terça-feira, 23 de março de 2021

In the Mood for Love

 

Revi o filme de Wong Kar-Wai “In the Mood for Love” ou, “Disponível para Amar”, título português que degola de golpe a ambiência poética. Para testar os meus conhecimentos da língua inglesa (tinha-o visto dobrado em inglês), fui comparar o que então escrevi sobre, com a percepção que me deixou agora, legendado em português. Respirei. Creio ter compreendido a maior parte, os erros de tradução não são expressivos. Facto curioso, não havia em mim um rasto ténue da banda sonora. Não dera por ela. Motivo acrescido para repetir. Desta vez, a música bateu-me em cheio. Ignoro como consegui ver o filme sem a ouvir quando é peça tão bonita como importante para situar o espectador na ambiência das personagens. Já me aconteceu de outras vezes, deixo-me assoberbar por história e personagens, e elido a música. Ora, neste filme, ela importa, faz eco da perplexidade desolada da mulher atraiçoada e é tão dolorosamente delicada quanto ela. As notas entoam  o desencanto acabrunhado da traição amorosa que ambos sofrem   por parte dos cônjuges que os traem um com o outro e acompanham a tentativa de a compreender ensaiando perguntas e respostas. Dão-nos a ferida de desilusão que se desprende daqueles dois seres, um macerado odor de violetas, campânula que só eles sabem e os isola do resto do mundo. Duas almas amarfanhadas e sós a que música, silêncio e contenção verbal emprestam profundidade. Que o amante traído é, antes da humilhação, um ser doloroso e, por via disso, isolado e silente. Em quem ama, a humilhação não é bandeira, é decorrência, lixo que chegará por arrasto. Desencanto e não pertença, esses, passeiam no ecrã, sentem-se na indecisão dos passos, na mecânica vazia dos gestos, no olhar vazio. É essa dor tecida a comedimento que mais comove o espectador. E, no entanto, o que se iniciou como tentativa de compreensão, termina em relação amorosa. A relação evolui e também eles se enamoram e, como acabam por reconhecer, sujeitam-se a encontros escondidos de todos, tão amantes como os respectivos cônjuges. Da relação física, a contenção do filme mostra apenas a espera, o lugar secreto dos encontros, o caminho de cada um até ao outro, um abraço sufocado em lágrimas femininas. E o sequente afastamento. Resta a mútua lembrança. Ele muda de cidade mas conserva os chinelos que ela usava quando estavam juntos e um dia recolhe indefinida, sem que ele o saiba, como quem não deseja deixar memória física.

Passam anos, ela regressa à cidade com um filho pela mão. Entra na casa onde se hospedou e  o conheceu e que se encontra sem locatário. Arrenda-a. Faz ali a sua vida. Entretanto, também ele regressa ao lugar que ocupou no mesmo prédio e pertence agora a nova família. Sem desconfiar que a mulher de quem lhe falam os novos inquilinos é a que em tempos amou, abandona o lugar.

Talvez ele se tenha livrado do segredo quando, seguindo conselho antigo, o contou a um buraco na parede de um monumento e isso lhe permitiu seguir com a vida. Arrumou o assunto. Mas ela não o sussurrou em nenhum lugar, trá-lo pela mão, ocupa-se a fazê-lo crescer. Na guerra, os despojos não são partilhados em partes iguais.

Gosto um imenso deste filme. A fotografia depurada gera ambiente de extraordinária delicadeza. É lindo.

24 comentários:

  1. Fiquei curiosa, acho que nunca o vi.

    Beijocas

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    1. Vi-o pela segunda vez e continuei a gostar dele. Mas não será o gosto de toda a gente.

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  2. Tenho o filme em arquivo e agora, depois de ler a sua recensão, vou apressar-me.
    Não haja dúvida que as relações humanas, o amor, a vida, continuam a ser o grande caldo de histórias onde o cinema e a literatura vão buscar alimento e inspiração, com um fundo telúrico quase inesgotável.
    E continuam a haver histórias improváveis, insuspeitadamente improváveis.
    Boa tarde Bea.

