Não
sou muito afim de devoções. A devoção é da ordem do sentimento e leva-nos a
fazer alguma coisa, acto que, no caso, se repete diário. E difere de obrigação.
Embora infinitamente repetido, o acto devoto é livre e relança o sujeito face
ao objecto, num apelo sempre desejado. Mas a devoção coloca-nos de joelhos em
relação ao objecto que é, de uma forma ou de outra, admirável. Subentende-se que há diferença muito clara entre
os dois intervenientes, e se em alguns casos pode ser abismal, noutros, é apenas
notória desigualdade, o objecto de devoção é reconhecido como qualitativamente superior e com poder
incomum enquanto o sujeito lhe é eternamente submisso e grato. Há algo de filial na forma como um sujeito se devota a um objecto. Vista à lupa humana, parece
uma relação de excessos: do sujeito devoto que se entrega, espera e confia; e
do objecto de devoção, poderoso e condescendente no que toca ao sujeito. Sendo
excessiva, sentimental e emotiva, é relação que não classifico de irracional, mas
me parece escapar, ao menos parcialmente, ao movimento da razão.
E
ficaríamos assim se não fora eu reconhecer que o homem precisa de devoções
comezinhas e sem essa aura de quase sacralidade de que se alimentam os devotos.
Talvez haja um sagrado quotidiano a repetir-se nos homens. Dá pelo nome de amor
e não espera do seu objecto nada de transcendente, mas toma-o sempre pela
infinita diferença e unicidade e sabe, sem ter aprendido, que só ela lhe serve.
Creio ser assim que se gosta de um filho e de alguns outros poucos amores que
não são de passagem e na fugacidade da vida se demoram.
Pessoalmente gosto do SAGRADO... algo que tento compreender na devoção que pratico com algumas das "figuras" que fui construindo ao longo da vida!
ResponderEliminar... e AMOR de mãe/pai e filhos... e outros que derretem nosso coração... aí a devoção cria asas!!! 💜
Bj Bea e obrigada pelo carinho
Obrigada eu, Gracinha. Tanta coisa tenho visto e "conhecido" através dos seus olhares.
ResponderEliminarAs devoções caseiras são as mais próximas.
Devoção e razão diria que são mutuamente exclusivas.
ResponderEliminarNão será assim?
Não julgo que se excluam completamente, mas antes concorram e facilitem o nosso entendimento do mundo e dos outros, Pedro.
EliminarTenho uma quase "devoção" pelo tango.
ResponderEliminarIntenso. Dramático. Sensual. Assim é o tango, nascido nos bairros mais pobres de Buenos Aires. Desde miúdo que me fascina e quando é dançado a preceito, com a harmonia perfeita entre a música, os seus movimentos e os seus bailarinos, preenche-me totalmente os sentidos.
Gostaria de o saber dançar. Poderia ter-me dedicado a ele a vida inteira sem fastio.
Gostava de me reformar de dançarino de tango. Imagino-me a entregar os papéis para a reforma e a funcionária da Segurança Social perguntar-me com os olhos muito abertos:
- Dançarino de tango argentino...?
E eu responder:
- É o que vê.
E ela perguntar-me:
- De que sente mais falta um dançarino de tango argentino que se vai reformar - do par ou da música?
É uma pergunta que me faço muitas vezes e a resposta só pode ser uma - do movimento.
Joaquim
ResponderEliminarTambém aprecio ver dançar o tango, mas não me vejo a dedicar-lhe mais do que dedico, alguns olhares invejosos. Se tivesse tido outro berço e o futuro mos tivesse posto no caminho de certeza quereria aprender a dançá-los. Mas hoje, confesso, não tenho sequer pena de não ter aprendido. Talvez os bailarinos de tango não gostem de escrever, a cada um sua ferramenta:).
Pois, dizer que a saudade lhe vem do movimento é igual a admitir a saudade da música e do par (a menina da segurança social que sonha é um bocadinho indiscreta)
Acho que não tenho nenhuma devoção. Acho... :P
ResponderEliminarBeijocas
Desconfio, Cláudia:)
EliminarDevoção só mesmo o amor que sinto pelos meus.
ResponderEliminarBoa noite Bea.
As devoções humanas são muito meticulosas.
EliminarBea, hoje venho só deixar um beijo.
ResponderEliminarP'rá semana virei ler.
Juntas, no pétalas.
Pois claro, Teresa. Sempre.
ResponderEliminarBoa noite/Bom dia
Devoção uso mais em contexto religioso, sugere-me distanciamento entre o devoto e o objecto de devoção. Mas na verdade devoção pode ser usado em relação a pessoas, mais do que a coisas, no sentido de dedicação extrema.
ResponderEliminar. Abraço!
Obrigada, prosa. Também entendo a devoção com certo degrau entre devoto e objecto de devoção, mesmo se acontece entre pessoas, quem assim se dedica há-de reconhecer no outro alguma superioridade, nem que seja pela via do sentimento.
ResponderEliminarUm dia bom para ti.