Mostrar mensagens com a etiqueta um covid português. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta um covid português. Mostrar todas as mensagens

domingo, 17 de janeiro de 2021

Derivações

 

Ficou-me de tempos antigos o horário de fim de semana. À sexta trago a casa à ribalta ,penso nela, arejo, limpo (sempre com um café em cima). Então, o propósito era amenizar o fim de semana. Que acudir a roupas, refeições e tanto mais, evaporava a leveza sonhada para o dia de sábado, e os domingos eram um corre corre que entrava noite dentro. Raro via tv e não havia série que conhecesse. E conto-vos isto apenas porque, matinal, me dispus a ler a Visão. Agora que as corridas dominicais terminaram e o tempo desenrola devagar, tornei-me luxuosa e dada a pequenos dislates.   Foi assim, imersa em preguiça dominical, que li a entrevista a um professor universitário, um psicólogo que é também escritor: Luís Fernandes. Fiquei fã. A cegueira incentivou-o a explorar novos campos, a massagem como exemplo. Mas o melhor é lerem a entrevista porque me cinjo à frase que a jornalista Clara Soares (suponho que tenha sido ela) destacou e que copio em parte, “a experiência do confinamento é muito dolorosa, sobretudo para aqueles que vivem subterrados em estímulos.”

Ora, não têm conta os adjectivos que existem para catalogar o confinamento: prisão; prisão dourada; espaço para fazer coisas novas com a inesperada bolsa de tempo: tempo para cuidar de si e da imagem (emagrecer, engordar, essas coisas), tempo para os filhos, a casa, o quintal, os apetrechos de férias, ensaiar a caridade tecendo para outrém; sei lá. E os exemplos positivos com que os media, nas suas várias versões, nos têm bombardeado. Este mundo e o outro estão cheios de gente meritória que pouco deu pelo confinamento por estar entretida a conversar dentro de portas, a jogar, a entender-se com filhos e companheiros, a experimentar receitas e outras manufacturas. Pessoal que  optimizou o ser refreado e tirou dividendos físicos, psicológicos e até monetários (houve quem mudasse de profissão e se desse bem). Gente que se fez a si mesma mais feliz e estendeu o tapete do bem estar aos outros.

Talvez por ser do contra, soube-me bem ler a afirmação do professor, que o confinamento é muito doloroso. Porque é. Claro que estamos em nossas casas e não nos faltam os bens de primeira necessidade. Mas a nossa prisão não é sempre dourada. Nem quase sempre. É às vezes dourada e apenas para algumas pessoas. Serão essas as afortunadas, as que melhor sabem viver, as que aprenderam a lição com os erros e dão a volta por cima, as que, quiçá, sejam puras e inocentes. Tenho um imenso prazer em saber que existem. Acaso da fortuna ou mérito pessoal, têm a minha vénia. Mas não me lixem, para os eternos inadaptados que são a grande maioria dos homens, qualquer confinamento é em si mesmo um mal. A falta de liberdade e de contacto com os outros não pode ser um bem. E a necessidade não elimina a coerção. Levamos com calma, mas é coerção. Que, mais que ela, arde-nos a incerteza do porvir. Inquieta. Não é auspicioso que ele dependa tanto do mundo da ciência ou de qualquer outro pequeno mundo. Em tudo, elegância e equilíbrio são necessários.

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Miudezas

 

Hoje, excepcionalmente, fui às compras fora da terrinha. Maus hábitos, na verdade. Fui ao abrir da loja e correram lindamente, duas meninas simpáticas inteirinhas para mim e a desejarem um 2021 cheio de coisas boas, hipótese que, a falar verdade, não consigo visualizar; mas pode ser da miopia, quem sabe piorou, que isto do covid fecha-nos em casa e as doenças andam por dentro de nós à rédea solta. Bom, quando saí toda contentinha havia filas para tudo que era sítio, excepto a casa de banho que, é claro, fui conhecer.  À saída, não me entendi com aquela manigância do pedal em que se carrega para a porta abrir e não mexermos no manípulo. Confesso, sou pouco expedita para tais mariquices e já custo bastante a destrinçar o funcionamento das torneiras, quanto mais perceber de pedais que abrem portas. Bom, ainda tentei mas, depois de andar com o pé por aqui e por ali a fazer festas ao pedal, que é como quem diz, na perpendicular e enviesado, socorreu-me uma senhora mais hábil e que afinal teve que puxar a porta manualmente ou não chegávamos a sair. E eu a ufanar ao comprimento das filas intermináveis. Portanto, bem disposta e de saída, resolvi que merecia uma meia de leite e um scone. Zás, entrei no Portela e plantei-me na obediente fila para a caixa. Era a quarta e última pessoa. Às tantas, o número dois desenfiou-se e foi colocar-se a distância razoável; supus que seria acompanhante e fiz sinal à pessoa na minha frente para avançar. O que eu fui fazer. O Homem passou-se e vociferou sibilino, eu estou na fila. E eu logo, peço desculpa, pensei que acompanhava a senhora que está a pagar. E ele quase, quase a engolir-nos (a mim e à emudecida criatura na minha frente), acha que isto é um metro, acha que isto é um metro…. Eu estúpida, a olhá-lo sem entender por que carga de água chamava o metro à conversa. E deve ter sido uma cara mesmo muito palerma porque acrescentou escarninho, não leu as recomendações, não me diga que não leu…e oh, houve faísca dentro de mim…Pois, o covid.  E demos as duas uns passos atrás. Moral da história: o senhor pediu o café lá mesmo nos confins do balcão e, apesar da sala estar vazia (eu, a senhora da frente e ele, a cliente número um já tinha desaparecido do mapa) foi bebê-lo para o átrio, virado ao vazio e de costas para toda a gente. Pois eu e a senhora sentámo-nos cada uma em sua mesa e ela desejou-me um bom café. E quando saíu entregou-me um sorriso bonito e os votos de feliz ano novo e boas entradas. Mas o senhor não me toques, no trazer da chávena olhou-me como se esteja carregadinha de vírus e não saiba. O que até pode ser possível, mas escusava de ser tão descarado.

