Chegou
a minha segunda prenda, outro livro. Que
encontrou poiso sobre o primeiro. Seguro e incógnito. Vem de uma amiga quase barricada
em casa desde Março, pergunto-me como aguenta. Mas o livre arbítrio de cada um
faz os arrojados e os temerosos. E em questão de liberdades individuais, não colocando
terceiros em perigo, ordena o discernimento de cada um. Talvez ela peque por
excesso e eu por defeito.
Li
sobre a importância das pequenas coisas, das rotinas que cumprimos com prazer
por prazer serem. Dos pormenores que preenchem os espaços da vida e não
importam a ninguém senão a nós, nos instantes em que importam: o quadradinho
luminoso onde nos aquecemos ao sol de inverno, os desenhos trémulos que a luz
solar faz e desfaz se um ventinho agita as folhas da árvore, a voz de alguém a dar-nos
pertença, leituras que agradam e deixam a sensação de que o autor as escreveu
para nós, o que nunca é verdade, mas também não é mentira.
Ouvi
numa entrevista à autora do livro O infinito num Junco que as bibliotecas
antigas eram lugares sem o silêncio que hoje as caracteriza. E isto porque, não
existindo ainda a pontuação, havia a necessidade de ler em voz alta para capturar
o sentido do que se lia. Imaginei aqueles homens a ler em laboriosos e
incipientes livros manuscritos que deviam ser raros e diferentes dos práticos
livros que carregamos para onde queremos, que dobramos e a que marcamos
páginas, onde sublinhamos e escrevemos anotações. Que, enfim, banalizámos. Os
antigos liam pouco e poucos eram os que liam. Faltava-lhes a fluidez que nos
caracteriza, liam provavelmente a silabar e a repetir uma e outra vez até
fazerem visível o que já lá estava e antes era oculto. Nesse tempo, não existiria
a noção de leitura silenciosa. Assolou-me a gratidão de ter vindo ao mundo no século XX quando a
escrita tem forma límpida e universal. Mas quanto se fez antes de nós para
guardar a perecibilidade do mundo. Na sofreguidão dos dias, tragados pela
voragem, pouco nos lembramos que a escrita é a guardiã da memória.
Votos de Santo Natal
ResponderEliminarObrigada, Pedro. Há vida depois do Natal:)
EliminarEu ouVi (foi na tv) uma entrevista dessa escritora com a Teresa Nicolau e fiquei com uma vontade enorme de comprar esse livro. Que entusiasmo o dela a falar de livros e de tudo o que com eles está relacionado, ou seja, tudo!
ResponderEliminarE sim, bea, um (bom) escritor escreve sempre para cada um dos seus leitores, embora não consiga tocar todos de igual modo.
Não me diga que só vai abrir as prendinhas no dia de Natal; eu jamé aguentaria tal suspense...
E o meu afilhado, como vai?
Vou-lhe contar um segredo: quando eu tinha um gato, no aniversário da minha mãe e no Natal, comprava sempre dois presentes e dois postais, e logo de manhã cedo íamos os dois ter com ela à cama (eu com ele ao colo) e ela ria-se muito com os dois postais e chamava-me tonta, mas eu sei que ela gostava. Tudo isto depois de o meu pai morrer, fez agora um destes dias vinte anos.
Hoje amanheceu frio ☃️
Abraço e abracinho para a bea e para o gatinho.
👩🎓🐈
Obrigada Maria. Também pela confidência:). Pois o seu afilhado está a mudar a cor dos olhos. Com pena minha estão a ficar verdes. Mas é um verde bonitinho. Continua meigo e comilão desalmado e é o bebé de toda a casa embora já nada se pareça com um gatinho.
EliminarQuanto à escritora que é filóloga e tem muita arte com as palavras, é um encanto ouvi-la discorrer sobre a história do livro. Parece um peixinho na água. Não me recordo se a ouvi nA ronda da noite se nA força das coisas.
Pode vê-la na rtp play, no programa horas extraordinárias, estão lá os programas todos e são sempre interessantes, sobre livros, expos, concertos, filmes, etc.: aquelas coisas de que ambas gostamos :-)
EliminarE ela tem um ar tão juvenil e entusiasmante, dá mesmo gosto ouVê-la.
Ora bolas, lá se vai o nome que a madrinha lhe deu... bem lá teremos que mudar para Green Eyes ou voltar ao Gato ��
Deixarei de ser madrinha e passarei a ser tia :-(
Tarde feliz, bea.
☃️
hummm...as minhas sextas feiras são, em geral, coisa que não se recomenda. Mas já passou e cheguei à parte que gosto.
Eliminarhei-de ouver esse programa. A rtp play tem-me surpreendido pela positiva.
Bea, quando fala sobre a importância das pequenas coisas, das rotinas que cumprimos com prazer por prazer serem, lembra-me da conta que nos tem dado do seu dia a dia, dos seus passeios matinais, dos seus encontros com a Violeta, não deixando escapar as diferenças de pormenor, os factos miúdos, mesmo quando parecem insignificantes.
ResponderEliminarMesmo não ocorrendo nada do que geralmente se chama um acontecimento. E assim, vem-me à tona também, nos meus passos pelas redondezas, uma certa tarde em que uns garotos estavam a atirar pedrinhas a uma erva daninha que subia teimosamente pela fissura de um muro.
Nesse momento detive-me, não sei o que me passou pela cabeça mas decidi alinhar. Apanhei uma pedrinha do chão e fiz pontaria.
- Posso experimentar?
- Não, ela não cai, queremos é acertar na lagartixa.
Sorri-lhes, deixei cair a pedra e fui-me embora.
oh! Coitadinha da lagartixa, Joaquim. Talvez os únicos animaizitos que se arrastam e não me causam repelência.
ResponderEliminarA Bea consegue transformar por palavras, o pormenor rotineiro mais banal em poesia.
ResponderEliminarSoa-me tão bem.
Bom fim-de-semana
Hummm...parece-me que a Magui é que é uma bem disposta com lentes cor de rosa:)
ResponderEliminarBom fim-de-semana
Bea... a leitura está a sair da minha rotina e está a fazer falta à minha mente!
ResponderEliminarA neta é a poesia para o meu coração e viro poetisa de histórias que invento para ela!
Mais um belo momento de leitura! Bj
Bom, Gracinha, este é o momento da poesia:), viva-o. Para a leitura ainda há tempo, vai ver. "O infinito num junco" parece-me obra com algum interesse, é sobre a história do livro. Mas também não li.
EliminarUm beijinho à avó e à neta
Bea, já aqui disse que gosto muito das conversas que tem com o Joaquim, mas, hoje, ele que me desculpe, tive de rir. Então ele queria acertar numa erva daninha, com uma pedra? Ri muito e também digo " coitadinha da lagartixa, Joaquim".
ResponderEliminarBom Natal desejo aos dois, com SAÚDE, principalmente. Boa noite
Beijinhos 🎄
Cada um com as suas armas, Emília:).
ResponderEliminarFoi um prazer tê-la por aqui. Bom Natal.
Desta vez apenas sugiro um livro: "Uma história da leitura", de Alberto Manguel.
ResponderEliminarOu já por aí anda? O livro, claro!
Beijo, bom domingo.
Lá está, tenho pena de já não ter tempo para ler como antigamente... Mas se há coisa que adoro, é ler. Tira-me da realidade. Vivo os livros como sendo eu a personagem principal.
ResponderEliminarBeijocas
"o infinito num junco" Só o título me faz feliz. Vou ver se o encontro.
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