Manuel
Vilas era autor que não me existia. Rebentou como uma flor à oferta e leitura do
livro assinalado no título. Não sei se posso falar seguramente sobre a escrita
do autor através da única obra que lhe conheço. Parece temerário.
O
escritor espanhol tem 58 anos e é também poeta reconhecido. Foi prémio Femina
com “Em tudo havia beleza”. Os personagens dos dois livros publicados em
Portugal são ele e a família próxima: do
presente e do passado. Duas obras autobiográficas. Pondo os livros em sequência,
lá estão a família do passado e a do presente. Talvez as obras, Em tudo
havia beleza e E de repente, a alegria sejam os dois semicírculos da
mesma circunferência. É assim que as vejo, ainda que da primeira saiba apenas o que é revelado na
segunda. Também imagino, mera suposição, que Manuel Vilas seja formado em Filosofia,
mas o que li na contracapa foi que é professor universitário na universidade de
Iowa. São os temas e as questões que coloca, e a forma como as coloca, que mo
fazem supor radicado em solo filosófico.
Gosta-se
de um autor por várias razões, neste caso, o leitor deixa-se prender - estende
mesmo as mãos para as algemas - ao testemunho que a obra é. Mas não apenas. É
como se Manuel Vilas desmistifique receios básicos, questões dolorosas como a
perda que a morte física acarreta, o vazio que por vezes nos habita e a que
chamamos solidão. E mais. O autor conta-se e analisa-se; sentimos-lhe a
proximidade irmã. Lendo-o, lemo-nos. Acresce que, posto em palavras suas, o
dano dos sentimentos perde densidade. Manuel
Vilas inclui-se, é um de nós, diz, “também eu”. E aligeira. Por ser também
poeta, conta fazendo uso de imagens únicas e de grande beleza. Nele, os mortos
são escada do presente e não lamento.
Depois,
há as particularidades: chama os pais (o Bach e a Wagner), os filhos e os
personagens que lhe importam por nomes ou sílabas musicais e que, a dada altura
do livro, passam ao mundo da cinefilia adoptando nomes de actores e actrizes; a dor psíquica tem uma designação austríaca
(Arnold Schöenberg) e a sua constância impede-o de dormir, horas enfiadas umas
nas outras, cirandando da cama para a janela, apesar do recurso a dormitivos; o
esforço para não ceder ao Arnold que é pessimista e pró morte; as
particularidades dos filhos que simbolizam a sua grande – a maior - alegria; o facto de ter um irmão que é alheio
à história familiar e de os dois casamentos não fazerem parte, julgo eu que por
não pertencerem ao tipo “amor incondicional” cujo só existe entre pais e filhos
e muito mais dos pais para os filhos; o facto de se passear pelo mundo sempre acompanhado dos
seus mortos e afirmar que os encontra melhor nos hotéis e que, quem sabe é por
isso que gosta de viagens.
Bom.
O que interessa é ler o livro e as reflexões sobre a vida quotidiana e o amor
mais nobre, o amor incondicional. Deixo apenas algumas opiniões de Manuel Vilas.
Se
viajarmos, se estivermos constantemente a viajar, não nos sobra tempo para nos
pensarmos a nós mesmos (…) É por isso que viajo, para não recordar que tenho um
nome, para não arcar comigo mesmo (…) e a única forma de me esquecer que não
tenho família, é viajar. É por isso que viajo, porque perdi a minha família.
Mas o
que pensaria o meu pai se me visse aparecer ao seu lado com um buraco na
têmpora? O Bach deixaria de me amar. Não posso fazê-lo por tua causa. O teu
poder chega a tanto, a esse desconhecido lugar da minha consciência. Um morto
proíbe-me de me matar.
Gosto
da expressão “arrastar-me pelo mundo”, porque é viajar com o coração no chão.
As praias
são lugares onde os seres humanos esperam o mar. O mar deveria sentir-se
sortudo ou animado nas praias. O mar que vejo do quarto de hotel chega a terra
e não está lá ninguém. (…) Somos os lugares onde alguém estava à nossa espera.
Não conheço e fiquei curioso para conhecer.
ResponderEliminarNa minha óptica, vale a pena. Em relação ao amor entre dois que resolvam juntar-se, por exemplo, admite, "nenhuma paixão dura para sempre. Se tivéssemos continuado juntos não teríamos sido felizes. Não continuámos juntos e também não fomos felizes. Só nos resta agarrarmo-nos de forma selvagem às palavras e passar o tempo todo a dizer uma frase, dizê-la em inglês The way we were (referência ao filme), ou dizê-la de forma mais destroçada como no verso de Idea Vilariño 'não te verei morrer'."
EliminarTambém não conheço mas esses últimos parágrafos, adorei.
ResponderEliminarBeijocas
Há muitos parágrafos bonitos e até com certo humor. Como este, "Que alegria me deram as promoções(...) a minha vida inteira foram as promoções, ouvi mais o chamamento das promoções do que o chamamento de Deus."
EliminarBoa tarde, Cláudia.
Identifico-me também com esse parágrafo hahah
EliminarEm relação aos donnuts, eu adorei o sabor. Ficam massudos, mas ficam mesmo saborosos. Mas claro, os sabores das aveias e proteínas é que completam.
A proteína de chocolate é só substituir por chocolate em pó. Se4 calhar, ao se colocar mais em substituição da farinha de aveia de sabor a bolacha, resolve o assunto =)
Beijocas
Vou pensar nisso, Cláudia.