Simpatizei com aquela senhora que, é quase certo, não tornarei a ver. Apetecia-me que fosse minha vizinha. Ou isso.

domingo, 3 de maio de 2020

Dia da Mãe - Fim do Primeiro Acto


Último dia de confinamento. Um dia de verão, diz a meteorologia. Também o dia que a convenção te atribuiu.  Hoje, primeiro domingo de Maio, é Dia da Mãe. Dia das mães que não se visitam, são vistas por Skype, em vídeo conferência, através de uma janela. Ou a celebração faz-se por telefone.  Ou, se és mãe ainda jovem, tens a sorte de os filhos dentro de casa, e recebes, suprema glória, uns beijinhos e abraços, fazes um almoço melhorado, inventas uma brincadeira nova, serves a sobremesa preferida (deles). E sentes que a vida encaixa, arruma-se, vale a pena. Logo à noite, quiçá já na hora de almoço, as televisões desdobram-se em mostras do amor filial emoldurado em corona vírus. E tu, hoje, especialmente hoje, ficas bem na fotografia do encerramento que não vai ser.
Ao invés do habitual, não te comprei flores e nem te visito. Sei, moras no mesmo concelho. Desculpa.  Também não as vou ter. No meu telemóvel vai entrar um sms que diz, como sempre, “feliz dia da mãe”.  Mas hei-de sair de bicicleta, a aragem a bater-me no rosto. De bicicletas soubeste a parte má, arrumá-las e atar livros e almoços no suporte. É também por isso que insisto e  te levo a passear. Anda, vamos…

sábado, 2 de maio de 2020

Dois de Maio


         Penúltimo dia de confinamento. Depois de amanhã passamos à amável situação de calamidade. Então, vou postar em dias alternados. Porque sempre gostei de saltos. Portanto. Quiçá apuro as meninges. Estive a reler  os escritos deste tempo e é fora de dúvida,  preciso de um refresh, é prosa  claustrofóbica e um dia destes ainda encaracolam bolores e  cogumelos texto acima.
         Nesta era de medidas sanitárias, o fim de semana apenas prolonga a modorra indistinguível dos outros dias. Em tempos, havia por vezes os filhos e uma ou outra visita. Em tempos, curtia a solidão da casa, almoçava de apetite na hora do desejo; lia, escrevia ou sentava-me na rua sem bulir, olhando o mundo das coisas rodeado de insectos e animais pequenos a fazerem a sua vida sem alarde, alheios à minha presença de gigante pacata.
         No início das restrições, assinalava o fim de semana com um bolo ou um doce. Mas  foram semanas em demasia. Apesar da minha imortal fome de doces caseiros, ainda sou capaz de reconhecer que o maior prazer é comê-los em companhia. Sabor tão esquecido e que minguou a vontade. Talvez saltando umas semanas consiga renovar o prazer. Quem sabe.
         Portanto, os meus vestidos passaram a ser o sinal de fim de semana. Um arzinho de diferença. E provei na carne a falsidade daquelas mulheres que afirmam peremptórias, um ressaibo de orgulho indomado na voz, eu visto-me para mim, gosto de estar bem para mim.  Bom, não digo que não gostemos de nos olhar ao espelho e nos agradar a imagem. Mas ninguém, mulher ou homem, se veste apenas para si. Que pobreza, essa auto satisfação quase fanfarrona. Vestirmo-nos é uma necessidade (nus, sofreríamos bastante mais) e um pressuposto social, uma convenção. Quem lhe fuja, sofre as sanções respectivas. Mas o avanço civilizacional exige mais. Não quer apenas que a roupa nos cubra por necessidade e obrigação. É preciso juntar o agrado. E o agrado, bata onde bata, procura um tu (outro espelho), não se limita à bazófia vulgar de, visto-me para estar bem para mim, os outros não me importam. É que importam. Importam sempre. Ainda não descobri por que fazemos afirmações tão tolas como se fossem verdades insofismáveis. 

