Dada a conjuntura, ou, em termos mais eruditos, a minha circunstância, em vez
da carta de condução, tirei outro curso. Ajudava a passar o tempo e saía mais
barato. Portanto, lancei-me a estudar à noite e surgiram novas amizades, uma
das quais se fez siamesa e, mercê do optimismo e decisão rápida que inda lhe
pertencem, tornou mais leve a juventude que me coube. Entretanto, meus irmãos iam
crescendo. Entre estudos, profissão e casa paterna com seus apêndices e
carrêgos, não me sobrava tempo para pensar em conduzir automóveis. Olhando para
trás, reparo que fabricava um nico de tempo
livre ao fim de semana, e apenas se não ia a casa. Mas era jovem e alegre; tinha
a profissão com que sempre sonhara e cujo exercício me fazia feliz; três irmãos
mais novos que aguardavam os meus fins de semana e as férias em casa com ânsia igual
e até superior à minha; recebia um ordenado mensal. E, tal como a Dulce,
passava de vez em quando nos Porfírios que, estranhamente, me parecia loja escura em demasia e cheia de cubículos
labirínticos, facto deveras intrigante, nem conseguíamos ver com nitidez as
cores da roupa. Acrescia a música – que raramente identificava, não eram discos
de “Quando o telefone Toca” e do senhor Matos Maia – em tom pouco discreto. E,
é vero, percorríamos-lhe os meandros intestinos e estava apinhada. Ignorava que
fosse loja da moda. É que só dei por isso quando a Dulce o escarrapachou na
crónica. No meu entendimento, dada a quantidade de jovens que a frequentava, o
que havia era muita gente como eu, pessoal que não encontrava número nas lojas
normais. Sentia-me pois irmanada e até sortuda. Finalmente, descobrira poiso
onde comprar. Devo-o a essa amiga que ainda conservo e que, notando a dificuldade, me deitou um olho crítico e vaticinou científica, tu, só nos Porfírios. E
levou-me. Que eu, andando pela capital num aperto de horas, não os teria
descoberto. Bom. Lembro-me da escada em espiral, uma chatice de todo o tamanho
que me entorpecia as pernas sei lá porquê (ainda sou um bocado parva com
escadas), e ainda por cima sempre cheia de gente a subir e a descer. Mas, a
minha amiga estava com a razão, nos Porfírios eu era superstar, tudo me
assentava. Até parecia uma pessoa normal. E os preços eram da minha igualha. Além
do mais, tinha empregadas lindas, autênticos manequins de passerelle e cujo visual me dava algumas dicas.
Por
essa época, garotas da minha idade e condição compravam carro e até casa. Eu
tirava novo curso e, a conselho da minha siamesa que custeou as despesas
iniciais, investi numa tenda, artefacto
que jamais tinha visto. Fomos, expressamente, ao Grandela, observá-las em seu esplendor. Não tínhamos carro, carta de
condução, casa. Mas cada uma de nós era proprietária de uma barraquinha que nos
fez felizes ao longo de dez anos de férias em comum. Viva!
(cont.)
Não me puxe os cabelos, bea, e espreite no „ematejoca azul“. Quero confirmar o seu consentimento ao publicar um dos seus magníficos comentários habituais.
ResponderEliminarNão preciso espreitar, Teresa, confio no seu bom gosto. O que é meu pensar, depois de posto a esta janela, passa a ser nosso:). Esteja à vontade.
EliminarOLá, Bea. Mais uma crónica deliciosa. Li-a devagar como sempre faço quando gosto dos textos. Também no Porto havia Porfírios e, sempre que lá passo, lembro-me dessa loja.
ResponderEliminarUm dia muito feliz, Bea, e também para a sua siamesa. E escreva, escreva!
A minha siamesa há muito ano que se separou. Fez-se siamesa de outra pessoa, como é natureza entre o género humano. Mas somos amigas, julgo que para sempre. Há coisas que não podem ser de outra maneira:).
EliminarE a loja do Porto era como a que descrevo em Lisboa? Lembro-me de paredes esquisitas, vermelhas ou negras, não sei já precisar.
Bom Dia, Maria.
Viva, amiga Bea!
ResponderEliminarQue bela crónica acabei de ler!
Com ela recordei as horas «gastas» nos desaparecidos grandes armazéns de Lisboa; e "Os nós e os laços", do António Alçada Baptista.
Bea, obrigada por continuar a brindar o Pétalas com comentários excelsos. Obrigada por estar sempre lá.
Beijo, um dia feliz, boa semana.
Olá Teresa.
EliminarPois eu tenho saudade do seu blogue anterior que me parecia mais caseiro. Mas os meus comments são até muito terrenos, poeirentos e tudo. E é claro que vou continuar no Pétalas, se desistisse perdíamos contacto e isso é que não.
O meu dia, até agora, foi um corre corre, mesmo uma maratona com prazo e hora marcada. Acho que cumpri, cheguei à meta:).
Boa tarde, Teresa.
Uma crónica que me levou ao meu tempo de juventude. Os Porfírios, o Grandela... Eu trabalhava por ali e pelo menos espreitava as lojas. Viva o dia Internacional da Mulher. Que seja cheio de amor para si.
ResponderEliminarUma boa semana. Muita saúde.
Um beijo.
Foi uma manhã de trabalho intenso e a contra relógio. Mas já passou. E só agora uma amiga me enviou um sms a lembrar que é Dia da Mulher. Mas mal de mim se só tivesse um dia. Todos os dias são meus, eu é que tanta vez não me lembro.
