quinta-feira, 11 de março de 2021

As Boas Coisas

 

Apesar do  dia embaciado, é quase primavera e  princípios de folhas ainda embrulhadas em seus cueiros espreitam a medo, alapadas a troncos antes despidos. E há destemidos cantores em árvores que florescem pelos quintais estremunhados. Um mistério variegado e pontilista alegra o campo alentejano. A terra, complacente e toda materna, sorriso orvalhado, incentiva  a vida que se agita. No alcatrão, o sangue de uma papoila grita a sua vitória, viva, rompi no alcatrão. Não lhe conto de ser efémera e erecta bailarina, de brotar em lugar aziago, de não cheirar, de ser toda cor e papel de seda que amarrota. Para quê toldar-lhe a alegria da breve pose vertical. Não se pode ser infeliz na primavera. E, no entanto, abrir a janela a um dia escurecido desagrada, sabe na alma à estocada infligida no gelo das madrugadas. Tão pouco me agrada  verificar que a doença da Lili continua, já leva dois dias sem passeio. Mas a vida é rítmica e urge acompanhá-la.  Dançando, de preferência. O caminho de peregrinos exige,  tem amplo risco e novidade, é preciso saltar sobre, lançar-se uma pessoa sobre a ponte das pernas e o balanço misterioso da imaginação. Nele, até os parados continuam a mover-se. Quem atrasa  não sai do trilho e só a morte fecha caminho.

As boas coisas são indício mundano, injecção de vitaminas e reforço da marcha. Paisagem vivida, esclarecem os tarecos que nos habitam cheios de nada, costelas flutuantes que podíamos alijar no intuito de afinar a cinta (diz-se que algumas actrizes o fizeram). Mas, afinal, quem não gosta de ter em si algo que flutua, ainda que o não faça. Quem se basta do que é útil e funcional. Sim, quem.

7 comentários:

  1. Bom dia, Bea
    Belo texto poético. Li-o e reli-o. Pelas palavras e porque não é de fácil entendimento. Tal como a vida, mesmo em quase primavera. E imaginei o Alentejo com papoilas, ainda que efémeras.
    As melhoras para a Lili e que, em breve, possa, contente, voltar a passear.
    Um dia feliz e de sol.

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  2. É um dia. Sem sol. Veremos se consigo agradar-me dele.
    Obrigada, Maria. Vou relê-lo, não tinha ideia de que fosse de difícil entendimento. Mas é possível.
    Bom fim de semana.

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  3. Podem as minhas costelas flutuar, mas de pouco ajudam ao flutuar do corpo que por estes dias amolece e mais parece um peso morto com falta de incentivo para uma caminhada que só me faria bem.
    Bom fim de semana, bea.

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  4. Hummmm...ontem também falhei, mas por ter outros afazeres. Em condições normais, de segunda a sexta, obrigo-me e depois gosto. Experimente, Luísa.
    Bom fim de semana:).

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  5. Vivo numa zona extremamente ventosa, mas como sou leve o vento dá um empurrão para caminhar. Às vezes até acho que flutuo.
    Acaba por ser um incentivo.

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  6. :). Suponho que o empurrão do vento seja num único sentido. Há-de haver uma viagem que faz contra o vento.
    Bom dia, Magui.

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  7. A poesia está nos olhos e no coração de quem a vê, a sente e a inventa como tu.Bj.

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