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Um de Maio


Há certa falta de viço neste Dia do Trabalhador em que celebramos as tão suadas vitórias e lutas por melhores condições laborais. E quanto por elas se sofreu. A vontade que foi necessária para levar avante a luta contra o poder. E por quanto tempo o trabalho se manteve ainda em condições desumanas.  Em Portugal, tanto devemos a Abril de 74. Tanto.
À beira de não sabemos o quê que se segue, falta vontade genuína, o anseio de futuro minado pela interrogação. Ter esperança em quê; continuar a luta para obter o quê; o que é que vai seguir-se ao lay off. A antevisão de despedimentos e falências não nos abandona. A certeza de um vírus presente e para que não existe vacina, também não. Portanto, celebrar conquistas laborais à beira não se sabe de quê, mas que vai afectar fortemente as pessoas e o sector,  que pode desmoronar a economia familiar de muita gente, não dá muito campo à esperança. Ninguém sabe o que, nem como, vai ser a continuação. Estamos a reerguer-nos, oiço dizer. Mas quando faltam certezas desta natureza, quase vitais, o receio acentua-se.
Talvez Maio nos esclareça. E oxalá não nos conte aquilo que não queremos mesmo saber.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Trinta de Abril


Ora bem. Hoje armei-me de máscara cirúrgica, passei uma fita no cabelo, calcei sapato de salto e fiz-me ao super. Antes de sair treinei a máscara ao espelho e pareceu-me razoável, dado que todas me dificultam a respiração. Chegada ao parque de estacionamento, a parva da fita começou a deslizar. Puxei-a para a frente, pus a máscara e fui buscar o carrinho de compras. Habituada a haver pouca gente, nem olhei para a entrada. Quando me viro, oh, céus, havia fila. Lá fui para o fim, cheia de inveja da colega que estava em primeiro lugar e nem me reconheceu. Estava eu muito bem lá atrás de tudo – muito bem é como quem diz, estive sempre a resmungar porque saíam muitas pessoas e não entrava ninguém, e patati patatá. Às tantas, vou pela fita e está no chão. Atirei-a para o saco das compras e acabei-lhe com a rebeldia (bem digo que não seguro nada). Ora eu que ando sempre com um elástico a fazer de pulseira – posso precisar de atar o cabelo – desta vez não me lembrei. E é claro que as minhas malas não têm nada excepto carteiras, chaves, um saco suplente dos que se enrolam e dão um jeitão. Portanto, entremeei resmunguice com pôr o cabelo atrás das orelhas que é aquela coisa fácil para pessoas com orelhas superiores, as minhas já estavam ocupadas com a porcaria do elástico da máscara. Sai um senhor que faz natação comigo, pessoa da minha idade. Aproxima-se e olha. Volta a olhar. Mas cruza-me sem um aceno (tal não é o efeito da máscara). E nem foi pôr os víveres no carro. Veio postar-se a conversar com o fulano que estava atrás de mim – provavelmente a dois metros. Não me virei, mas creio que esteve a tentar descobrir quem eu era. Como avançámos e entrámos, não sei se chegou lá (não me apeteceu virar-me e, ué, olhe que sou eu).
E maçãs e peras? Um bocadinho melhor. Mas pouco. Certo, já não fico a ver apenas o interior da máscara, entre franja comprida e a subida ligeira do artefacto, há uma nesga por onde espreito. Melhorou.
Entretanto, vem uma mascarada na minha direcção. Eu, já vi estes olhos e eles conhecem-me, ai quem é, ai quem não é.  A desconhecida familiar, olhos a rir, pois é, a gente assim deixa de se conhecer. Eu, é pá, desculpa, eu sabia que te conhecia. E tal. Seguimos.
Garanto: jamais olhei com tanta atenção para os olhos de toda a gente. Yai.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Vinte e Nove de Abril


Estamos à beira de a situação mudar de Estado de Emergência para Estado de Calamidade. Entre as duas aprazíveis designações, venha o diabo e escolha (vistas por si, uma calamidade é pior que uma emergência). Muito desejo que a calamidade seja mais esperançável, ainda que o termo não rime com esperança. Ânimo, sempre é uma melhoria.  Amanhã saberemos, com certeza, os estabelecimentos que abrem e as condições de frequência; o que continua com restrições e que deve ser tudo; o que é proíbido; e onde beneficiaremos,  efectivamente, de algumas benesses. Ao que nós chegámos, chamarmos benesse ao vulgar do anterior quotidiano. Tché (txé?).
Uma coisa é certa, o contacto social vai ser de máscara. E já eu estou a pensar nisso porque não tenho corpo de segurar coisas. Na cabeça, como é sabido, os óculos não se seguram; tanto que gosto de ver aquele gesto feminino de segurar o cabelo com os óculos e nada. Na cintura, as saias e as calças descem-me, tenho que andar quase sempre atada de  cinto e o camandro; há-de ser por isso que saias com alças ou elásticos me dão jeito e gosto de suspensórios. Se uso collants, é a mesma jigajoga, tenho de segurá-los com uma peça de roupa que visto para o efeito (são-me avessos os malvados dos collants). Ora a máscara, não sei se acontece à outra gente (ainda não perguntei), mas, mal me inclino, sobe e tapa-me os olhos. Como só a uso no super, assim que penso em ver melhor uma pera ou uma maçã, zás, lá vem ela. E depois os avisos, se não leva luvas não pode tocar na cara; e não levo luvas. Portanto, tenha ou não apanhado as peras ou o que seja, sou obrigada a pôr-me direita e ela volta ao lugar. Depois, quando ninguém está por ali – vou na hora de menos movimento e as pessoas evitam-se umas às outras – faço uma escolha a priori, muito direita a focar-me na fruta, e lanço-me a buscá-la mais ou menos ao calhas (feita ceguinha). Na impossibilidade de evitar a atracção da máscara pelos meus olhos, amanhã vou experimentar outro tipo, há a hipótese  de ser defeito dela, não é? Oxalá. Amanhã uso o modelo cirúrgico.  E lá vou eu toda vamp para a sala de operações que é o super. Se me sucede o mesmo, para a próxima vou de óculos, sempre seguram. Tenho que vencer a máscara, dê lá por onde der.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Vinte e Oito de Abril


