Os
dias de confinamento sucedem-se à quinzena, vêm atados uns nos outros, em grupo
carimbado nas altas instâncias deste país soberano. E, embora o calendário lhes
vá dando nomes da semana e números de mês, são quase indistinguíveis. Dizemos,
por questão anímica, que ocupamos bem o tempo, lemos, escrevemos, cirandamos
pela casa. Na maioria das vezes, aborrecemo-nos mortalmente. Mas isso não é de
dizer, digo-o eu que sou desbocada, porto-me mal e, de tempos a tempos, dou em
virar a mesa da compostura. Ora, é claro que tenho ali na cadeira a camisa
amarela com florinhas, que daqui a pouco a visto e me enfeito para nada, que
calço as botas de tacão e talvez faça mesmo o risco nos olhos que quase esqueci
e mais torto fica. Bom, nada de filmes, embora mais sexy só de camisa e botas, enfio
as calças de ganga. E, com meus passos de elástico falso, que é como quem diz,
a tropeçar no pavimento, vou ao supermercado. Descansem, uso máscara. E pronto,
vivo a glória dos meus dias. Apronto-me para uma carga de variedades de pão e
bolos, uma catrefa de legumes e carnes frescas, um inesgotável sortido de congelados.
E quem ousar dizer que isto não é fascinante, não está no seu juízo perfeito.
Depois, bem, depois nada. Depois, casa. Depois, ah fazer a sopa do jantar à
hora de almoço porque à tarde não há sol na cozinha e passo a rechaçá-la; ah,
estender a roupa; ah, varrer as ruas que isto de magnólias é muito bonito, mas
suja tudo; depois, tratar das flores, na primavera todas se queixam, e ele é mudar vasos, tirar as ervas, mas de onde
diabo nasce tanta erva, senhores, que martírio este; depois é a rega que começa,
faltando chuva, logo o sol alentejano dardeja e as pobres plantas ali estão de
garganta seca, a chamar, a chamar, olhos de carneiro mal morto e, é claro, não
lhes resisto. Nos entretantos, preparo o almoço que é como quem diz, quase
sempre dois almoços que sou assim, não faço por menos. De tarde vem o tal
número de hobbyes, distracções e tal, ler, escrever, tricotar, ouvir rádio, quiçá
ver um filme ou experimentar uma série. Mas o que é que me falta, dirão vocês
para que pareça que sentem diferente. Pois. O que é que me falta. Falta-me, é
isso. Falta-me imenso andar pelas ruas que não as desta cidade; Falta-me entrar
descontraída nas lojas da cidade grande; falta-me o Cais das Colunas que não
vejo vai para um ano; falta-me lavar o carro na mira de uma viagem; falta-me
rever as minhas amigas do peito e retirar do meu coração os panos roxos sob os
quais escondo a saudade comprida dos filhos e delas; faltam-me as velhinhas que
visitava e que não voltei a ver; falta-me nadar em águas aquecidas; falta-me o
bocadinho de amor e atenção que ajuda ao
caminho.
E
agora vou ali vestir o meu traje de gala para a cerimónia do super. Com vossa
licença.
Sempre
ao dispor.
Uma
vossa criada que se assina
Bea
Ocupo o tempo. Já tenho a casa tão limpa, esterilizada e asséptica que me começo a sentir mal dentro dela. Acho que sinto a falta de alguns microorganismos que coabitavam comigo, pois começo a ter alguma comichão e a pigarrear de quando em vez. Remédio santo, vou tomar um whisky puro para limpeza das condutas interiores.
ResponderEliminarQuem diria, eu que só gostava de vinho do Porto, tenho-me rendido a esta bebida escocesa de 40 graus (tanto à sombra, como ao sol), ao ponto de ter esgotado o stock existente cá em casa no último ano.
Como dizia Vinícius, o uísque é o melhor amigo do homem, ele é o cachorro engarrafado.
Sinais dos tempos.
Originalidade acima de tudo, ninguém como Vinícios, cuja designação nominal não sei se é vinhos se vícios, se uma mistura de ambos, mas isso agora não interessa nada ao cachorro engarrafado a que, por acaso, achei piada. A minha casa não está asséptica; como sempre, continua normalíssima; não estou para matar os microorganismos, já temos hábito uns dos outros e não há-de ser nada.
