Revi
o filme de Wong Kar-Wai “In the Mood for Love” ou, “Disponível para Amar”, título
português que degola de golpe a ambiência poética. Para testar os meus
conhecimentos da língua inglesa (tinha-o visto dobrado em inglês), fui comparar
o que então escrevi sobre, com a percepção que me deixou agora, legendado em
português. Respirei. Creio ter compreendido a maior parte, os erros de tradução não são expressivos. Facto curioso, não havia em mim um rasto ténue
da banda sonora. Não dera por ela. Motivo acrescido para repetir. Desta vez, a
música bateu-me em cheio. Ignoro como consegui ver o filme sem a ouvir quando é
peça tão bonita como importante para situar o espectador na ambiência das
personagens. Já me aconteceu de outras vezes, deixo-me assoberbar por história e
personagens, e elido a música. Ora, neste filme, ela importa, faz eco da
perplexidade desolada da mulher atraiçoada e é tão dolorosamente delicada
quanto ela. As notas entoam o desencanto
acabrunhado da traição amorosa que ambos sofrem por parte dos cônjuges que os traem um com o
outro e acompanham a tentativa de a compreender ensaiando perguntas e respostas.
Dão-nos a ferida de desilusão que se desprende daqueles dois seres, um macerado
odor de violetas, campânula que só eles sabem e os isola do resto do mundo. Duas
almas amarfanhadas e sós a que música, silêncio e contenção verbal emprestam profundidade.
Que o amante traído é, antes da humilhação, um ser doloroso e, por via disso, isolado
e silente. Em quem ama, a humilhação não é bandeira, é decorrência, lixo que
chegará por arrasto. Desencanto e não pertença, esses, passeiam no ecrã,
sentem-se na indecisão dos passos, na mecânica vazia dos gestos, no olhar
vazio. É essa dor tecida a comedimento que mais comove o espectador. E, no
entanto, o que se iniciou como tentativa de compreensão, termina em relação
amorosa. A relação evolui e também eles se enamoram e, como acabam por
reconhecer, sujeitam-se a encontros escondidos de todos, tão amantes como os
respectivos cônjuges. Da relação física, a contenção do filme mostra apenas a
espera, o lugar secreto dos encontros, o caminho de cada um até ao outro, um
abraço sufocado em lágrimas femininas. E o sequente afastamento. Resta a mútua
lembrança. Ele muda de cidade mas conserva os chinelos que ela usava quando
estavam juntos e um dia recolhe indefinida, sem que ele o saiba, como quem não deseja
deixar memória física.
Passam
anos, ela regressa à cidade com um filho pela mão. Entra na casa onde se
hospedou e o conheceu e que se encontra
sem locatário. Arrenda-a. Faz ali a sua vida. Entretanto, também ele regressa
ao lugar que ocupou no mesmo prédio e pertence agora a nova família. Sem
desconfiar que a mulher de quem lhe falam os novos inquilinos é a que em tempos
amou, abandona o lugar.
Talvez
ele se tenha livrado do segredo quando, seguindo conselho antigo, o contou a um
buraco na parede de um monumento e isso lhe permitiu seguir com a vida. Arrumou
o assunto. Mas ela não o sussurrou em nenhum lugar, trá-lo pela mão, ocupa-se a
fazê-lo crescer. Na guerra, os despojos não são partilhados em partes iguais.
Gosto
um imenso deste filme. A fotografia depurada gera ambiente de extraordinária
delicadeza. É lindo.
Fiquei curiosa, acho que nunca o vi.
ResponderEliminarBeijocas
Vi-o pela segunda vez e continuei a gostar dele. Mas não será o gosto de toda a gente.
EliminarTenho o filme em arquivo e agora, depois de ler a sua recensão, vou apressar-me.
ResponderEliminarNão haja dúvida que as relações humanas, o amor, a vida, continuam a ser o grande caldo de histórias onde o cinema e a literatura vão buscar alimento e inspiração, com um fundo telúrico quase inesgotável.
E continuam a haver histórias improváveis, insuspeitadamente improváveis.
Boa tarde Bea.
