Ficou-me
de tempos antigos o horário de fim de semana. À sexta trago a casa à ribalta ,penso nela, arejo, limpo (sempre com um café em cima). Então, o propósito era amenizar o fim
de semana. Que acudir a roupas, refeições e tanto mais, evaporava a leveza
sonhada para o dia de sábado, e os domingos eram um corre corre que entrava
noite dentro. Raro via tv e não havia série que conhecesse. E conto-vos isto
apenas porque, matinal, me dispus a ler a Visão. Agora que as corridas
dominicais terminaram e o tempo desenrola devagar, tornei-me luxuosa e dada a
pequenos dislates. Foi assim, imersa em preguiça dominical, que
li a entrevista a um professor universitário, um psicólogo que é também
escritor: Luís Fernandes. Fiquei fã. A cegueira incentivou-o a explorar novos campos,
a massagem como exemplo. Mas o melhor é lerem a entrevista porque me cinjo à frase
que a jornalista Clara Soares (suponho que tenha sido ela) destacou e que copio
em parte, “a experiência do confinamento é muito dolorosa, sobretudo para
aqueles que vivem subterrados em estímulos.”
Ora, não têm conta os adjectivos que existem para catalogar o confinamento: prisão;
prisão dourada; espaço para fazer coisas novas com a inesperada bolsa de tempo:
tempo para cuidar de si e da imagem (emagrecer, engordar, essas coisas), tempo
para os filhos, a casa, o quintal, os apetrechos de férias, ensaiar a caridade
tecendo para outrém; sei lá. E os exemplos positivos com que os media, nas suas
várias versões, nos têm bombardeado. Este mundo e o outro estão cheios de gente
meritória que pouco deu pelo confinamento por estar entretida a conversar
dentro de portas, a jogar, a entender-se com filhos e companheiros, a experimentar
receitas e outras manufacturas. Pessoal que optimizou o ser refreado e tirou dividendos
físicos, psicológicos e até monetários (houve quem mudasse de profissão e se
desse bem). Gente que se fez a si mesma mais feliz e estendeu o tapete do bem
estar aos outros.
Talvez
por ser do contra, soube-me bem ler a afirmação do professor, que o
confinamento é muito doloroso. Porque é. Claro que estamos em nossas casas e
não nos faltam os bens de primeira necessidade. Mas a nossa prisão não é sempre
dourada. Nem quase sempre. É às vezes dourada e apenas para algumas pessoas.
Serão essas as afortunadas, as que melhor sabem viver, as que aprenderam a
lição com os erros e dão a volta por cima, as que, quiçá, sejam puras e inocentes.
Tenho um imenso prazer em saber que existem. Acaso da fortuna ou mérito pessoal,
têm a minha vénia. Mas não me lixem, para os eternos inadaptados que são a
grande maioria dos homens, qualquer confinamento é em si mesmo um mal. A falta
de liberdade e de contacto com os outros não pode ser um bem. E a necessidade
não elimina a coerção. Levamos com calma, mas é coerção. Que, mais que ela, arde-nos
a incerteza do porvir. Inquieta. Não é auspicioso que ele dependa tanto do
mundo da ciência ou de qualquer outro pequeno mundo. Em tudo, elegância e
equilíbrio são necessários.