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  3. Creio que o que mais gostei nele foi essa contenção de tudo. Não é um filme afirmativo ou linear, deixa aliás várias pontas soltas. Talvez a minha interpretação tenha atado algumas, mas interpretar é isso mesmo.
    Boa tarde, Joaquim.

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  4. É um dos meus filmes preferidos e a banda sonora... quase sempre a ouço em viagens. "In the mood", todo o filme, música, imagens, actores, é um poema sonoro e visual dos mais magnificentes que tenho visto. Ténue e contudo forte a realidade que fere o íntimo sonho. Já o revi com o mesmo estranho sentimento de pureza e descontinuidade (da vida).

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    1. Lembro-me que o vi a primeira vez quase por um acaso, apostei no escuro. Maravilhou-me.

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  5. Sei apenas que ganhou o festival de cinema de Hong Kong.
    Vou levar a sugestão, fiquei curiosa.

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  6. Sabe uma coisa que eu não sabia, Magui.

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  7. Ainda há dias passou num canal da TV e não me atraiu, porque pensei que fosse algum filme de amor com Happy End. Agora que li a sua análise sobre o filme fiquei curiosa. Talvez o apanhe na MEDIATHEK.

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    1. É um sério filme de amor. E a vida também não tem happy end. Experimente, Teresa. Pode que, ao invés, o aprecie.

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  8. Não pertenço ao número de pessoas a quem o oriente seduz. Portanto, o filme deve ser mesmo especial.
    Bom dia, Pedro.

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  9. Tenho mesmo de ver o filme. Não conheço.
    E depois farei como costumo fazer: reler o que acho ter sido bem escrito sobre o assunto. No seu caso, melhor é impossível.
    Também já me aconteceu ficar tão presa ao filme que nem reparo na música. Só mais tarde, muitas vezes através dos ouvidos ou olhos de alguém.
    Um dia feliz, Bea.

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    1. É sempre melhor ver o filme. Até porque, como disse atrás, quem interpreta ata pontas de modo a estar nele, a moldá-lo à sua leitura e, sem querer, desvirtua um bocadinho.
      Merece ser visto, é decalque primoroso, lembra uma aguarela chinesa.

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  10. Agora surpreendeu-me, não a imaginava a gostar de tal filme...
    ~CC~

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  11. eu sou uma e a que a CC imagina, outra. Aquela que sou acha o filme magnífico.

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    1. Mas a Bea é tão transparente...
      É que é uma coisa muito Cultura POP e como a Bea gosta de clássicos...mas quem sabe tudo se pode afinal misturar, desarrumar das caixas, essa ideia agrada-me bastante.
      ~CC~

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    2. Bom, não entendo nada disso que seja "cultura pop". Sei do que gosto e por que gosto. E gosto desse filme. Sem outra inclusão que o meu gosto.
      Ninguém é absolutamente transparente, CC.

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  12. Vi esse filme há uns anos e adorei, seja pelo que revela, seja pelo que esconde.
    E agora, acabei de ler uma magnifica sequência de parágrafos, palavras e especialmente de olhares e sentires sobre ele. E adorei novamente!
    Muito bom Bea!

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    1. É sempre bom encontrar eco e saber que alguém sentiu, como nós, que é um filme diferente sobre tema muito comum.
      Achei-o tão bonito que tenho até medo de manchá-lo com as minhas palavras, pode que estrague algum desenho daquela filigrana.

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  13. Eu gosto do tema e do Oriente, mas não vi o filme. Vou ver se o apanho.

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    1. Tu vais gostar do filme, é todo primoroso. E vais ver que interpretas de outro modo, o que também é salutar.

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  14. Não vi, mas o título não me é entranho.
    Como gostei do que li, vou tentar encontrá-lo nos canais TVCine.
    Eu que adoro cinema e tudo via, há meses que não vejo um filme. Nem em casa. Estranhos tempos estes.
    Beijo Bea, bora lá mais dicas de filmes.

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  15. Obrigada, Teresa. Tenho visto alguns filmes mas nada de saliente ou que me mereça reparo.

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