As séries inglesas conquistam-me. Talvez seja gosto sem causa. Detesto o clima, não sou versátil na língua e a única vez que estive em Inglaterra vi o aeroporto, uma igreja e pouco mais. Mas não consigo evitar, gosto de filmes e séries ingleses. Portanto, aconselho After Life, série que parece que já não é nova, mas foi para mim. Estive quase a desistir no fim do primeiro episódio. O assunto pareceu-me dramático, um homem muito apaixonado e a quem a mulher morre com cancro, está deprimido quase em grau dez (para aí 9.8). Gasta quase todo o tempo no portátil, atarraxado aos vídeos da mulher que os deixou sequenciados como percebi ao longo dos episódios, e faz a vida negra a toda a gente com que se cruza. Pensei, bolas, já estou para aqui perdida na emergência do vírus e ponho-me a ver este fulano, não sei se é boa ideia. Miguel Esteves Cardoso, quando escrevia sobre o temperamento português, afirmava que a gente de outros povos se está triste, vai ao bar e bebe uns copos, ouve música alegre, espairece. Mas a vocação nacional em modo de tristeza é ir ao fundo, ouvir música triste, fechar-se em casa e recusar saídas.  Resolvi apostar na mesma.
Não vou contar mais, merece alguma novidade. Tem muito palavrão, mas ditos em inglês fazem menos mossa; mete droga (fechei os olhos nessas partes); uma prostituta interessante; um emprego do mais rocambolesco e com alguns casos um bocado nojentos. Mas o personagem principal convence. É em simultâneo sarcástico e mau e tem um sorriso e umas tiradas  angelicais, de boa pessoa. A sério, é diversificada. Interessa aos adoradores de animais porque tem uma cadela; aos tétricos que gostam de cemitérios porque grande parte da conversa é num banquinho do cemitério; aos velhos porque há uma casa de repouso e mais a memória frágil de quem lá mora; aos drogados, porque também são assunto; e aos psiquiatras que ficam aqui um bocadinho mal vistos mas têm o seu quê. Ah, e outra coisa que aprecio, é gente normalíssima, podia encontra-los a todos numa paragem de autocarro ou apenas a andar rua fora.
Recomendo. Parece que ser de um tal Ricky Gervais serve de garantia.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Vinte Sete de Abril


