Gente como eu, se se habitua a não ter carro, deixa de pensar no assunto. Resolve-se sem ele. O certo é que o automóvel só me entrou na bolsa depois de casada e à beira do primeiro filho. Chegou, praticamente, com a cegonha. E, é claro, eu nem por sombras pensava guiá-lo. Não lhe achei grande piada, não caí de amores. Mas dava-me jeito com a criança e artilharia anexa. Foi então que se iniciou a campanha. O parceiro instava-me constante. Empurrava-me resoluto e chagava-me a mona, tens de tirar a carta, já foste à escola, vai inscrever-te. E tal e tal. Mediante o meu desacerto e inacção, um dia, papéis batidos na secretária, estão aqui os impressos é só preencher e entregar. Portanto, muito sem vontade e farta de ser inquirida, resolvi investir na habilitação. Está visto que não me interessei minimamente e faltei a quase todas as aulas teóricas. A data do exame de código acendeu a peleja caseira, não fazes caso, não ligas, vamos perder o dinheiro, nem o livro de código compraste, vê tu o caso que fizeste. E tal. E tal. Resumindo: comprei o livro de código e gastei-me a lê-lo no fim de semana anterior ao exame. Satisfeita com o resultado, inscrevi-me nas aulas práticas. A que continuei a faltar por variadas razões, uma das quais trabalhar noutra cidade e não haver horário compatível entre mim e a escola de condução. Marcada a prova de exame, faltavam-me dez lições. Então, no fim de semana anterior, um outro instrutor gastou comigo e de afogadilho a maior parte das sessões em falta. Primei pela asneira. Mas aprovei, jurando a mim mesma que nunca mais me apanhavam noutra, já me bastava o memorável martírio das orais escolares, não precisava acrescentos. Encartada, sem saber conduzir. Verificada a minha inépcia, depois de sujeito a um ou dois perigos de grau elevado na via pública, o meu parceiro desligou de mim ao volante, facto que agradeci. Passaram dois anos. O automóvel não me existia senão com chofer. Um dia, uma amiga foi passar o fim de semana a minha casa e instou-me para que conduzisse, não saio daqui senão contigo ao volante. E consegui. À partida, deixou aviso, agora levas o carro para a escola todos os dias, ouviste? Quando voltar vamos dar um passeio grande, só nós duas e o garoto. Obedeci-lhe na convicção de visita breve. Mas a vida levou-a por outros caminhos e nunca o passeio se concretizou. Anos atrás, o reencontro. E retomámos caminho. A vida dá mais voltas que a Terra sobre si mesma. Pois não é que a garota tem carta de condução, mas não guia. Quanto a mim, distraída e até perigosa ao volante, ganhei estima profunda ao automóvel, um dos poucos lugares onde me acho cantarolando.
Fiquei encartada logo aos 18 anos. Pelas minhas bandas a oferta de transporte público era e é muito limitada, pelo que conduzir confere-nos alguma liberdade. Mas gostar, não gosto. De chofer é que era... :))
ResponderEliminar:). De chofer, ham, menina Luísa...
EliminarA condução permite-me descansar e pensar. Hoje, indo para lugares cujo caminho conheço, até gosto de conduzir. Mas nunca serei uma boa condutora e detesto trajectos novos.
Não imagino a minha vida sem o carro.
ResponderEliminarQuem vive em lugares pequenos com poucas opções de transportes públicos, conduzir é uma necessidade.
Está cheia de razão, Magui. A vida mostrou-me isso mesmo.
ResponderEliminarTenho carro desde os 18 anos.
ResponderEliminarDá-me liberdade.
Mercê dos intervalos a que a obriguei, esse tipo de liberdade chegou-me perto dos quarenta.
EliminarBom dia, Pedro.
Já tivemos diário em Dezembros idos e agora fomos brindados com um capítulo das suas memórias.
ResponderEliminarEscrever sobre as coisas que aconteceram, é fazê-las acontecer outra vez, sobretudo o que valeu a pena e nos pôs um pouco de contentamento na alma. Como dizia Vergílio Ferreira, purificar as coisas das chatices que também lá estão, ou lembrá-las também a elas mas pôr-lhes à volta uma moldura de desculpa ternurenta.
