Para
visitar as capelas saímos do mosteiro fazendo o percurso pelo exterior. Suponho
que seja pormenor transitório, mas emana daí certo ar de diferença e
importância. Vindos da magnificência, reconhecemos no espaço a traça comum, trabalhos de Huguet que as
iniciou e concebeu no reinado de D. Duarte e também de outros sucessivos
mestres em reinados diferentes (D. Manuel e D. João III). E, ainda que sem a
abóbada, Capelas e Mosteiro dão-nos lições. Meu avô, compreensivo da alma humana, vai assentindo
com a cabeça à medida que contempla as sete câmaras funerárias. Na pedra das capelas os sinais da continuidade dos trabalhos, a necessidade de
avançar com o sonho e a promessa de reis anteriores. Ali aparece desvelada a
inteligência dos planos a longo prazo, o avanço paciente e conhecedor, obra tão
avantajada integra a mais que plausível possibilidade de incompletude. E ainda
assim, perseverar no bordado de pedra que reveste o interior e o exterior do
mosteiro, na maravilha vidrada dos vitrais, ocupação de Afonso V e onde minha
mãe se perde, reparem, até aqui os há. E tu naquela ternura que eu conheço de
te despedires sem dizer que partes, só os teus regressados olhos de tristeza, a
mão que se vai fazendo leve na minha até ser nada. E alguma coisa te demora os
passos mas eu aprendi os irremediáveis da vida e penso no coração das pedras. De
quantos dias e anos somados precisou a pedra para ser arte, quantos homens
morreram para que tal maravilha nos desvaneça, e quantas mulheres alimentaram fogo
e bocas com o suor que os homens ali deixaram. Como a beleza criada pelo homem pode
ser esforçada. Custosa.
Mas
as capelas, mau grado a mistura de elementos arquitectónicos e artísticos e o
desejo de conclusão de três monarcas, continuam a céu aberto, sofrendo estios e
invernias. Inconclusas, não são o mais belo do mosteiro, mas há naquele
octógono uma espécie de retiro espiritual que não encontramos na Capela do Fundador.
As Capelas Imperfeitas têm mística e o panteão do fundador é antes poderoso e
centrípto. D. Duarte, esse rei invulgar que
reinou apenas cinco anos (morreu de peste), legou à posteridade a beleza e
sensatez de um espírito douto e sábio e
a proposta de confraternização dos mortos que se lê na forma geométrica das Capelas:
o rei sonhou-as morada familiar, viradas umas às outras. Dizem-no o rei
filósofo mas terá sido apenas mais humano que a comum realeza: dedicou O Leal
Conselheiro a sua mulher D. Leonor e nos escritos que restam consta que sofreu
depressão (não talvez nestes termos). A História e os homens sepultaram-no onde
desejava, mas não lhe deram morada condizente ao valor. Talvez os homens não
valorizem reis-escritores e bem pensantes, talvez os letrados verdadeiros, os
justos, sejam desde sempre menosprezados e só o reino dos céus lhes pertença. A
D. Duarte, aqui na Batalha, Mosteiro de Santa Maria da Vitória, ainda lhe é
dado o céu.
Capelas
Imperfeitas. Como nós. Inacabados. Abertos aos elementos e apenas projectados à
completude. Sozinhos. À parte do faustoso ouropel dos mosteiros que nos
rodeiam. Vou por ti. Por minha mãe. Meu avô. Ninguém. É tempo da realidade. Não
me despeço, ninguém se despede de si.
Na
nave principal, a realidade sentou-se em espera, bolas, tanto demoraste. Eu, desculpem,
distraí-me.
Não admira essa distracção quando se "vive" o que ali se viveu!!! Bj Bea
ResponderEliminarUm beijinho, Gracinha. E uma boa tarde, a gozar o sol que lhe desejo e por aqui se demora.
EliminarTão bem descrito que fecho os olhos e vejo-me ali, encantada e apaixonada.
ResponderEliminarBoa continuação Bea.
Obrigada pelas suas palavras, Magui.
ResponderEliminarQue bela visita guiada, Bea! Carregada de história e de poesia. Despertaste em mim a urgêngia de revisitar o monumento para confrontar este teu olhar.
ResponderEliminarGostei muito da reflexão sobre o destino do soldado, esse herói desconhecido e involuntário que em todas as guerras é
obrigado e mandado para a frente.
Também a mim me impressiona sempre a beleza e o silêncio dos claustros tão convidativos à contemplação. Um abraço e obrigada por tão boa literatura:
Olá prosa. É muita bondade tua. Mas vai lá, sim. O mosteiro bem merece o nosso olhar. E hás-de ver outras coisas que a mim me escaparam.
ResponderEliminarBoa noite:)
Curioso Bea... ou talvez não. O que diz sobre o nosso D.Duarte, o nosso rei-filósofo, o eloquente, também é o que sinto, sempre senti.
ResponderEliminarGostei dos seus diálogos interiores, que o silêncio e o pasmo da monumentalidade - ou será delírio - proporcionam.
E, esta sua necessidade de escrita, porém uma escrita sossegada, não febril, mas talvez interiormente urgente, sempre constante, regularmente constante, faz-me bem, faz-nos bem.
Bem-haja.
Tão querido, Joaquim:). Obrigada.
ResponderEliminarBoa noite.