quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Devoção Diária

 

Não sou muito afim de devoções. A devoção é da ordem do sentimento e leva-nos a fazer alguma coisa, acto que, no caso, se repete diário. E difere de obrigação. Embora infinitamente  repetido,  o acto devoto é livre e relança o sujeito face ao objecto, num apelo sempre desejado. Mas a devoção coloca-nos de joelhos em relação ao objecto que é, de uma forma ou de outra, admirável.  Subentende-se que há diferença muito clara entre os dois intervenientes, e se em alguns casos pode ser abismal, noutros, é apenas notória desigualdade, o objecto de devoção é reconhecido  como qualitativamente superior e com poder incomum enquanto o sujeito lhe é eternamente submisso e grato. Há algo de filial na forma como um sujeito se devota a um objecto. Vista à lupa humana, parece uma relação de excessos: do sujeito devoto que se entrega, espera e confia; e do objecto de devoção, poderoso e condescendente no que toca ao sujeito. Sendo excessiva, sentimental e emotiva, é relação que não classifico de irracional, mas me parece escapar, ao menos parcialmente, ao movimento da razão.

E ficaríamos assim se não fora eu reconhecer que o homem precisa de devoções comezinhas e sem essa aura de quase sacralidade de que se alimentam os devotos. Talvez haja um sagrado quotidiano a repetir-se nos homens. Dá pelo nome de amor e não espera do seu objecto nada de transcendente, mas toma-o sempre pela infinita diferença e unicidade e sabe, sem ter aprendido, que só ela lhe serve. Creio ser assim que se gosta de um filho e de alguns outros poucos amores que não são de passagem e na fugacidade da vida se demoram.

14 comentários:

  1. Pessoalmente gosto do SAGRADO... algo que tento compreender na devoção que pratico com algumas das "figuras" que fui construindo ao longo da vida!
    ... e AMOR de mãe/pai e filhos... e outros que derretem nosso coração... aí a devoção cria asas!!! 💜
    Bj Bea e obrigada pelo carinho

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  2. Obrigada eu, Gracinha. Tanta coisa tenho visto e "conhecido" através dos seus olhares.
    As devoções caseiras são as mais próximas.

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  3. Devoção e razão diria que são mutuamente exclusivas.
    Não será assim?

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    1. Não julgo que se excluam completamente, mas antes concorram e facilitem o nosso entendimento do mundo e dos outros, Pedro.

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  4. Tenho uma quase "devoção" pelo tango.
    Intenso. Dramático. Sensual. Assim é o tango, nascido nos bairros mais pobres de Buenos Aires. Desde miúdo que me fascina e quando é dançado a preceito, com a harmonia perfeita entre a música, os seus movimentos e os seus bailarinos, preenche-me totalmente os sentidos.
    Gostaria de o saber dançar. Poderia ter-me dedicado a ele a vida inteira sem fastio.
    Gostava de me reformar de dançarino de tango. Imagino-me a entregar os papéis para a reforma e a funcionária da Segurança Social perguntar-me com os olhos muito abertos:
    - Dançarino de tango argentino...?
    E eu responder:
    - É o que vê.
    E ela perguntar-me:
    - De que sente mais falta um dançarino de tango argentino que se vai reformar - do par ou da música?
    É uma pergunta que me faço muitas vezes e a resposta só pode ser uma - do movimento.

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  5. Joaquim
    Também aprecio ver dançar o tango, mas não me vejo a dedicar-lhe mais do que dedico, alguns olhares invejosos. Se tivesse tido outro berço e o futuro mos tivesse posto no caminho de certeza quereria aprender a dançá-los. Mas hoje, confesso, não tenho sequer pena de não ter aprendido. Talvez os bailarinos de tango não gostem de escrever, a cada um sua ferramenta:).
    Pois, dizer que a saudade lhe vem do movimento é igual a admitir a saudade da música e do par (a menina da segurança social que sonha é um bocadinho indiscreta)

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  6. Acho que não tenho nenhuma devoção. Acho... :P

    Beijocas

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  7. Devoção só mesmo o amor que sinto pelos meus.
    Boa noite Bea.

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  8. Bea, hoje venho só deixar um beijo.
    P'rá semana virei ler.
    Juntas, no pétalas.

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  9. Pois claro, Teresa. Sempre.
    Boa noite/Bom dia

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  10. Devoção uso mais em contexto religioso, sugere-me distanciamento entre o devoto e o objecto de devoção. Mas na verdade devoção pode ser usado em relação a pessoas, mais do que a coisas, no sentido de dedicação extrema.
    . Abraço!

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  11. Obrigada, prosa. Também entendo a devoção com certo degrau entre devoto e objecto de devoção, mesmo se acontece entre pessoas, quem assim se dedica há-de reconhecer no outro alguma superioridade, nem que seja pela via do sentimento.
    Um dia bom para ti.

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