Estranhei-lhe um pouquinho esta, é verdade, talvez a ausência de curvas, e como não havia neblinas nem nevoeiro, pôs a quarta :)
Pois, arrumei o assunto. Como diz, emoldurando. Felizmente a memória tem esse condão, embora a moldura por vezes seja áspera e não terna. As minhas peripécias ao volante ou apenas relativas ao automóvel quase davam um livro. Deixemo-las em sua fundura de lodo. Mas dou que fazer ao meu anjo da guarda. O pobre pouco descansa, é um bocadinho como os guarda-costas do nosso presidente, estão sempre ao serviço. Ele obriga a trabalho extra por ser um super activo; eu, por ser distraída e perigosa.
ResponderEliminarHá coisas parecidas com a minha história... Eu comecei a tirar a carta assim que possível, aos 17 anos e meio. Porque queria chegar aos 18 e poucos e ter carta. Só a tirei com 20 anos.
ResponderEliminarPorque? A coisa até começou bem com as aulas teóricas, mas depois aquilo farta, oh se farta. E apanhei, nas primeiras aulas de condução, um péssimo instrutor. Só gritava!
Agarrei e vim embora. Quase 1 ano sem lá colocar os pés.
Acabei as aulas de código e voltei a tirar aulas de condução. Tirei mais que o necessário, mas sentia que precisava mesmo.
Passei com 3 negas no código, mas passei. A condução foi à 1ª.
Tinha carta mas não carro.
Fiquei perto de 7 ou 8 anos sem conduzir. Até que arranjei um estágio que tinha mesmo que ir de carro.
Ao fim de um mês, espetei-me. Com direito a cambalhotas dentro do carro. Ainda me lembro, na véspera de Natal.
Dia 26 passaram me outro carro para a mão. Não podia deixar o medo vencer.
Agora conduzo com mais naturalidade, mas mesmo assim sempre com medos quando chove. Nem o faço todos dias, o que me prejudica a nível de experiência.
Beijocas
P.S: Vou falar isto mesmo no blog, porque realmente ainda há muita gente que tem carta e não conduz ou ganha medos. Pode ser que alguém se identifique.
:)) compreendo-a Cláudia. Pois é, pode fazer um post sobre o medo de conduzir. Mas não me parece que tenha sido por medo que não conduzi durante dois anos.
EliminarTer carta de condução dá alguma liberdade e se juntar o carro... aumenta! Bj e eu adoro conduzir... mais do que ser conduzida 🤔😉
ResponderEliminarTem que se ter também o carro, Gracinha. Ou lá se vai a dita liberdade.
ResponderEliminarBoa noite.
Ontem li os textos em atraso, mas não comentei, porque o fiz com o blogger desligado.
ResponderEliminarVenho comentar agora. A minha história com a carta é "dramática". Tirei-a poucos anos depois de começar a trabalhar. Mas só muitos anos depois é que comecei a conduzir. Sempre achei que não conseguiria, mesmo já com a carta.
Enfim, uma longa história...mas ao fim de muitos anos (e de muita frustração) comecei a conduzir, já lá vão quase 17 anos. Tudo sempre a correr bem, vou para qualquer lado, desde que leve pendura, porque acho que até conduzo bem, mas sentido de orientação...não tenho nenhum! E tenho muita pena, porque não levo o carro, sozinha, para sítios desconhecidos, e portanto continuo dependente dos transportes públicos, para sair a passeio. No dia-a-dia já não passo sem o carro. Não é luxo, mas uma necessidade.
Beijinhos e bom fim-de-semana:))
:)) Bom, a Isabel superou lindamente. Agora seria apenas habituar-se ao GPS. O meu caso é pior. Dou conta da paciência do pendura, não viro onde diz, ou se diz esquerda viro à direita. Há um único pendura que me aguenta as asneiras e depois de curvar me ajuda a retornar ao caminho, acontece que deixámos de andar juntos:). De modo que os lugares desconhecidos também me são contraproducentes, sobretudo em cidades maiores.
ResponderEliminarHoje o automóvel é necessidade. E dá-nos mais descanso, é fora de dúvida. Mas gosto muito de andar de comboio. E felizmente já pago menos.
Ah!Ah!Ah!
ResponderEliminarBem, a mim ainda me aguentam! Não sei se o GPS me ajudaria, acho que me irritava...não sei.
Também gosto de andar de comboio, mas preferia ser eu a levar o carro, no entanto o meu sentido de orientação é completamente nulo. Não estou a exagerar nem a brincar: é zero. Tenho um enorme desgosto com isso.
Beijinhos e um bom sábado:))
:)) Como a compreendo, a minha mente também não constrói mapas.
ResponderEliminarA minha relação com o carro não é de amor mas de conveniência e muitas vezes esqueço-me que é preciso fazer por ele mais qualquer coisa do que só sentar-me e dar ao volante...
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