Hoje fui arejar as meninges. Atrasei-me e já não era cedinho. Pelo que encontrei uma colega que se apressou a mudar de passeio um bocadinho antes de cruzarmos e eu, inconveniente, a perguntar-lhe pelos filhos que conheci tão bem, e ela a responder-me a três quartos (só um quarto virado a mim), certa contrariedade que se notava nos cabelos todos a virar, e o fracasso da voz a  fingir que não. E fui andando. Talvez eu seja mesmo inconsciente, perigosa, me faça ao vírus. Mas é que me apeteceu emperrar aquela fuga mal disfarçada.  
Depois reparei na mania das papoilas. Mania, pois. Uma extensão de campo tão verde, tantas irmãs por lá a flamejar e embirram nascer nas frinchas do alcatrão, sujeitas a que uma roda distraída as deixe espalmadíssimas que nem planta de herbário.  Ó ervas indómitas, que até parecem gente.
Por excesso de maquinaria e terraplanagem, não pus um pé na minha rua que não é minha. Alterei a rota. Boa! E passei por três pinheiros mansos de copa acolhedora. Reconheço que o pinheiro bravo é um bocado esgalgueirado e, como alguém da minha infância dizia quando falava de desproporção, é trangalhadanças (que palavra). Mas o pinheiro manso é todo redondezas maternas e sugestão, anda cá, experimenta-me. Transportaram-me à infância, quando, mãos dadas, saía com meu tio. Ele para minha avó, vamos ali, eu tomo conta dela. Minha avó, não a leves para cima dos pinheiros. E ele a piscar-me o olho e a assobiar baixinho, está bem, mãe; e a descansá-la, é só uma voltinha. Mas eu andava devagar e ele depressa se cansava de passos pequenos e me subia às cavalitas. Então, corria comigo pelo meio dos pinheiros a fazer de cavalo e a relinchar, parava bruscamente e eu que seguia de braços caídos e sempre a rir e falar, na espontaneidade do desequilíbrio deitava-lhe as mãos à cara e tapava-lhe os olhos. E ele, tira as mãos dos olhos do tio, assim não vejo e nunca mais chegamos ao esconderijo. Eu não sabia o que era um esconderijo, mas ficou-me a ideia de ser alguma coisa secreta e em cima de uma árvore. Meu tio adorava livros, perdia-se a ler e minha avó tirava-lhos da frente na hora das refeições. Já não sei precisar o que fazia de determinada árvore, previamente escolhida, um esconderijo. Só ele saberá como o construía. Sei que deixava lá alguns livros e que só nós dois sabíamos que existia. Foi a primeira pessoa a confiar-me um segredo.  E lembro-me de subir os pinheiros comigo às cavalitas e de estarmos os dois lá em cima onde breve me aborrecia porque ele ensimesmava na leitura e não respondia às perguntas que me nasciam, e tinha vontade de xixi, e queria descer.  E meu tio, ó miga tu és muito chata, assim não te posso trazer ao nosso esconderijo. E quando voltávamos, eu, imperturbável e incisiva, defendia o nosso segredo.
E foi isto. Aquele trio de pinheiros acordou lembranças antigas, os pés fazendo caminho.

domingo, 26 de abril de 2020

Vinte Seis de Abril


Nos últimos dois meses o youtube fez-se companhia de muita gente. Nunca o usei tanto. Já me deu conversa interessante, possibilitou ver gente que me é cara, uns por este  motivo, outros por aquele. E ainda me oferece filmes. Sou um bocadinho esquisita com os filmes e ele, Youtube, ainda não acertou completamente no meu gosto. Lá chegaremos. Entretanto, há filmes que não passam dos primeiros cinco minutos; os que aguentam quase meia hora finda a qual os ponho na rua amaldiçoando o tempo perdido; outros chegam mesmo aos sessenta minutos e aí estou possessa comigo por ter perdido uma hora inteira.
Mas hoje vi um filme completo.  Cheguei ao fim, the end. Proeza. Escolhi-o pelo título, “O violinista que veio do mar”, e só no início reparei que tem duas actrizes de que gosto bastante, Maggie Smith e Judy Dench. É um filme fácil, tem uma personagem muita autêntica e com alguma comicidade  e é servido pela beleza bucólica da paisagem e a solidão de duas irmãs, velhas senhoras que recolhem um náufrago. É também um filme sobre a velhice e sobre a vida numa aldeia e os contrastes com a cidade.  
Estou em vias de me  reconciliar com as ofertas do Youtube.

sábado, 25 de abril de 2020

Vinte Cinco de Abril


Há 46 anos os problemas rodeavam-me, mas a juventude tudo supria. Alheia à política do regime, não esperava aquela madrugada, nem o dia inteiro e limpo tão ansiado por Sophia e vários outros. Ao invés, o dia caiu vertical sobre a minha inépcia ignorante. Completo e inteiramente novo.
A rádio que ligava desde o acordar não me contou coisa alguma, tão apostada estava em divulgar marchas militares. Na escola, menina obediente, fui sentar-me na carteira que me pertencia mas ninguém apareceu, nem colegas, nem professores. Julguei, claro, que o primeiro professor nos dera feriado e continuei a esperar pelo segundo, senhor da minha preferência, e que nunca faltava. E foi aí que me informaram, depois de bocas abertas em O, como é que inda não sabes, Ó, que tinha havido uma revolução em Lisboa. Ó.
Nos dias seguintes, só novidades: MFA, sigla a que não descortinava significado; comícios; regresso de presos políticos, que nem eu sabia que existiam; o V de vitória que toda a gente acenava como um cumprimento e não se parecia com nenhum gesto conhecido; Mário Soares e Álvaro Cunhal de braço erguido e a fazerem uns gestos de que  até duvidei por me parecerem violentos. E muito mais, uma pessoa não se torna democrata sem mais nem menos. Porque, embora seja fácil a quem não é nada passar a ser alguma coisa, tive de aprender o léxico. Aprendemos todos.
Creio que a Liberdade se me plantou na alma e foi crescendo por si, sem que eu interferisse. Não frequentei comícios, pouco me importavam os revezes da política, não me prendi especialmente a um político e menos ainda a um partido. Mas estremeço à voz do Zeca a cantar a Grândola, à figura querida de Salgueiro Maia, à alegria da multidão no Convento do Carmo e a Francisco Sousa Tavares genuinamente satisfeito com a novidade que anunciava ao megafone. Tanto, mas tanto que me deram esses homens e a massa de gente que lutou na sombra e não conheci. Não fiz a revolução, desconhecia tudo dela, ninguém me elucidara o olhar. Mas que prazer foi ensiná-la em casa e na profissão. Na verdade, profissionalmente, nada mais tentei do que passar o testemunho do seu valor fundamental: a Liberdade.
E oxalá a semente nunca se perca.


