Julgo
sempre que a vida dos outros é que tem interesse e glamour e a sua conversa é mais
agradável e chama assuntos com substância em vez das bagatelas que se me gravam
na mona. Dou uma voltinha pelos blogs e confirmo, têm assuntos que me não lembram ou não sei, quotidianos que
não me acontecem, muito mais habilidade que eu, partem do pormenor e criam um
texto todo em ponto pé de flor, delicadeza que, repito, não me bate. Saio da
net com a sensação um bocadinho invejosa de que gostava de ser esta ou aquela
pessoa, cuja nem faço ideia quem seja, mas me parece de mente muito mais aberta
e esclarecida que je, moi même. Mas cada um é ele e não outro. Portanto, olhem,
passando por aqui, terão o remedeio da minha vida rasa, um ou outro grão de
arroz a altear o quotidiano. É o que sei.
Ontem
fui fazer um exame médico. E, claro, ir ao médico nesta altura de recolhimento sabe-me
a passeio, coisa próxima de um extraordinário. Pois o meu grão de arroz
aconteceu quando, depois de me desfardar e enfiar aquela bata amorfa que é mais
ou menos um saco com três aberturas, a senhora enfermeira a sorrir, esta
senhora vem a rigor. Ora eu, meus deuses, que roupa tinha. Terei feito um ar
assim atoleimado porque completou, calçou meias de Natal. E foi aí que acordei para
as meias com flores e pinheiros de Natal.
Achei muito próprio.
Pois
hoje fui matar saudades da Violeta e da Lili que já não via há oito dias. E
ficámos uns minutos a abraçar-nos como sabemos, elas a subirem por mim acima com
o pêlo todo húmido e os olhos lacrimosos engastados num monte de lã cheia de
falrripas a pedir tesoura e decerto a
entortarem-lhes a vista. E eu ajoelhada na beira da estrada a fazer-lhes festas
e a desviar as melenas. O senhor Zé, encostado a um pau, sorria com ar
bonacheirão sempre que a Violeta se atravessava na frente da Lili para que me
não chegasse. É uma ciumenta, a Violeta. E dizia o velhote, uma semana ham…uma
semana…e eu a mentir, tive umas coisas para fazer. Eu que não entendo porque
sou às vezes tão estúpida e me nego estes pequenos prazeres matinais. Terei
alguma costela masoquista. Há muito ano, li numa revista que Jane Fonda, quando
a idade a começou a alargar um bocadinho, para afinar de novo a cintura tirou as
costelas flutuantes (cada vez que me lembro que tenho costelas flutuantes fico
satisfeita da vida); cá por mim tirava a(s) costela(s) masoquista(s) e já está,
nem era preciso pôr cinto para verificar, ficava logo, digamos, mais
operacional. E hoje, só hoje, chegou o ar do Natal. Era um friozinho fino a
infiltrar e dizia-me o senhor que passeia um cão que também já me conhece,
arrefeceu. E eu que fico contente se há frio e estou agasalhada, apressei-me a
acrescentar, e vai piorar. Isto, com o ar satisfeito de quem pensa, agora é que
vai ser bom.
E já vai sendo tempo de deixar aqui o meu desejo sincero de Bom Natal para todos.
Gosto da sua vida rasa, que tão bem transpõe aqui.
ResponderEliminarFeliz Natal Bea.
Obrigada Magui, foi prazeiroso "conhecê-la" em 2020. Nem tudo é mau e assim assim.
EliminarBom Natal
Ah!Ah!Ah!
ResponderEliminarPois eu acho que a sua vida rasa é muito mais interessante e bem escrita, que a maior parte do palavreado de muitos blogues!
E também acho que a Bea sabe isso...mas, modestamente, está-se a ajeitar para receber uns elogiozitos à sua prosa! É ou não é?
Beijinhos e umas Boas Festas:))
Não é não Isabel. Penso n vezes em não publicar os posts e alguns apago-os mesmo e não chegam a ser. Gosto de ter companhia por aqui, mas não sei se os elogios me deixam muito à vontade. A minha geração não foi habituada a isso, soa sempre a qualquer coisa de estranho e que não entranha.
ResponderEliminarPermita discordar Bea, nem rasa nem altaneira, cada um pinta o mundo à sua maneira e a blogosfera é democrática, aceita tudo e depois cada um escolhe o que quer visitar.
ResponderEliminarQuanto à forma não vou acrescentar nada, não a quero inquietar, quanto à substância, é uma erva terapêutica que me faz bem, ela mostra como as coisas simples nos fazem sorrir: o dia a nascer, a água a correr nos regatos, o pão ainda a cozer.
Hoje já poucos param a ver a vida acontecer, mas ainda há quem repare no luar.
:). É verdade, Joaquim, ainda vai havendo quem olhe as estrelas e seja rei mago sem encomenda.
ResponderEliminarBom, está visto que escolhi o nome com a intenção da terapia, que fazer o gosto ao dedo é isso mesmo. Se de caminho servir a alguém, melhor. Se não, serve-me a mim e já não cai no chão a serventia.
Bom Natal, Joaquim. Volte sempre.
Um abraço
Bia, realmente o Natal chegou aqui frio, colorido e deliciosamente hilariante. Adorei ler!
ResponderEliminarAgora, quero desejar-lhe um Natal abençoado e um 2021 cheio de amor, flores, palavras escritas, meias coloridas, abraços de pêlo húmido e... MUITA saúde.
Grata por seres assim "rasa", inteligente e constante na amizade.
Beijo, Boas Festas.
Obrigada, Teresa.
ResponderEliminarUm abracinho de Natal.
Às vezes penso o mesmo, que todos têm uma vida mais interessante e é tudo prendado e tudo mais... mas enfim, cada um é como cada qual.
ResponderEliminarBeijocas Feliz Natal para todos
Bom Natal para si também Cláudia.
EliminarA vida comum é linda e terna. Os grandes feitos são quimeras que nos impingem, quantas vezes falsas. Livros, passeios com cães simpáticos, gente normal. É isso que faz o "especial". Um abraço - depois de Natal - que quer dizer como se dizia no meu tempo, a brincar com a língua "aussi bien que je te trouve!
ResponderEliminarUm abracinho de Natal também para si, bettips. E que a gente se vá encontrando por aqui, sinal de que estamos vivas.
EliminarA bea escreve essa vida rasa com arte de sobra para a tornar interessante para os seus leitores. :)
ResponderEliminarUm Feliz Natal!
É no fim do dia mas ainda assim, Luísa, desejo que o espírito de Natal tenha comparecido em sua casa.
ResponderEliminarUm beijinho