quarta-feira, 24 de março de 2021

E, de repente, a alegria

 

Manuel Vilas era autor que não me existia. Rebentou como uma flor à oferta e leitura do livro assinalado no título. Não sei se posso falar seguramente sobre a escrita do autor através da única obra que lhe conheço. Parece temerário.

O escritor espanhol tem 58 anos e é também poeta reconhecido. Foi prémio Femina com “Em tudo havia beleza”. Os personagens dos dois livros publicados em Portugal  são ele e a família próxima: do presente e do passado. Duas obras autobiográficas. Pondo os livros em sequência, lá estão a família do passado e a do presente. Talvez as obras, Em tudo havia beleza e E de repente, a alegria sejam os dois semicírculos da mesma circunferência. É assim que as vejo, ainda que  da primeira saiba apenas o que é revelado na segunda. Também imagino, mera suposição, que Manuel Vilas seja formado em Filosofia, mas o que li na contracapa foi que é professor universitário na universidade de Iowa. São os temas e as questões que coloca, e a forma como as coloca, que mo fazem supor radicado em solo filosófico.

Gosta-se de um autor por várias razões, neste caso, o leitor deixa-se prender - estende mesmo as mãos para as algemas - ao testemunho que a obra é. Mas não apenas. É como se Manuel Vilas desmistifique receios básicos, questões dolorosas como a perda que a morte física acarreta, o vazio que por vezes nos habita e a que chamamos solidão. E mais. O autor conta-se e analisa-se; sentimos-lhe a proximidade irmã. Lendo-o, lemo-nos. Acresce que, posto em palavras suas, o dano dos sentimentos  perde densidade. Manuel Vilas inclui-se, é um de nós, diz, “também eu”. E aligeira. Por ser também poeta, conta fazendo uso de imagens únicas e de grande beleza. Nele, os mortos são escada do presente e não lamento.  

Depois, há as particularidades: chama os pais (o Bach e a Wagner), os filhos e os personagens que lhe importam por nomes ou sílabas musicais e que, a dada altura do livro, passam ao mundo da cinefilia adoptando nomes de actores e actrizes;  a dor psíquica tem uma designação austríaca (Arnold Schöenberg) e a sua constância impede-o de dormir, horas enfiadas umas nas outras, cirandando da cama para a janela, apesar do recurso a dormitivos; o esforço para não ceder ao Arnold que é pessimista e pró morte; as particularidades dos filhos que simbolizam a sua grande – a maior -  alegria; o facto de ter um irmão que é alheio à história familiar e de os dois casamentos não fazerem parte, julgo eu que por não pertencerem ao tipo “amor incondicional” cujo só existe entre pais e filhos e muito mais dos pais para os filhos; o facto de  se passear pelo mundo sempre acompanhado dos seus mortos e afirmar que os encontra melhor nos hotéis e que, quem sabe é por isso que gosta de viagens.

Bom. O que interessa é ler o livro e as reflexões sobre a vida quotidiana e o amor mais nobre, o amor incondicional. Deixo apenas algumas opiniões de Manuel Vilas.

Se viajarmos, se estivermos constantemente a viajar, não nos sobra tempo para nos pensarmos a nós mesmos (…) É por isso que viajo, para não recordar que tenho um nome, para não arcar comigo mesmo (…) e a única forma de me esquecer que não tenho família, é viajar. É por isso que viajo, porque perdi a minha família.

Mas o que pensaria o meu pai se me visse aparecer ao seu lado com um buraco na têmpora? O Bach deixaria de me amar. Não posso fazê-lo por tua causa. O teu poder chega a tanto, a esse desconhecido lugar da minha consciência. Um morto proíbe-me de me matar.

Gosto da expressão “arrastar-me pelo mundo”, porque é viajar com o coração no chão.

As praias são lugares onde os seres humanos esperam o mar. O mar deveria sentir-se sortudo ou animado nas praias. O mar que vejo do quarto de hotel chega a terra e não está lá ninguém. (…) Somos os lugares onde alguém estava à nossa espera.

21 comentários:

  1. Não conheço e fiquei curioso para conhecer.

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    1. Na minha óptica, vale a pena. Em relação ao amor entre dois que resolvam juntar-se, por exemplo, admite, "nenhuma paixão dura para sempre. Se tivéssemos continuado juntos não teríamos sido felizes. Não continuámos juntos e também não fomos felizes. Só nos resta agarrarmo-nos de forma selvagem às palavras e passar o tempo todo a dizer uma frase, dizê-la em inglês The way we were (referência ao filme), ou dizê-la de forma mais destroçada como no verso de Idea Vilariño 'não te verei morrer'."

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  2. Também não conheço mas esses últimos parágrafos, adorei.

    Beijocas

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    1. Há muitos parágrafos bonitos e até com certo humor. Como este, "Que alegria me deram as promoções(...) a minha vida inteira foram as promoções, ouvi mais o chamamento das promoções do que o chamamento de Deus."
      Boa tarde, Cláudia.

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    2. Identifico-me também com esse parágrafo hahah

      Em relação aos donnuts, eu adorei o sabor. Ficam massudos, mas ficam mesmo saborosos. Mas claro, os sabores das aveias e proteínas é que completam.
      A proteína de chocolate é só substituir por chocolate em pó. Se4 calhar, ao se colocar mais em substituição da farinha de aveia de sabor a bolacha, resolve o assunto =)

      Beijocas

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    3. e essa farinha de sabor a bolacha não poderá ser mesmo bolacha moída no moinho que uso para a amêndoa? Vou experimentar assim, não sei de farinhas de aveia com sabor a bolacha.