EliminarCom tanto grau e esgotando o stock, ficou sem cachorro. Em tempos, a melhor amiga da mulher era a Hoover que eu suponho fosse uma maquineta qualquer. Veja só a diferença.
Boa semana.
Gostei da ironia, do humor, da reflexão que pôs neste magnífico texto. Também me sinto assim, saudosa daquilo que não posso fazer, mesmo não o fazendo se pudesse. É sempre bom passar aqui.
ResponderEliminarCuide-se bem.
Uma boa semana.
Um beijo.
Veio-me num fósforo, com o café.
EliminarIsso mesmo, saudade do tempo em que, ainda que se não faça saber que, querendo, se pode fazer.
Boa semana, Graça.
Eu também me arranjo para ir ao Super, que hoje em dia é um passeio e tanto... :P
ResponderEliminarE sopa já fiz, mas ontem. Assim deixei o dia de hoje mais livre =)
Beijocas
Mulheres... tché!
ResponderEliminarBoa semana, Cláudia.
As melhores glicínias são... as velhas! Ficam melhor com a idade, como nós e a sabedoria, aqueles troncos às curvas, tal os volteios do do mundo que nos rodeia agora. Gostei da aperaltação para ir ao super. O que nos falta é poder, fazer ou não. Ainda hoje eu dizia que no tempo de trabalho tínhamos um patrão que mandava em nós, e etc, agora parece que cada vez mais gente "manda" nas nossas horas, nas nossas conversas ou mensagens. Para tratar de qualquer coisinha lá está alguém a marcar, a extrapolar os poderes: uma simples senhora dos serviços públicos...: "só pode ser amanhã às 9h" - mas que 9, mas que 9? a senhora não tinha nascido e já eu me levantava às 6h! Uma chatice.
ResponderEliminar(deixei um coment. no "tio" querido, há dias, não sei se o viste, sou das que vai pela calada das letras). E adoro as cores do casaquinho e gorro pequeninos. Abçs com (alguma)confiança que não nos estraguem o sacrifício que temos feito.
:))) Mas eu tenho que comprar é uma nova, quem é que me vai vender uma glicínia velha que eu se calhar também nem queria. Talvez ela envelheça mais depressa que eu e ainda dê para ver alguns nós e retorcidos e tal.
EliminarOra, bettips, abraços virtuais não estragam. Muitos mercis.
Ficou amoroso o conjunto que oxalá sirva a uma Maria Luísa que está quase, quase, a chegar e, saindo à mãe, há-de ser muito miudinha.
Esqueci-me de responder a umas coisinhas. Talvez as flores fiquem melhores com a idade, em geral, e no todo, as pessoas ficam piores. Tudo se nos avaria. E, se quer que lhe diga, bettips, a sabedoria que tenho não vai muito além da que tive, talvez seja mais paciente, a vida a isso nos leva. É apenas um ciclo inexorável a que a gente tem de se adaptar e procurar viver com a alegria possível.
EliminarQuanto a essa senhora dos serviços públicos...pois dê-se por feliz, tem hora de atendimento marcado. A essa hora já eu e a mulher a dias estaremos armadilhadas de lixívia em punho e em casa de meu pai para uma barrela. Preferia ser atendida com a tal hora marcada:).
Tenha um dia em Bom e desculpe qualquer coisinha.
Um abracinho
O humor é realmente a melhor forma de lidar com isto tudo.
ResponderEliminarEntretanto...já estamos na primeira fase de desconfinamento...o que é uma pequena vitória!🤞
E é verdade Bea, nunca as antigas rotinas nos foram tão queridas como agora!
Temos de treinar mais um pouco a santa paciência, não é, Dulce?
EliminarBoa noite.
O meu marido faz a maior parte das compras, prefiro ficar em casa de chinelos e fato de treino velho.
ResponderEliminarE quando ouço vozes na rua, venho à janela certificar-me que o mundo não parou.