sexta-feira, 24 de abril de 2020

Vinte e quatro de Abril


No dia em que o presidente dos USA ultrapassou o meu inconcebível, juro de pés juntos, aquela cabeça só tem caca de galinha. E raro vi resposta mais adequada e consensual que a do médico que foi presidente do Conselho de Ética. Nem vou falar da emenda tão semelhante ao soneto. Não gasto mais palavras com aquele ser.
Prefiro falar do 25 de Abril. Ou seja, das comemorações. Dizer que aqueles discursos pomposos dos senhores que mandam rodeados dos que já mandaram e mais de outras figuras consideradas importantes, pouco dizem ao resto dos portugueses. Se querem comemorar - com máscara ou sem ela -, façam-no. É cerimónia deles e para eles. Ao país, e sobretudo ao povo que tanto se alegrou com o fim da ditadura, não acrescentam. São quem são.
O povo, esse, há-de estar a ouvir e acompanhar - os mais velhos com certa comoção que lhes embarga a voz - a Grândola Vila Morena, tão bem cantada por um monte de portugueses confinados. Isso é que sim. Ou pelo Zeca. Ou a lembrar Salgueiro Maia sempre tão esquecido nas andanças politiqueiras.
Veremos.


quinta-feira, 23 de abril de 2020

Vinte e três de Abril


Vou falar-te das manhãs em que saio de casa e a névoa se levanta sobre o mundo. Primeiro, o sol desfoca. Depois, de pouco em pouco, o ar materializa-se, aqui e ali vogam bocadinhos de nuvem ainda desligados.  Leves, quase transparentes.  Desloco-me sem ruído, atenta à concentração da natureza que, em minutos, junta  milhões de gotículas. Numa cerca de ovelhas, a impavidez animal retoiça alheia à exalação sagrada das gotas; um cordeiro bale sobre a finura nervosa das patas. À medida que o nevoeiro se firma, a realidade esbate contornos adoecidos lutam por subsistir, as ovelhas antes nítidas são agora novelo oblongo que dilui em novelo maior. Lá à frente, espessura de nuvem. O vapor desmaiando em gotas que se abraçam, não me aguento. Por todo o lado o fumo branco colou nas coisas e no olhar, pestanas húmidas, certa frescura molhada no rosto. Avanço, avanço sempre,  “não sou digna da tua morada...”.
Talvez o mundo não haja. Talvez sejamos apenas eu e a névoa em pertença litúrgica. Numa fissura do alcatrão, duas papoilas-bailarinas erguem-se em fina haste e o recorte da frágil saia sobrepõe. Efémeras e inodoras. Lindas, dirás tu.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Vinte e Dois de Abril


Utilidade é termo que não tem glamour, soa a uso prático, coisa sem poesia, a  recordar aspiradores, vassouras, desentupidores de canos, martelos e mais uma série de objectos, alguns barulhentos. Fazem-nos falta essas utilidades que, ainda nem bem  morreram,  já nós encontrámos substitutos. Pois eu tenho saudade a ser útil, insignificância que me caracteriza e nem distingo se inata ou adquirida. A utilidade é nome que também me pertence e não se satisfaz em campo próprio.  E hoje foi assim uma manhã de ser útil. Confeccionei um prato a contento, com direito a sobremesa e tudo. Depois, um pombo-correio fez o takeaway.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Vinte e Um de Abril


A questão dos refugiados e migrantes infectados com covid-19 amarfanha, desola e é impossível evitar certo odor de má consciência. Bem podem ministros e secretários vir dizer que “estão a ser tratados como qualquer cidadão português”, coisa que nem entendo, um sistema de saúde democrático, e mais em caso de infecção por covid, tem mesmo é que tratar todos da mesma forma. E tais declarações parecem-me preconceituosas. Desnecessárias. A obrigação dos Serviços de Saúde também é zelar pelos que trabalham no país.
Talvez a necessidade de tais afirmações venha de trás, das condições que lhes foram dadas e em que vivem por cá; da higiene que falta; do dinheiro que escasseia e obriga a poupanças indevidas; de serem invisíveis para nós e mais se unirem entre si. Talvez, digo eu, de, afinal, na saúde, não serem tratados como qualquer cidadão português.
Somos um povo muito condoído. Mas só às vezes.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Vinte de Abril


