terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Diversos

 

Julgo sempre que a vida dos outros é que tem interesse e glamour e a sua conversa é mais agradável e chama assuntos com substância em vez das bagatelas que se me gravam na mona. Dou uma voltinha pelos blogs e confirmo, têm assuntos  que me não lembram ou não sei, quotidianos que não me acontecem, muito mais habilidade que eu, partem do pormenor e criam um texto todo em ponto pé de flor, delicadeza que, repito, não me bate. Saio da net com a sensação um bocadinho invejosa de que gostava de ser esta ou aquela pessoa, cuja nem faço ideia quem seja, mas me parece de mente muito mais aberta e esclarecida que je, moi même. Mas cada um é ele e não outro. Portanto, olhem, passando por aqui, terão o remedeio da minha vida rasa, um ou outro grão de arroz a altear o quotidiano. É o que sei.

Ontem fui fazer um exame médico. E, claro, ir ao médico nesta altura de recolhimento sabe-me a passeio, coisa próxima de um extraordinário. Pois o meu grão de arroz aconteceu quando, depois de me desfardar e enfiar aquela bata amorfa que é mais ou menos um saco com três aberturas, a senhora enfermeira a sorrir, esta senhora vem a rigor. Ora eu, meus deuses, que roupa tinha. Terei feito um ar assim atoleimado porque completou, calçou meias de Natal. E foi aí que acordei para as meias  com flores e pinheiros de Natal. Achei muito próprio.

Pois hoje fui matar saudades da Violeta e da Lili que já não via há oito dias. E ficámos uns minutos a abraçar-nos como sabemos, elas a subirem por mim acima com o pêlo todo húmido e os olhos lacrimosos engastados num monte de lã cheia de falrripas a pedir tesoura  e decerto a entortarem-lhes a vista. E eu ajoelhada na beira da estrada a fazer-lhes festas e a desviar as melenas. O senhor Zé, encostado a um pau, sorria com ar bonacheirão sempre que a Violeta se atravessava na frente da Lili para que me não chegasse. É uma ciumenta, a Violeta. E dizia o velhote, uma semana ham…uma semana…e eu a mentir, tive umas coisas para fazer. Eu que não entendo porque sou às vezes tão estúpida e me nego estes pequenos prazeres matinais. Terei alguma costela masoquista. Há muito ano, li numa revista que Jane Fonda, quando a idade a começou a alargar um bocadinho,  para afinar de novo a cintura tirou as costelas flutuantes (cada vez que me lembro que tenho costelas flutuantes fico satisfeita da vida); cá por mim tirava a(s) costela(s) masoquista(s) e já está, nem era preciso pôr cinto para verificar, ficava logo, digamos, mais operacional. E hoje, só hoje, chegou o ar do Natal. Era um friozinho fino a infiltrar e dizia-me o senhor que passeia um cão que também já me conhece, arrefeceu. E eu que fico contente se há frio e estou agasalhada, apressei-me a acrescentar, e vai piorar. Isto, com o ar satisfeito de quem pensa, agora é que vai ser bom.

E já vai sendo tempo de deixar aqui o meu desejo sincero de Bom Natal para todos.

14 comentários:

  1. Gosto da sua vida rasa, que tão bem transpõe aqui.
    Feliz Natal Bea.

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    1. Obrigada Magui, foi prazeiroso "conhecê-la" em 2020. Nem tudo é mau e assim assim.
      Bom Natal

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  2. Ah!Ah!Ah!
    Pois eu acho que a sua vida rasa é muito mais interessante e bem escrita, que a maior parte do palavreado de muitos blogues!

    E também acho que a Bea sabe isso...mas, modestamente, está-se a ajeitar para receber uns elogiozitos à sua prosa! É ou não é?

    Beijinhos e umas Boas Festas:))

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  3. Não é não Isabel. Penso n vezes em não publicar os posts e alguns apago-os mesmo e não chegam a ser. Gosto de ter companhia por aqui, mas não sei se os elogios me deixam muito à vontade. A minha geração não foi habituada a isso, soa sempre a qualquer coisa de estranho e que não entranha.

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  4. Permita discordar Bea, nem rasa nem altaneira, cada um pinta o mundo à sua maneira e a blogosfera é democrática, aceita tudo e depois cada um escolhe o que quer visitar.
    Quanto à forma não vou acrescentar nada, não a quero inquietar, quanto à substância, é uma erva terapêutica que me faz bem, ela mostra como as coisas simples nos fazem sorrir: o dia a nascer, a água a correr nos regatos, o pão ainda a cozer.
    Hoje já poucos param a ver a vida acontecer, mas ainda há quem repare no luar.

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  5. :). É verdade, Joaquim, ainda vai havendo quem olhe as estrelas e seja rei mago sem encomenda.
    Bom, está visto que escolhi o nome com a intenção da terapia, que fazer o gosto ao dedo é isso mesmo. Se de caminho servir a alguém, melhor. Se não, serve-me a mim e já não cai no chão a serventia.
    Bom Natal, Joaquim. Volte sempre.
    Um abraço

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  6. Bia, realmente o Natal chegou aqui frio, colorido e deliciosamente hilariante. Adorei ler!
    Agora, quero desejar-lhe um Natal abençoado e um 2021 cheio de amor, flores, palavras escritas, meias coloridas, abraços de pêlo húmido e... MUITA saúde.
    Grata por seres assim "rasa", inteligente e constante na amizade.
    Beijo, Boas Festas.

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  7. Obrigada, Teresa.
    Um abracinho de Natal.

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  8. Às vezes penso o mesmo, que todos têm uma vida mais interessante e é tudo prendado e tudo mais... mas enfim, cada um é como cada qual.

    Beijocas Feliz Natal para todos

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  9. A vida comum é linda e terna. Os grandes feitos são quimeras que nos impingem, quantas vezes falsas. Livros, passeios com cães simpáticos, gente normal. É isso que faz o "especial". Um abraço - depois de Natal - que quer dizer como se dizia no meu tempo, a brincar com a língua "aussi bien que je te trouve!

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    1. Um abracinho de Natal também para si, bettips. E que a gente se vá encontrando por aqui, sinal de que estamos vivas.

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  10. A bea escreve essa vida rasa com arte de sobra para a tornar interessante para os seus leitores. :)

    Um Feliz Natal!

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  11. É no fim do dia mas ainda assim, Luísa, desejo que o espírito de Natal tenha comparecido em sua casa.
    Um beijinho

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