um fundo triste. E não apenas pelas crises económica e energética que por aí vêm e não dão repouso ao espírito. Que os portugueses sempre viveram em crise, umas naturais e outras – quase todas –, de fabrico humano. A tristeza vem-nos de saber a injustiça de uma guerra aqui tão perto; de, sentados à mesa ou no sofá, em ambiente aquecido e de estômago confortado, observarmos diariamente os destroços humanos e naturais; tanta cidade arrasada, tanto edifício-esqueleto, ruas intestinas em impúdico esventramento. E a solidão das coisas apodrecidas, a falta das vozes de criança, o minguado de vida activa. Por essa Europa fora, quanta gente desirmanada e estrangeira à procura de uma identidade que lhe sirva, mesmo se fingida;  perguntando-se, eu a solo como sobrevivo, eu para que sirvo, quem sou assim separada por distância e má fortuna. E, na maior parte dos casos, existem com a morte no colo, carregam-na por todo o lugar. Pergunto-me se estarão vivos.

  Bem sabemos, há guerra noutros pontos do mundo, os inocentes são muitos mais. Lá, como na Ucrânia. As guerras são soberbamente desumanas e anti democráticas. Metódicas, derrubam os mais fracos e servem-se deles para combater; os fracos, leia-se, os de menor poder económico, não têm fuga ao destino, são, em bloco, carne para canhão. Quem promove a guerra visa a submissão e usa a autoridade pisando sobre o corpo de outrem, ignorando-lhe os direitos. Guerra é exercício inteligente do poder – há uma atractiva inteligência do mal -, força bruta e indevida de os homens roubarem uns aos outros o bem mais precioso e efémero que possuem.

Mas há ainda a vida de cada um, essa inamovível guerra pessoal atrelada ao sujeito. Injustiça que, em tanto caso, não foi escolhida e lhe cai em cima com fragor. Faz-nos bem saber destas coisas, vê-las, assistir-lhes?  De tudo que é contra o homem, não pode advir bem, e a impotência perante um mal irremediável amarfanha, retrai. O que dizer a quem, faça o que faça, se degrada a cada dia que passa. Não há letras para dizer um arco íris invisível. É tudo noite.

Então, colocamos as mãos frias entre as nossas, puxamos o aquecedor e  sobre ele estendemos a manta dos joelhos que acomodamos sobre pés e pernas, canalizamos o calor. E, enquanto alenta, sempre de mão na mão, contamos uma história engraçada. Até que lhe assoma um sorriso e mãos e pés aquecem.

Mas isto, é o quê?! Nada. É mar alto e não sabemos nadar.

12 comentários:

  1. " Mas isto é o quê? Nada!" Concordo, querida Bea, É nada o que sentimos pelos inocentes que sofrem com todas estas guerras desumanas. Somos pequeninos demais e só podemos lamentar e fazer TUDO o que estiver ao nosso alcance para que, perto de nós não haja pessoas e muito menos crianças a sofrerem de fome e de frio. Que a elas lhes chegue pelo menos um " cachecol " tricotado carinhosamente para que se sintam afagadas neste Natal. Se há dias vim aqui para lhe dizer que me causou boa disposição o texto onde fala de Maria, hoje não podia sair sem lhe agradecer este momento de grande reflexão; estaremos quentinhos, sentados à mesa farta e por esse mundo fora tantos e tantos não terão o que comer. Pensemos neles, pelo menos! Um beijinho e boa noite Obrigada!
    Emilia

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    1. O nosso pensamento acerca dos que sofrem com as guerras que a humanidade inventa é ainda egoísta, Emília: faz-nos mais grato o conforto de que usufruímos, melhora-o por comparação. Porém, ao alcance da mão, estão os doentes sem remédio que o acaso escolheu, inocentes do que lhes coube, sofrendo, sem escolha, amargo destino que não o da fome e do frio do mundo, mas pode acarretar as carências de alma. É outra guerra. Sabe-se o resultado e o caminho que ninguém quer, mas foi onde a vida os largou e não há como fugir-lhes. Nas guerras da humanidade a esperança vinga, resiste sempre, mesmo que se cinja ao sonho de vencer. Mas algumas guerras individuais são negras e não há outra escolha senão vivê-las até ao fim. A autodeterminação do como viver não existe. É guerra que, pouco a pouco, tudo toma para si, e, tendo o cuidado de deixar ao sujeito o entendimento, o mantém consciente. Parece maldade. Se do acaso, não sei. Os caminhos humanos - por decisão divina ou não - são na verdade imperscrutáveis.
      Bom dia:)
      Bom dia, Emília

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  2. Somos impotentes perante essas tragédias.
    Só as podemos denunciar.
    Infelizmente, nada mais que isso.

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  3. Denunciar. Em alguns casos. Noutros, a denúncia vale nada, Pedro. Mero desabafo inconsequente. Fingido alívio de espectador.
    Mas o Natal também é isto.
    Bom dia.