Eliminare essa farinha de sabor a bolacha não poderá ser mesmo bolacha moída no moinho que uso para a amêndoa? Vou experimentar assim, não sei de farinhas de aveia com sabor a bolacha.
EliminarTalvez funcione sim =)
EliminarNão conheço.
ResponderEliminarMas a descrição que faz deixou-me com água na boca.
Votos de boa tarde.
Se gosta de livros autobiográficos, simples, originais e que nos tocam, deve ler.
ResponderEliminarViajar para nos esquecermos é uma forma de alienação como outra qualquer, como por exemplo entregar-se à bebida, dedicar-se só aos livros e ao cinema, viver para o clube do qual se é adepto, etc.
ResponderEliminarContudo, acaba sempre por sobrar tempo, e não há como não pensar na vida, na nossa e na dos que nos rodeiam, nas escolhas que fizemos e que não saíram acertadas, na família que criámos ou desfizemos.
E depois, quando o amor acaba, restam as pessoas que magoámos, a maior parte das vezes com palavras mal calculadas mas que nos deixam tanta amargura e peso na consciência.
Certas palavras deixam uma ferida, e a ferida deixa uma cicatriz. E isso é mau. Uma pessoa devia receber um aviso, para poder telefonar a alguém que tivesse ofendido, dizendo «Perdoa-me».
Na verdade, seria também uma outra espécie de amor, e tenho a certeza que o dia seguinte, sorriria mais feliz para todos.
Boa tarde Bea.
O autor , curiosamente, também escreve sobre o mal que fazemos aos outros. Diz ele que é assim a modos que um inevitável. "Se alguém me odiou foi porque antes me amou (...) não podemos esconder o facto de termos feito mal a outras pessoas, porque é inerente à vida. Termos feito sofrer membros da nossa própria família é sempre tão imperdoável como inevitável. A afirmação da nossa personalidade e a procura da nossa felicidade fazem mal a quem mais amamos ou amámos. Não existe tranquilidade no facto de se viver."
ResponderEliminarCreio eu que os avisos existem dentro de cada homem, nós é que não fazemos caso deles. Há males que se evitam ou podem evitar; e outros inevitáveis. Não têm todos a mesma estirpe:). A nossa preocupação individualista esquece demais o outro. Mas é como diz Manel Vilas, fazer mal aos outros é imperdoável e em certos casos, inevitável.
Achei bonito, ainda que não universal em toda a acepção.
Boa noite, Joaquim.
Concordo plenamente com o autor que fiquei com vontade de conhecer: é impossível viver sem magoar alguém e sem nos magoarmos. Mas distingo nisso aquilo que é inerente à própria vida do ato deliberado e constante que muitos praticam. Às vezes digo-lhe: experimenta dizer bem, vais ver que tem outro sabor.
ResponderEliminar~CC~
Sintetizou parcialmente o que penso. Obrigada pela ajuda. Tem vezes em que não consigo dizer bem. Mesmo que o sabor seja melhor. Ou surja mais explícito.
EliminarBom Fim de Semana, CC.
Bom dia!
ResponderEliminarComeço pelo fim: 'As praias são lugares onde os seres humanos esperam o mar'. Que beleza, meu Deus!
Uma amiga já me tinha falado deste livro que andava a ler. Tinha até partilhado um excerto, como faz quando gosta dos livros. Através dela, li outros autores espanhóis de quem gostei muito, como Javier Marías. Com a sua crónica, Bea, fiquei ainda com mais vontade de ler este livro de Manuel Vilas.
Parafraseando: as boas partilhas são lugares onde os humanos também esperam a beleza.
Obrigada.
Boa sexta-feira.
Através dela, já li outros autores espanhóis de quem gostei imenso, como Javier Marías.
As boas partilhas também são lugares onde os seres humanos esperam beleza!!
Boa sexta-feira de sol!
Desculpe, Bea, pela repetição de texto na mensagem. Costumo sempre reler antes de enviar, mas...
EliminarNão se preocupe Maria. Já cometi tanta parvidade em comentários e até em posts que entendo perfeitamente. Talvez goste também dos dois livros, experimente.
EliminarQuanto à ideia das praias, acho linda; mesmo que eu sinta que é mais um encontro e que é ela quem me aguarda embora seja em mim que a ansiedade mora.
Mais um bocadinho que achei bem humorado e que é o meu exacto quando viajo com meu tijolo: "Cheguei à idade em que já não posso trocar de marca de computador portátil. (...) Nos aeroportos, nos cafés, nos hotéis, toda a gente anda com os seus computadores apple, o que me faz sentir-me quase um atrasado, um provinciano, alguém que vai montado numa mula diante de pessoas que montam cavalos engalanados."
Bom fim de semana, Maria.
Bea, O que dizes e como o dizes sobre o autor e os seus livros trazem-me o desejo de o ler e o passar para a frente da fila de livros que tenho à espera. Obrigada! Bfs
ResponderEliminarTu é que sabes, prosa. Mas está visto que eu aconselho. E também sei que vais gostar, já te vou conhecendo:).
ResponderEliminarGosto muito deste tipo de leitura que is alerta de forma subtil mas inteligente, atual e por isso levo a sugestão! Bj
ResponderEliminarA Gracinha também vai gostar:)
ResponderEliminarBom fim de semana.