domingo, 14 de março de 2021

Confidências

 

Tenho assim uma amiga, de tempos. Tempos idos e já tão longe, chegava a casa por mão da mana do meio, e eu era a mais velha e também a mais alta, hoje sou só a mais velha; tempos em que acampava connosco e alegrava as nossas férias; tempos em que pescava com meus irmãos no açude, o mano caçula  para outros pescadores apontando-lhe a figura de chocolate, somos todos filhos do meu pai menos ela; tempos em que dormia no meu quarto pequeno do outro lado do rio e juntas nos divertíamos por sermos jovens e duas, que mais não nos assistia a vida; tempos em que nos salvávamos uma à outra, descendo lestas à sexta à noite, parque Eduardo VII afora, e nem sei se lhe sabia nome, um senhor surgido do nada e aconselhando, as meninas não devem andar por aqui, e eu a olhar o redondo sombrio dos arbustos, por que não, um jardim tão bem acabado que mal tem, será por fecharem os jardins à noite, mas este está aberto. E anuindo só para fazer jeito, com certeza, com certeza, saíamos como entrávamos, tagarelas; tempos em que me trazia em folha dobrada a letra das canções que queríamos cantar e juntas ensaiávamos rua treze abaixo; tempo de, tantos anos depois, velarmos juntas o seu morto; tempo de voltarmos à nossa praia com o espírito antigo de a amarmos sobre todas as coisas,  mas já sem desfiarmos debruçadas canções na amurada do barco (transporto-a de carro), e ela em fato de banho mais retocado, que nunca lhe vi um biquíni; tempo de ela em minha casa de hoje, e eu, vês, não esqueci,  telhado de duas águas, e ela sorrindo dos conselhos que me dava quando havia um montão de futuro em espera; tempo de lhe agradecer o ter-me engomado o vestido de noiva, ter-me desembaralhado a condução, e, ó agradável surpresa, passados vinte anos de ausência, a amizade antiga ser fato que nos serve. Dá-me adereços de bom gosto e de que mais ninguém se lembra, luvas, écharpes, bonés e creio que sempre verá em mim aquela que os anos disfarçam e quase se não vê. Mantém-se a mesma, consegue ser mais despassarada que eu, sofre de lendária falta de pontualidade e, mesmo na gare, perde comboios.  Nunca sei quando me chega, mas sei que não é eu. Tem mundo de largo espectro, viaja, curte a vida, os filhos, os amigos de vário quadrante. Contudo, juntas, parecemos vir de ontem, profundamente nos reconhecemos. 

 

12 comentários:

  1. Que bom ler assim uma amizade destas. :)

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    1. ...e que melhor é vivê-la:).
      Bom Dia, Luísa. Boa semana.

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  2. É provável que sua amiga veja em si aquela que os anos disfarçam e quase se não vê, contudo, o brilho da sua escrita, que só pode vir do seu olhar, assegura-me que atravessou bem o tempo.

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    1. Mas como é que se atravessa bem o tempo, Joaquim. Se existe tal coisa, há-de estar impressa na alma e notar-se apenas no modo de olhar o mundo dos homens e das coisas. E aí, talvez o tempo que nos atravessou não tenha sido em vão. Que os corpos são tão os mesmos e idênticos na sua mudança, e tão pouco dizem o que verdadeiramente somos, que dão sentido à expressão de Saint Éxupéry, "só se vê bem com o coração".
      Boa semana:)

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  3. Parece estar a descrever uma amiga que hoje até uma figura bem conhecida em Portugal...
    Boa semana

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  4. A sério, Pedro?! A minha dilecta amiga faz amigos e conhecidos por todo o lado, tem uma personalidade calorosa e compreensiva, mas não pertence ao grupo de gente conhecida. E, no entanto, sempre lhe vou dizendo que eu que sou pacata e vagarosa, com raiz aprumada e vertical nos sentimentos, tenho propensão inata para gente que muito se mexe, corre de um lado a outro e vive nessa rede fina e extensa em superfície da raiz fasciculada. Coisas que não se entendem mas nos existem.
    Boa semana, Pedro.

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  5. Mas que bela amizade =)
    Achei graça foi a esta parte "...e eu era a mais velha e também a mais alta, hoje sou só a mais velha..." =)

    Beijocas

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  6. :))). Ainda lhe vai acontecer uma destas Cláudia.Mesmo que não seja igual.

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  7. O que importa é que vá chegando.
    Boa semana, Bea.

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  8. Que bom manter estas amizades tão profundas e divertidas. E as recordações tão vivas. E quase tão bom é saber contá-las assim.
    Boa noite, Bea.

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  9. E com esse tipo de "amizade" tudo fica menos tendo e mais divertido! Bj

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