ResponderEliminarEm termos de direitos e liberdade estamos bastante melhor que as nossas avós e temos avanços notórios sobre o mundo das nossas mães. Estudamos e tiramos cursos, trabalhamos fora de casa, temos poder de compra e, em alguns empregos, ordenados iguais aos dos homens. Somos - em princípio - donas do nosso corpo e de nós mesmas. Parece tanto e é, por vezes, tão pouco.
Pois muito nos conta Bea. Devemos ter-nos cruzado na baixa, talvez dois ou três anos depois do início das suas deambulações. Tinha por hábito ir à Lanalgo, a tenda não consigo lembrar-me onde a comprei, mas a mochila de campismo, enorme e pesada, feita de lona, couro e metal, foi na Casa Senna na rua Nova do Almada, e se calhar a canadiana também.
ResponderEliminarO meu primeiro acampamento deu-se num fim de semana nos areais da Fonte da Telha, com chegada à sexta pela tardinha, vindo de camioneta apanhada em Cacilhas. E o receio que eu tive que me roubassem o material novinho em folha?!
Gostaria também de lhe dar uma palavrinha sobre a viagem papal ao Iraque.
A grande mensagem que capto desta singular viagem do Papa Francisco à terra de Abraão é que com ele nenhuma das suas ovelhas fica para trás, ninguém é esquecido.
Viagem singular, porque fontes próximas do Vaticano a estranharam quer quanto à escolha, quer quanto à oportunidade.
No Iraque, país muçulmano destroçado pelo terrorismo, vive uma pequena minoria de cristãos, que tem sofrido atrocidades provocadas pelo auto-proclamado Estado Islâmico.
A coragem demonstrada nesta visita por Sua Santidade é assinalável; primeiro pela idade e porque padece de um visível sofrimento ao caminhar, depois porque é efectuada num período de perigosa pandemia e por fim porque a possibilidade de represálias violentas por parte dos jihadistas nunca é de desprezar.
Em celebração com os seus fiéis, num cenário de destruição devastadora, o Papa apela à esperança, à misericórdia e ao perdão e que se evite a tentação da vingança.
A pura destruição selvagem mesmo em cenário de guerra, sempre me fez confusão.
Causa-me um desespero ver destruídas bibliotecas, igrejas e outros monumentos que são património da humanidade. Mais do que simples barbárie trata-se de um suicídio civilizacional.
Do encontro entre Francisco e o ayatollah Ali al-Sistani pouco se sabe, ficam as imagens e essas dizem muito.
PS: sobre o dia Internacional da mulher já comentei as suas sábias palavras no Ematejoca Azul, blog que esteve em obras durante algum tempo mas já está operacional.
Não nos devemos ter cruzado, Joaquim. Que me lembre nunca entrei na Lanalgo e nem sabia onde era. Idem para a outra casa comercial que refere. Nessa época não usava mochila, eram mesmo uns sacos quaisquer sem pedigree.
EliminarRespeito muito o papa Francisco e sua romagem apostólica e fraterna aos esquecidos da vida. Este senhor é uma lição para mim e para todos os homens. Acho mesmo - sinceramente - que é tão santo como minha mãe, uma pessoa boa e tão humana que apetece abraçá-lo só por existir. Via tv, abraço-o com os olhos e guardo-o com o coração. Oxalá os meus olhos e o meu coração sejam resguardo. O Ayatollah pareceu-me meio morto, creio-o uma pessoa bastante adoecida, mas terei de ver melhor, não sou portadora da bondade papal e depois de observar o tom de pele e o olhar, desliguei. A diferença entre os dois é notória, o papa é um agente benévolo, portador de um amor ecuménico.
Tão giro! Gostei do que li =)
ResponderEliminarFico a aguardar o resto =)
Beijocas
Olá, Cláudia. Boa noite.
EliminarPois, hei-de escrever o resto.
Opções que nem toda a gente sabe, ou quer, tomar.
ResponderEliminarMas a verdade é que a careta de condução faz muita falta.
Também, quando era mais jovem, corri terras e paisagens, levando às costas uma "tendinha", lol
Cumprimentos
Também a mim a necessidade levou à condução e à carta, Ricardo.
EliminarAinda tenho no sótão a minha tenda, acho. Mas, com os meus irmãos mais novos a usá-la, deve ter perdido espias, suportes de metal, sobretecto; suponho que só terá as lonas. Não a quero ver assim mutilada. Pobrezinha.
Claro que eu queria escrever CARTA e não careta, lol
EliminarAdoro esse maravilhoso sentido de humor que utiliza quando se referiu à tenda. Magistral
Tenha uma noite e todas as noites e todos os dias muito felizes.
Quanto à tenda e ao campismo, sou uma snob, nunca fiz, acho-me incapaz.
ResponderEliminarOs meus Porfírios eram a Maconde 😄
Boa noite, Bea.
:))) Também com a idade me tornei snob. Mas as minhas melhores férias foram aquelas. Sem dúvida.
ResponderEliminarBoa noite, Magui.
O campismo foi um passatempo de juventude.
ResponderEliminarDepois perdi o vício.
Boa semana
:))). Não viciei, mas era gosto anual por que esperávamos e única forma de estarmos juntos fora da casa paterna, dava brilho às férias.
EliminarCrónicas de um viver!!! 👏👏👏... Bj
ResponderEliminarÀs vezes crónicas são pedacinhos de vida contada.
ResponderEliminarBom Dia, Gracinha.