Creio que o que mais gostei nele foi essa contenção de tudo. Não é um filme afirmativo ou linear, deixa aliás várias pontas soltas. Talvez a minha interpretação tenha atado algumas, mas interpretar é isso mesmo.
ResponderEliminarBoa tarde, Joaquim.
É um dos meus filmes preferidos e a banda sonora... quase sempre a ouço em viagens. "In the mood", todo o filme, música, imagens, actores, é um poema sonoro e visual dos mais magnificentes que tenho visto. Ténue e contudo forte a realidade que fere o íntimo sonho. Já o revi com o mesmo estranho sentimento de pureza e descontinuidade (da vida).
ResponderEliminarLembro-me que o vi a primeira vez quase por um acaso, apostei no escuro. Maravilhou-me.
EliminarSei apenas que ganhou o festival de cinema de Hong Kong.
ResponderEliminarVou levar a sugestão, fiquei curiosa.
Sabe uma coisa que eu não sabia, Magui.
ResponderEliminarAinda há dias passou num canal da TV e não me atraiu, porque pensei que fosse algum filme de amor com Happy End. Agora que li a sua análise sobre o filme fiquei curiosa. Talvez o apanhe na MEDIATHEK.
ResponderEliminarÉ um sério filme de amor. E a vida também não tem happy end. Experimente, Teresa. Pode que, ao invés, o aprecie.
EliminarO Oriente é uma sedução!!!!!
ResponderEliminarNão pertenço ao número de pessoas a quem o oriente seduz. Portanto, o filme deve ser mesmo especial.
ResponderEliminarBom dia, Pedro.
Tenho mesmo de ver o filme. Não conheço.
ResponderEliminarE depois farei como costumo fazer: reler o que acho ter sido bem escrito sobre o assunto. No seu caso, melhor é impossível.
Também já me aconteceu ficar tão presa ao filme que nem reparo na música. Só mais tarde, muitas vezes através dos ouvidos ou olhos de alguém.
Um dia feliz, Bea.
É sempre melhor ver o filme. Até porque, como disse atrás, quem interpreta ata pontas de modo a estar nele, a moldá-lo à sua leitura e, sem querer, desvirtua um bocadinho.
EliminarMerece ser visto, é decalque primoroso, lembra uma aguarela chinesa.
Agora surpreendeu-me, não a imaginava a gostar de tal filme...
ResponderEliminar~CC~
eu sou uma e a que a CC imagina, outra. Aquela que sou acha o filme magnífico.
ResponderEliminarMas a Bea é tão transparente...
EliminarÉ que é uma coisa muito Cultura POP e como a Bea gosta de clássicos...mas quem sabe tudo se pode afinal misturar, desarrumar das caixas, essa ideia agrada-me bastante.
~CC~
Bom, não entendo nada disso que seja "cultura pop". Sei do que gosto e por que gosto. E gosto desse filme. Sem outra inclusão que o meu gosto.
EliminarNinguém é absolutamente transparente, CC.
Vi esse filme há uns anos e adorei, seja pelo que revela, seja pelo que esconde.
ResponderEliminarE agora, acabei de ler uma magnifica sequência de parágrafos, palavras e especialmente de olhares e sentires sobre ele. E adorei novamente!
Muito bom Bea!
É sempre bom encontrar eco e saber que alguém sentiu, como nós, que é um filme diferente sobre tema muito comum.
EliminarAchei-o tão bonito que tenho até medo de manchá-lo com as minhas palavras, pode que estrague algum desenho daquela filigrana.
ResponderEliminarEu gosto do tema e do Oriente, mas não vi o filme. Vou ver se o apanho.
Tu vais gostar do filme, é todo primoroso. E vais ver que interpretas de outro modo, o que também é salutar.
EliminarNão vi, mas o título não me é entranho.
ResponderEliminarComo gostei do que li, vou tentar encontrá-lo nos canais TVCine.
Eu que adoro cinema e tudo via, há meses que não vejo um filme. Nem em casa. Estranhos tempos estes.
Beijo Bea, bora lá mais dicas de filmes.
Obrigada, Teresa. Tenho visto alguns filmes mas nada de saliente ou que me mereça reparo.
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