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  3. Não conheço.
    Mas a descrição que faz deixou-me com água na boca.
    Votos de boa tarde.

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  4. Se gosta de livros autobiográficos, simples, originais e que nos tocam, deve ler.

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  5. Viajar para nos esquecermos é uma forma de alienação como outra qualquer, como por exemplo entregar-se à bebida, dedicar-se só aos livros e ao cinema, viver para o clube do qual se é adepto, etc.
    Contudo, acaba sempre por sobrar tempo, e não há como não pensar na vida, na nossa e na dos que nos rodeiam, nas escolhas que fizemos e que não saíram acertadas, na família que criámos ou desfizemos.
    E depois, quando o amor acaba, restam as pessoas que magoámos, a maior parte das vezes com palavras mal calculadas mas que nos deixam tanta amargura e peso na consciência.
    Certas palavras deixam uma ferida, e a ferida deixa uma cicatriz. E isso é mau. Uma pessoa devia receber um aviso, para poder telefonar a alguém que tivesse ofendido, dizendo «Perdoa-me».
    Na verdade, seria também uma outra espécie de amor, e tenho a certeza que o dia seguinte, sorriria mais feliz para todos.
    Boa tarde Bea.

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  6. O autor , curiosamente, também escreve sobre o mal que fazemos aos outros. Diz ele que é assim a modos que um inevitável. "Se alguém me odiou foi porque antes me amou (...) não podemos esconder o facto de termos feito mal a outras pessoas, porque é inerente à vida. Termos feito sofrer membros da nossa própria família é sempre tão imperdoável como inevitável. A afirmação da nossa personalidade e a procura da nossa felicidade fazem mal a quem mais amamos ou amámos. Não existe tranquilidade no facto de se viver."
    Creio eu que os avisos existem dentro de cada homem, nós é que não fazemos caso deles. Há males que se evitam ou podem evitar; e outros inevitáveis. Não têm todos a mesma estirpe:). A nossa preocupação individualista esquece demais o outro. Mas é como diz Manel Vilas, fazer mal aos outros é imperdoável e em certos casos, inevitável.
    Achei bonito, ainda que não universal em toda a acepção.
    Boa noite, Joaquim.

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  7. Concordo plenamente com o autor que fiquei com vontade de conhecer: é impossível viver sem magoar alguém e sem nos magoarmos. Mas distingo nisso aquilo que é inerente à própria vida do ato deliberado e constante que muitos praticam. Às vezes digo-lhe: experimenta dizer bem, vais ver que tem outro sabor.
    ~CC~

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    1. Sintetizou parcialmente o que penso. Obrigada pela ajuda. Tem vezes em que não consigo dizer bem. Mesmo que o sabor seja melhor. Ou surja mais explícito.
      Bom Fim de Semana, CC.

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  8. Bom dia!
    Começo pelo fim: 'As praias são lugares onde os seres humanos esperam o mar'. Que beleza, meu Deus!
    Uma amiga já me tinha falado deste livro que andava a ler. Tinha até partilhado um excerto, como faz quando gosta dos livros. Através dela, li outros autores espanhóis de quem gostei muito, como Javier Marías. Com a sua crónica, Bea, fiquei ainda com mais vontade de ler este livro de Manuel Vilas.
    Parafraseando: as boas partilhas são lugares onde os humanos também esperam a beleza.
    Obrigada.
    Boa sexta-feira.












    Através dela, já li outros autores espanhóis de quem gostei imenso, como Javier Marías.
    As boas partilhas também são lugares onde os seres humanos esperam beleza!!
    Boa sexta-feira de sol!

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    1. Desculpe, Bea, pela repetição de texto na mensagem. Costumo sempre reler antes de enviar, mas...

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    2. Não se preocupe Maria. Já cometi tanta parvidade em comentários e até em posts que entendo perfeitamente. Talvez goste também dos dois livros, experimente.
      Quanto à ideia das praias, acho linda; mesmo que eu sinta que é mais um encontro e que é ela quem me aguarda embora seja em mim que a ansiedade mora.
      Mais um bocadinho que achei bem humorado e que é o meu exacto quando viajo com meu tijolo: "Cheguei à idade em que já não posso trocar de marca de computador portátil. (...) Nos aeroportos, nos cafés, nos hotéis, toda a gente anda com os seus computadores apple, o que me faz sentir-me quase um atrasado, um provinciano, alguém que vai montado numa mula diante de pessoas que montam cavalos engalanados."
      Bom fim de semana, Maria.

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  9. Bea, O que dizes e como o dizes sobre o autor e os seus livros trazem-me o desejo de o ler e o passar para a frente da fila de livros que tenho à espera. Obrigada! Bfs

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  10. Tu é que sabes, prosa. Mas está visto que eu aconselho. E também sei que vais gostar, já te vou conhecendo:).

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  11. Gosto muito deste tipo de leitura que is alerta de forma subtil mas inteligente, atual e por isso levo a sugestão! Bj

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  12. A Gracinha também vai gostar:)
    Bom fim de semana.

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