Hoje comecei a ouvir o programa de sábado, dia dezoito de Abril: “A Força das coisas” que presta  homenagem a Luís Sepúlveda. Digo comecei porque me noto vezeira em ouvir e ler tudo a prestações. Eu que lia por atacado e devorava livros, leio cada vez mais devagar e tardo a terminá-los, não tenho pressa. A última página, em  casos de preferência extrema (que quase não me acontece), até desejo que não chegue. Mas, genericamente, o fim deixou de me importar. Lamento que assim seja. Tenho saudade à sofreguidão que me possuía por ter um livro por desvendar, ao interesse com que vivia as aventuras e desventuras dos personagens, a seguir viagem a seu lado, pés doídos ou encantados do caminho e alma cheia de mundo. Desligadíssima. Já não sou essa. Mas gostaria de lá voltar. Os filmes, via-os de cabo a rabo sem pestanejar e podia sofrer uma invasão que não daria por ela. Saliento que, nas salas de cinema, um bom filme ainda me isola e sou eu, um eu que é espírito, não pensa em pernas ou braços e nem tenho certeza se o corpo não me imigra. Portanto, é um pulsar de mim e dos actores. Pois nos filmes caseiros também é quase tudo a prestações. Conseguindo uma chama de interesse, abandono-os a um terço, vejo-os como se sejam uma série, em duas, três, quatro vezes. Mas isso nem é tão mau. Se pressinto que há por ali impasse ou que morrem as pessoas por quem torço – é que nem precisam de morrer, basta que pense nisso –, abandono. É claro que, por tais razões, há vários filmes e até séries que deixei a meio. Podem chamar-lhe mania estúpida, é mesmo uma mania estúpida. O pior nem é que não chegue a conhecer a trama por inteiro e tal. Preocupa-me é não conseguir mesmo vê-los. Sou incapaz. Aconteceu-me isto com a série de que toda a gente falava, “A casa de papel”. Tornou-se insuportável desde que me convenci que determinado garoto, já nem sei quem, ia morrer.
Bom. Mas eu vinha também contar de Luís Sepúlveda, ainda na adolescência, fechado numa biblioteca  a ler (roubou a chave, fez uma cópia e ficou lá a ler). Ele e os livros. Felicíssimo. E disso lhe ficou uma memória inesquecível.  Talvez fosse uma biblioteca bonita. Ou não. O que é seguro: tinha muitos e variados livros. Na minha infância a biblioteca era o carro itinerante da Gulbenkian que vinha mensalmente e só deixava levar seis livros. Os volumes eram todos muito usados e sobretudo havia livros de aventuras: Os cinco, Os sete, Um Guilherme que era levado da breca, Umas garotas de um colégio de Santa Clara. E alguns romances.  O senhor que conduzia e também emprestava os livros fartava-se de mim por mexer em todos os volumes e nunca mais ir embora. Todos dizíamos, a biblioteca já chegou. Ou, olha já lá está a biblioteca parada. Ou ainda, o homem da biblioteca diz que hoje só fica meia hora. Enfim, eu julgava que a biblioteca era aquele carro com prateleiras e livros. Podia ser pior.

domingo, 19 de abril de 2020

Dezanove de Abril


O domingo fez cara feia, carregou-se de vento e nuvens que adensaram. E puxa-se um agasalho, vai-se por espessura de meias, fecham-se portas à intromissão de sua excelência a corrente de ar. Agora, por entre anunciadas negridões, rompe uma claridade, um até amanhã de sol que se esconde e dissimula, à semelhança de gente que nos mira por detrás das fitas da porta, ilusão de quem vê  e não quer ser visto.
Ligaste já o dia passava do meio. Conversámos sobre nada, que o covid nos deixa sem outras notícias que ele e recusamos o tema. Mas as pessoas são deveras surpreendentes. E talvez a surpresa até tenha propiciado certa ondulação ao meu domingo. Muito senhora do teu nariz, conseguiste surpreender-me 
 - Passei a quaresma toda em penitência, não comi um bolo, uma coisa doce sequer.
Julguei ter ouvido mal, não te sabia religiosa, negaste-te a batizar os filhos, nada de catequeses, igrejas. Das pessoas que foram educadas por religiosas é as única que conheço que detesta a religião católica em bloco e chegas a ser impiedosa nas tuas afirmações, como se haja em ti irada queixa de fundo punhal. Portanto, frisei 
- Disseste penitência ou dieta?
E tu
 - Penitência.
E eu meio gaga,
- Mas então…então tu que ainda criticas a professora primária que nos pedia sacrifícios no mês de Maio…
E tu logo, prontíssima,
- Isso era outra coisa - e num ápice, como quem faz um pleno indesmentível e cala todos os ses - e olha que me custou bastante mantê-la com a quarentena. Fizemos as duas, eu e a S.
E ouvi-me
 - Parabéns!
 Incapaz de lhes retirar a estranheza (aos parabéns). Eu a lembrar o filósofo e as críticas à igreja católica, aos sacrifícios de jejum e abstinência  (que te irritam) contrapondo que são cumpridos para servir o sujeito e não a Deus, é o homem que deles retira benefício; que, no fundo, o seu intento é sempre e apenas terreno e humano.