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  4. O Natal não será por certo em muitos lares a FESTA da FAMÍLIA e isso será sempre triste em cada recanto onde se comemora esta data festiva... e "as guerras" agravam a situação 😔... Bj

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  5. Sabe, Gracinha, o que penso é que há guerras que nos estão muito próximas. E mais nos vale dedicarmo-nos a minorá-las como sabemos e pudermos; sem esquecer os de casa, a família. Porque nada pode ofuscar o que também a eles devemos. Em família todos devemos uns aos outros.
    Um abracinho e faça o favor de viver um dia bom:)

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  6. Se a Emília vem comentar de leveza, é porque o post é bom com certeza. Até rima e é verdade :)

    Contrariamente ao que se pensa, todos nascemos com manual de instruções que é o nosso livre-arbítrio. Distinguimos o bem do mal e somos levados pela vida fora por essa luz (cada um com a sua), que tanto nos ilumina como serve de farol sob a forma de objetivos para a vida (o homem nasce depois faz-se). Para uns essa luz é a de amealhar o maior número de riquezas possível, para outros realizarem-se numa actividade ou numa devoção, para outros ainda, unicamente sobreviver.
    Embora, como se sabe, sejamos influenciados pelos outros, pela geografia onde vivemos, pelas circunstâncias, pela educação que recebemos, etc., em última análise a escolha é nossa, unicamente nossa.
    E assim, cada um pela sua cabeça, queremos o melhor para nós, para a nossa família e amigos e para os nossos filhos, mas como os bens disponíveis são escassos, dá-se a luta a que Marx chamou de classes e talvez radique aqui (numa visão antropológica, social e económica), toda a luta na história da humanidade pela sobrevivência e pelo poder.

    Coitados dos que sofrem, dos desamparados, dos infelizes, dos doentes, dos desalojados, dos refugiados, dos sem-abrigo, dos desempregados, dos que vivem sós.
    Num momento de piedade, compaixão, solidariedade ou o que se quiser chamar (muito próprio da quadra que atravessamos), vêm-nos à lembrança e rezamos por eles ou como muito bem sugere a Bea ("O nosso pensamento acerca dos que sofrem com as guerras que a humanidade inventa é ainda egoísta, Emília: faz-nos mais grato o conforto de que usufruímos, melhora-o por comparação"), tão somente por nós, para que nos mantenhamos incólumes às desgraças do mundo.
    Não há nada a fazer com este barro Bea, mesmo que o molde fosse perfeito a peça saiu defeituosa.
    Tenha um bom dia.

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    1. Pois é, Joaquim, somos imperfeitos. Mas todas as imperfeições que, deliberadamente, são usadas para prejudicar terceiros, custam um bocadinho a engolir. Além disso, eu que não pretendo ser santa e até julgo que as imperfeições humanas ajudam a compor a diferença individual, suponho também que o "fazermo-nos no mundo" inclui a formação do carácter e o respeito ético. O "estar a caminho" filosófico. A tarefa de realizarmos a humanidade que nos pertence fica sempre inconclusa, mas é por ela que nos batemos.
      Sobre estes temas haverá sempre muito a dizer e muito quem divirja. Não tenho receita, mas sociedade ou indivíduo sem princípios éticos assustam-me.
      Boa noite, Joaquim.
      Mas isto sou eu. Porque, por sermos imperfeitos é que somos livres. Que, analisando bem, a liberdade humana é bastante restrita. No entanto, é um sinal explícito da nossa humanidade.

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  7. E mais uma vez, tudo pelo dinheiro e poder. Dinheiro é bom, faz falta, eu também o quero, mas era incapaz destas coisas todas.
    Ganância! Essa sim é a palavra certa.

    Essa descrição do aquecedor, que memórias Bea!

    Beijocas

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  8. Pois é como diz, Cláudia, a ganância que é no fundo e sempre uma luta pelo poder, manda em demasia.
    Bom, decerto que a história do aquecedor me fica. Mas é uma memória curta, aconteceu há dias:)

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  9. Tudo o que se passa no mundo e muito especialmente na Ucrânia é um nó na garganta... um aperto no peito... um frio que nos percorre a espinha.....
    Melhora ligeiramente quando ajudamos as instituições humanitárias que os ajudam no dia-a dia, como os Médicos do Mundo, Unicef, etc. Mas realmente...isso não é nada.

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  10. O mundo parece predisposto a todas as pelejas. Ainda não entendi bem se foi sempre assim e é assoberbamento meu (da idade), ou se efectiva e realmente existe uma espécie de crispação raivosa, um encarniçamento que lembra explosões e estilhaços e nos faz mais presente a Ucrânia nestes tempos tão aziagos - pela guerra e o frio e desconforto sofridos e que matam muita gente. Como vai ser um inverno sem aquecimento num país com temperaturas negativas.
    Mas pode que seja prenúncio meu e me passe. E oxalá.
    Bom dia, Dulce. Que o fim de semana seja grato

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