Não, não. Não posso abdicar do super, senão dou em doida. O meu marido também vai ao super, só para ter onde ir. Há pequenas compras que lhe pertencem. O super faz parte da nossa vida social:).
EliminarNão aprecio fatos de treino, acho que nem tenho nenhum. Transijo nos casacos, é o meu máximo.
Pois, Bea, em tempo em que tanta coisa faz falta, na sua crónica não parece faltar nada, nem as flores do jardim, embora seja preciso regar e varrer as folhas que vão caindo. Parabéns pelo bom humor. Sabe tão bem!
ResponderEliminarUma noite descansada.
E a Maria leu a última parte? Queixo-me de tudo e mais alguma coisa:). Mas é verdade que tenho algumas flores no jardim. De mistura com as ervas.
EliminarE que os seus votos para a minha noite se estendam a nós duas.
Boa noite.
Eu já me arranjo para almoços com 4 pessoas em espaço caseiro exterior, quase como se fora para o que antes era um congresso:)...Dava-me jeito era aprender isso do "risco nos olhos", coisa que sempre admirei e nunca soube fazer.
ResponderEliminar~CC~
:))). As artimanhas de que a gente se rodeia para lembrar que existe e está viva.
ResponderEliminarBom, eu também não sei, mas risco na mesma. Uso uma espécie lápis de feltro, mas mesmo assim pouco acerto:). Na modalidade de pincel sou autêntica desgraça. Mas há mulheres de pulso e traço firme
Crónica magnífica, Bea!
ResponderEliminarUm retrato zombeteiro deste quotidiano em tempo de confinamento.
Há um ano sem empregada, mesmo ajudada pelo maridão eu começo a odiar panos do pó, aspirador, ferro de engomar, fogão, tachos e panelas. Já tudo me cansa. Já quase tudo me falta (por ser muito não cabe neste comentário).
As idas ao super passaram de semanais e quinzenais. E nesse dia, nesse dia único, deixo o fato de treino (!) em casa e lá vou mais caprichada. Sem saltos (já não sei andar) e sem risco nos olhos (nunca consegui fazê-lo). E no regresso, pela marginal, lavo no mar os olhos cansados e tristes que escondo por trás dos óculos de sol.
O que me mantém viva neste tempo claustrofóbico de incerteza, ansiedade e medo? A voz das minhas netas. E as palavras escritas.
Beijo, boa semana.
Teresa
ResponderEliminarpergunto-me por vezes isso, o que me mantém viva e esperando nada. Concluo que há-de ser o amor que tenho à vida, e dentro desse amor que nem entendo, as palavras que vou lendo, certo desejo de água salgada e de verão. Sem netos e com os filhos - felizmente -seguindo o seu caminho, os dias vão escorrendo.
Quanto ao super (duas vezes por semana), os meus saltos já não são os saltos finos e gosto de riscos. Não tenho a chance de uma marginal, nem de uma nesga de mar. Tenho a Lili, a Violeta e o senhor Zé a sorrir-me de segunda a sexta (elas a abraçarem-me caninamente); e o gato. No verão, se o tempo permita, hei-de matar a saudade toda percepção que tenho de mar e areia. De resto, Teresa, a pandemia é só o ambiente dos meus dias, uma certa cinzentice a rodear o quê.
Bom Dia:)
Gostei deste relato bem divertido no meio desta triste e terrível pandemia.
ResponderEliminarUm abraço e continuação de uma boa semana.
Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
Livros-Autografados
Obrigada, Francisco. Precisamos inventar alguma alegria ou o mundo fica que não se aguenta.
EliminarBoa tarde
Um ponto de vista com humor inteligente! Por aqui... a minha Benedita até me faz esquecer que estou confinada! 💖... Bj
ResponderEliminar:))) oh, que amor, Gracinha. Ainda bem que a Benedita tem esse poder. Bem hajam as crianças e mais os seus progenitores que apostaram na sua existência. E os avós babados, pois claro.
ResponderEliminarTão giro o teu texto! Como nele nos revemos! Mas ao escreve-lo dás-lhe um brilho especial. Abraço virtual que desejamos se torne real muito em breve.
ResponderEliminarOh Yé!...Há-de ser, prosa.
ResponderEliminar