quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

A Roupa do Dia

 

Chegou a minha segunda prenda,  outro livro. Que encontrou poiso sobre o primeiro. Seguro e incógnito. Vem de uma amiga quase barricada em casa desde Março, pergunto-me como aguenta. Mas o livre arbítrio de cada um faz os arrojados e os temerosos. E em questão de liberdades individuais, não colocando terceiros em perigo, ordena o discernimento de cada um. Talvez ela peque por excesso e eu por defeito.

Li sobre a importância das pequenas coisas, das rotinas que cumprimos com prazer por prazer serem. Dos pormenores que preenchem os espaços da vida e não importam a ninguém senão a nós, nos instantes em que importam: o quadradinho luminoso onde nos aquecemos ao sol de inverno, os desenhos trémulos que a luz solar faz e desfaz se um ventinho agita as folhas da árvore, a voz de alguém a dar-nos pertença, leituras que agradam e deixam a sensação de que o autor as escreveu para nós, o que nunca é verdade, mas também não é mentira.

Ouvi numa entrevista à autora do livro O infinito num Junco que as bibliotecas antigas eram lugares sem o silêncio que hoje as caracteriza. E isto porque, não existindo ainda a pontuação, havia a necessidade de ler em voz alta para capturar o sentido do que se lia. Imaginei aqueles homens a ler em laboriosos e incipientes livros manuscritos que deviam ser raros e diferentes dos práticos livros que carregamos para onde queremos, que dobramos e a que marcamos páginas, onde sublinhamos e escrevemos anotações. Que, enfim, banalizámos. Os antigos liam pouco e poucos eram os que liam. Faltava-lhes a fluidez que nos caracteriza, liam provavelmente a silabar e a repetir uma e outra vez até fazerem visível o que já lá estava e antes era oculto. Nesse tempo, não existiria a noção de leitura silenciosa. Assolou-me a gratidão  de ter vindo ao mundo no século XX quando a escrita tem forma límpida e universal. Mas quanto se fez antes de nós para guardar a perecibilidade do mundo. Na sofreguidão dos dias, tragados pela voragem, pouco nos lembramos que a escrita é a guardiã da memória.   

 

17 comentários:

  1. Eu ouVi (foi na tv) uma entrevista dessa escritora com a Teresa Nicolau e fiquei com uma vontade enorme de comprar esse livro. Que entusiasmo o dela a falar de livros e de tudo o que com eles está relacionado, ou seja, tudo!
    E sim, bea, um (bom) escritor escreve sempre para cada um dos seus leitores, embora não consiga tocar todos de igual modo.
    Não me diga que só vai abrir as prendinhas no dia de Natal; eu jamé aguentaria tal suspense...

    E o meu afilhado, como vai?
    Vou-lhe contar um segredo: quando eu tinha um gato, no aniversário da minha mãe e no Natal, comprava sempre dois presentes e dois postais, e logo de manhã cedo íamos os dois ter com ela à cama (eu com ele ao colo) e ela ria-se muito com os dois postais e chamava-me tonta, mas eu sei que ela gostava. Tudo isto depois de o meu pai morrer, fez agora um destes dias vinte anos.
    Hoje amanheceu frio ☃️

    Abraço e abracinho para a bea e para o gatinho.
    👩‍🎓🐈

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    1. Obrigada Maria. Também pela confidência:). Pois o seu afilhado está a mudar a cor dos olhos. Com pena minha estão a ficar verdes. Mas é um verde bonitinho. Continua meigo e comilão desalmado e é o bebé de toda a casa embora já nada se pareça com um gatinho.
      Quanto à escritora que é filóloga e tem muita arte com as palavras, é um encanto ouvi-la discorrer sobre a história do livro. Parece um peixinho na água. Não me recordo se a ouvi nA ronda da noite se nA força das coisas.

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    2. Pode vê-la na rtp play, no programa horas extraordinárias, estão lá os programas todos e são sempre interessantes, sobre livros, expos, concertos, filmes, etc.: aquelas coisas de que ambas gostamos :-)
      E ela tem um ar tão juvenil e entusiasmante, dá mesmo gosto ouVê-la.

      Ora bolas, lá se vai o nome que a madrinha lhe deu... bem lá teremos que mudar para Green Eyes ou voltar ao Gato ��
      Deixarei de ser madrinha e passarei a ser tia :-(

      Tarde feliz, bea.
      ☃️

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    3. hummm...as minhas sextas feiras são, em geral, coisa que não se recomenda. Mas já passou e cheguei à parte que gosto.
      hei-de ouver esse programa. A rtp play tem-me surpreendido pela positiva.

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  2. Bea, quando fala sobre a importância das pequenas coisas, das rotinas que cumprimos com prazer por prazer serem, lembra-me da conta que nos tem dado do seu dia a dia, dos seus passeios matinais, dos seus encontros com a Violeta, não deixando escapar as diferenças de pormenor, os factos miúdos, mesmo quando parecem insignificantes.
    Mesmo não ocorrendo nada do que geralmente se chama um acontecimento. E assim, vem-me à tona também, nos meus passos pelas redondezas, uma certa tarde em que uns garotos estavam a atirar pedrinhas a uma erva daninha que subia teimosamente pela fissura de um muro.
    Nesse momento detive-me, não sei o que me passou pela cabeça mas decidi alinhar. Apanhei uma pedrinha do chão e fiz pontaria.
    - Posso experimentar?
    - Não, ela não cai, queremos é acertar na lagartixa.
    Sorri-lhes, deixei cair a pedra e fui-me embora.

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  3. oh! Coitadinha da lagartixa, Joaquim. Talvez os únicos animaizitos que se arrastam e não me causam repelência.

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  4. A Bea consegue transformar por palavras, o pormenor rotineiro mais banal em poesia.
    Soa-me tão bem.
    Bom fim-de-semana

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  5. Hummm...parece-me que a Magui é que é uma bem disposta com lentes cor de rosa:)
    Bom fim-de-semana

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  6. Bea... a leitura está a sair da minha rotina e está a fazer falta à minha mente!
    A neta é a poesia para o meu coração e viro poetisa de histórias que invento para ela!
    Mais um belo momento de leitura! Bj

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    1. Bom, Gracinha, este é o momento da poesia:), viva-o. Para a leitura ainda há tempo, vai ver. "O infinito num junco" parece-me obra com algum interesse, é sobre a história do livro. Mas também não li.
      Um beijinho à avó e à neta

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  7. Bea, já aqui disse que gosto muito das conversas que tem com o Joaquim, mas, hoje, ele que me desculpe, tive de rir. Então ele queria acertar numa erva daninha, com uma pedra? Ri muito e também digo " coitadinha da lagartixa, Joaquim".
    Bom Natal desejo aos dois, com SAÚDE, principalmente. Boa noite
    Beijinhos 🎄

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  8. Cada um com as suas armas, Emília:).
    Foi um prazer tê-la por aqui. Bom Natal.

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  9. Desta vez apenas sugiro um livro: "Uma história da leitura", de Alberto Manguel.
    Ou já por aí anda? O livro, claro!
    Beijo, bom domingo.

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  10. Lá está, tenho pena de já não ter tempo para ler como antigamente... Mas se há coisa que adoro, é ler. Tira-me da realidade. Vivo os livros como sendo eu a personagem principal.

    Beijocas

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  11. "o infinito num junco" Só o título me faz feliz. Vou ver se o encontro.

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