sábado, 18 de abril de 2020

Dezoito de Abril


A paisagem mudou.  Não existe nas ruas de antes o ruído de conversas e o rodado de automóveis é tão esporádico como no tempo em que, nos intervalos de passarem, brincávamos às casinhas no meio da estrada.  Desapareceram os mil sons buliçosos no fundo das horas. Entre olhares que se cruzam assegurando distância, e o antes de descansarem parados à conversa a perguntar por isto ou aquilo, há um mundo de permeio. Sem permeio. Saíu-se de um para cair no outro. Abruptamente. Entretanto, o covid virou assunto, em tudo fermentou. Os desejos de boa saúde; os infindos vídeos que se enviam para cá e para lá; os conselhos que se partilham mil vezes porque as pessoas estão tomadas de uma loucura benévola que as faz clicar e já não sabem o que enviaram a quem; e repetem; e voltam a repetir. O que me lembra certo colega que, cansado de receber os vídeos que ele próprio tinha enviado, alertava todos os contactos “atenção, não me mandem mais de x, y, z que receberam de mim (recebi um).
 Mas, tal como o covid não elimina outras doenças que se mantêm, quiçá a matar mais, serviços de saúde alocados a sua majestade o vírus e o receio dos doentes em frequentar centros de saúde e hospitais dão o seu contributo; assim permanecem subjacentes queixas de amores não correspondidos, desgostos entre correspondências amorosas com canais entupidos, perseverança nos impossíveis. Não se foge à vida. Mesmo confinadas, as crianças continuam a fazer birras, brincar, sorrir e protestar; os velhos acomodam-se cada vez mais ao sofá e à tv; e o resto da população activa vai fazendo pela vida dentro do casulo. Uns trabalham, outros retomam hobbies abandonados, viajam pela net, livros, filmes e séries. Nunca houve tanta gaveta arrumada, tanta organização no roupeiro. O ponto é que a ordem talvez não seja meta humana, não esta ordem anti natural e sufocante.
Pensava eu com vagar em tudo isto, soa o telefone. Não reconheço a voz. Identificas-te. À minha alegria surpresa respondes, fibroma pulmonar, doença difícil, poucos anos de vida. E ao meu quase silêncio afirmas-te mais confinado que os outros, preparas a reclusão final; dizes com sorrisos na voz que agora não tens dores, usas pouco o oxigénio, te passeias dentro de casa e ajudas nas tarefas domésticas.
E eu que antes pensava…

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Dezassete de Abril


Era uma vez a Feira do Livro de todos os anos. Na tarde de sol e nuvens, os jacarandás espreitavam o movimento, encanto de braços dançarinos segurando pinceladas violeta, nuvens lilás em desmaio etéreo num chão de procissão. Pés contritos faziam-se leves, enquanto uma ou outra flor presa na mochila, escondida no saco de livros, emoldurada em nicho de cabelos. E, numa vibração, o cheiro bom da primavera.
Eu tinha visto o nome e a localização dos autores que estavam na Feira. E Luís Sepúlveda estava. Gostava dele. Tinha lido dois livros. Levei o mais leve. Fiquei na fila a olhá-lo. Parecia-se com qualquer pessoa, foi simpático, sorriu. Além do nome, perguntou-me o que fazia e depois sorriu melhor. Gostei de estar ali, senti-o próximo e bem humorado. Deu-me o autógrafo pedido. Atrás de mim, uma colega  embeveceu com o autógrafo que lhe coube. Mesmo ao lado da assinatura, o desenho de um gatinho.  Era uma colega nova, bonita e, orgulhosa de si mesma, mostrou a todos a dedicatória especial, única.  Olhei a minha, mostrei-a a quem estava mais próximo e, em pensamento, maldisse a minha figura sem arrojo, bolas, sou menos acentuada, que chatice; mas bem me podia ter esboçado assim um gatinho, tanto que eu gostava. Adequava com o livro, “História de Uma gaivota e do gato que a ensinou a voar”. Fiquei, pois, com um desgosto pequenino que passou rápido. E quando um colega, por que não vais lá, pedes-lhe também  um gato e arrumas o assunto, eu desliguei. Ia lá agora uma segunda vez, é que nem pensar.
Guardei o livro numa estante. Entretanto, descobri que um dos meus filhos tinha livro igual. Quando me pediram livros infanto -juvenis para S. Tomé encontrei um exemplar e enviei-o. Tinha um autografado e para o meu infante aquele já não tinha utilidade.
Só que me enganei. Enviei o meu exemplar. Felizmente, a pessoa que ia levá-lo para tão longe, ao ver o autógrafo retirou-o e devolveu-mo. E, maravilha das maravilhas, não é que abro a página do autógrafo e a primeira coisa que vejo é o gato?! Ali, em ponto grande, a envolver dedicatória e assinatura.
Querido, querido Luís Sepúlveda! 

Dezasseis de Abril


Por vezes, acordo antes das rolas arrulhando nas alturas do arvoredo. Acordo antes de, em bicos de pés, a mansa claridade abotoar  o vestido da noite. Desperto e ainda ela se desmantela sobre o mundo, jaz inerte em inocências de sono inquebrável, tão rente a todas as coisas como puzzle desmanchado sobre a mesa. E aí, meu amor, nessa hora sem lugar, sou a alma do universo, a medida onde cabes, a exacta certeza de dizer-te com palavras que não há.