domingo, 27 de novembro de 2022

Sombra Chinesa

 

Mas, quando o inverno ia a meio arrependeu-se dos ímpetos e variações da água e os dias abriram criadores. As manhãs desembrulharam um solinho amarelo que se aguentava até meio da tarde e tingia o ar do mundo, pintando-o em tons de friorenta palidez que o oblíquo dos raios solares amarelecia. Depois das quinze, chegava-lhe uma névoa crescente e esmorecia de todo. Logo, logo, a noite apressava-se, qual dama avançando em passinho nervoso.  Grata ao benefício do tempo que convalescia, a aldeia aproveitou o hiato e tomou providências: rachou lenha; pôs os animais no pasto que assomava em frescura verde; perdeu-se pela humidade dos pinhais e, sacudindo ninhadas de cogumelos, trouxe gravetos e paus que enfeixava,  mulheres e crianças carregando-os à cabeça em alarde de força e equilíbrio, uma mão a sustentar aqui e ali os pendões da lenha; as velhas encheram os estendais de farraparia, pernas e braços bailando ao vento e que elas recolhiam mal o sol começava aos desmaios; e seguiam para casa, um alguidar de cogulo  à ilharga, deixando para trás o baloiço dos arames vazios; os garotos voltaram à rua e, depois da escola, aproveitavam a claridade por obrigação ou brincadeira. O sol de inverno era sangue novo.

Foi talvez esse espírito alegre e diáfano que fez menos redonda a admiração do povo quando, por um princípio de tarde, deu com Jaime pacatamente sentado na rua de Zefa do Prado que lhe puxara a cadeira do quarto, a única que tinha. Conversavam. A velha ia zanzando por ali, uma mão nas flores outra no vasculho. E num dedo de conversa, dizia a quem passava e  se detinha, quem havia de dizer que o Jaime me vinha visitar, veja bem que ainda se lembra dos rebuçados de mentol que lhe dava em pequeno. E ele sem palavra, sentado muito direito, costas acompanhando o espaldar trabalhado, um meio sorriso no rosto e a confirmar de cabeça. Talvez houvesse gente a quem intrigava a súbita proximidade, Jaime não era de se meter dentro de casa das pessoas. Conheciam-lhe o carácter, sempre preferira o campo aberto e a lonjura e nem dos antigos colegas da primária parecia ter saudade.

Mas os dias eram curtos para debelar a sujidade acumulada e nos campos havia muito dano a reparar. Homens e mulheres agradeciam a chuva que lhes trouxera algum trabalho em herdades e quintas de nome, enquanto por casa, velhos e crianças faziam o que podiam para retomar o quotidiano: limpavam paredes cheias de escorrimentos, punhados de fitas castanhas, carris da água desenhados na cal; sondavam telhas partidas que alguém tinha de mudar; varriam lixo de dias; lavavam carradas de roupa nos tanques públicos a que tinham de partir o gelo da noite.

12 comentários:

  1. As manhãs desembrulharam um solinho amarelo que se aguentava até meio da tarde e tingia o ar do mundo, pintando-o em tons de friorenta palidez que o oblíquo dos raios solares amarelecia. (é o que desejo para esta semana😊)
    Bea, parabéns pela beleza da mensagem que surge a cada frase de leitura! Boa semana 😘

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  2. Bom dia:)
    Todos desejamos uns bocadinhos de sol de Inverno, não é mesmo? Por entre a chuva que faz falta. Mas os dias são o que são e caminham indiferentes aos desejos dos homens. O que não invalida a sua existência, somos seres desejantes.
    Boa semana, Gracinha.

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  3. Quase pude ver a azáfama da aldeia, rachando lenha, levando os animais para o pasto, apanhando gravetos. Só não consegui ouvir sobre o que conversavam a Zefa do Prado e o Jaime. E tive pena...
    Um texto magnífico e muito visual. Os dias de outono são muito singulares e inspiradores.
    Uma boa semana com muita saúde.
    Um beijo.

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    1. A conversa entre eles não é de grande importância, Graça.

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  4. E estar a ler e a imaginar tudo?
    Adoro!

    Beijocas

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  5. Pois, a leitura não é isso mesmo, leva-nos pelos caminhos que o autor vai abrindo e o leitor completa ao pisá-los:). Está a ser uma boa leitora, Cláudia. Parabéns.
    Um abracinho

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  6. Já percebi, no meu íntimo, que nós temos muitas sombras chinesas/siamesas. Pelo que penso, pelo que a Bea diz, leio aqui e ali, lá. Eu, na diferença, não sei escrever sobre os outros, inventar histórias que não tenham a ver comigo, ou de quem conheço e as minhas experiências: é uma limitação. Porque as histórias das pessoas - tantas - que conheço ou vivi, iriam certamente identificar outros. Não consigo.
    Quanto a Camões, também o encontrei muitas vezes, depois dos anos de estudo em que sabia estrofes de cor. Aquele ritmo e sabedoria incomparáveis. Há dois livrinhos pequenos, que acompanham "as férias" fora daqui: um "Os Lusíadas", e as "Líricas", ambas 1980, edições da Lello. E uma extravagância, aqui há uns anos, 4 livros luxuosos, das obras completas dele, com ilustrações, da Verbo.
    É presença cá em casa, portanto. Abç

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    1. Creio bem que toda a gente que escreve se inspira na realidade a que assiste ou que vive. Por vezes penso que são tudo metamorfoses da mesma coisa, bettips. Podem inventar-se as situações, as pessoas, mas as questões de fundo continuam as mesmas. Já me tenho perguntado se alguém, lendo o que escrevo nas histórias, se identifica. Não o creio. Claro que, sendo também eu de uma aldeia, sei a vida que ali decorria, o tipo de pessoas e de problemas. Mas conto histórias para entrar nesse faz de conta de povoar a meu gosto um lugar que não existe e onde há os problemas comuns e que, por vezes, tanto consomem as personagens como as pessoas de carne e osso. Ao invés dos escritores, não tenho nenhum objectivo, não pretendo ensinar nada, não quero elucidar nenhum problema específico. Conto. E basta-me.
      Não tenho por Luís de Camões essa devoção. Não me acompanha para lado nenhum e nem há livro específico que o faça embora seja muito raro viajar sem algum. Nunca comprei um livro luxuoso; a esse preço adquiro uma data deles ou obedeço a qualquer prioridade material. Estou noutros lados e noutras coisas:). O homem é com a sua circunstância.
      Boa noite, bettips.

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  7. Nunca é tarde para se reatarem relações, especialmente quando podem ser úteis e valer muito a pena.
    O texto tem trechos de apreciável valor literário.
    Abraço de amizade.
    Juvenal Nunes

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  8. Parece-me que as relações úteis não são o meu forte, Juvenal. Mas tudo vale a pena se... foi o poeta que disse. E quem sabe se não é verdade:).
    Boa noite, Juvenal. Obrigada.

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