quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Na Batalha

 

Para visitar as capelas saímos do mosteiro fazendo o percurso pelo exterior. Suponho que seja pormenor transitório, mas emana daí certo ar de diferença e importância. Vindos da magnificência, reconhecemos no espaço a  traça comum, trabalhos de Huguet que as iniciou e concebeu no reinado de D. Duarte e também de outros sucessivos mestres em reinados diferentes (D. Manuel e D. João III). E, ainda que sem a abóbada, Capelas e Mosteiro dão-nos lições.  Meu avô, compreensivo da alma humana, vai assentindo com a cabeça à medida que contempla as sete câmaras funerárias. Na pedra das  capelas os sinais da  continuidade dos trabalhos, a necessidade de avançar com o sonho e a promessa de reis anteriores. Ali aparece desvelada a inteligência dos planos a longo prazo, o avanço paciente e conhecedor, obra tão avantajada integra a mais que plausível possibilidade de incompletude. E ainda assim, perseverar no bordado de pedra que reveste o interior e o exterior do mosteiro, na maravilha vidrada dos vitrais, ocupação de Afonso V e onde minha mãe se perde, reparem, até aqui os há. E tu naquela ternura que eu conheço de te despedires sem dizer que partes, só os teus regressados olhos de tristeza, a mão que se vai fazendo leve na minha até ser nada. E alguma coisa te demora os passos mas eu aprendi os irremediáveis da vida e penso no coração das pedras. De quantos dias e anos somados precisou a pedra para ser arte, quantos homens morreram para que tal maravilha nos desvaneça, e quantas mulheres alimentaram fogo e bocas com o suor que os homens ali deixaram. Como a beleza criada pelo homem pode ser esforçada. Custosa.

Mas as capelas, mau grado a mistura de elementos arquitectónicos e artísticos e o desejo de conclusão de três monarcas, continuam a céu aberto, sofrendo estios e invernias. Inconclusas, não são o mais belo do mosteiro, mas há naquele octógono uma espécie de retiro espiritual que não encontramos na Capela do Fundador. As Capelas Imperfeitas têm mística e o panteão do fundador é antes poderoso e centrípto.  D. Duarte, esse rei invulgar que reinou apenas cinco anos (morreu de peste), legou à posteridade a beleza e sensatez de  um espírito douto e sábio e a proposta de confraternização dos mortos que se lê na forma geométrica das Capelas: o rei sonhou-as morada familiar, viradas umas às outras. Dizem-no o rei filósofo mas terá sido apenas mais humano que a comum realeza: dedicou O Leal Conselheiro a sua mulher D. Leonor e nos escritos que restam consta que sofreu depressão (não talvez nestes termos). A História e os homens sepultaram-no onde desejava, mas não lhe deram morada condizente ao valor. Talvez os homens não valorizem reis-escritores e bem pensantes, talvez os letrados verdadeiros, os justos, sejam desde sempre menosprezados e só o reino dos céus lhes pertença. A D. Duarte, aqui na Batalha, Mosteiro de Santa Maria da Vitória, ainda lhe é dado o céu.

Capelas Imperfeitas. Como nós. Inacabados. Abertos aos elementos e apenas projectados à completude. Sozinhos. À parte do faustoso ouropel dos mosteiros que nos rodeiam. Vou por ti. Por minha mãe. Meu avô. Ninguém. É tempo da realidade. Não me despeço, ninguém se despede de si.

Na nave principal, a realidade sentou-se em espera, bolas, tanto demoraste. Eu, desculpem, distraí-me.

 

8 comentários:

  1. Não admira essa distracção quando se "vive" o que ali se viveu!!! Bj Bea

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    1. Um beijinho, Gracinha. E uma boa tarde, a gozar o sol que lhe desejo e por aqui se demora.

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  2. Tão bem descrito que fecho os olhos e vejo-me ali, encantada e apaixonada.
    Boa continuação Bea.

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  3. Obrigada pelas suas palavras, Magui.

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  4. Que bela visita guiada, Bea! Carregada de história e de poesia. Despertaste em mim a urgêngia de revisitar o monumento para confrontar este teu olhar.
    Gostei muito da reflexão sobre o destino do soldado, esse herói desconhecido e involuntário que em todas as guerras é
    obrigado e mandado para a frente.
    Também a mim me impressiona sempre a beleza e o silêncio dos claustros tão convidativos à contemplação. Um abraço e obrigada por tão boa literatura:

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  5. Olá prosa. É muita bondade tua. Mas vai lá, sim. O mosteiro bem merece o nosso olhar. E hás-de ver outras coisas que a mim me escaparam.
    Boa noite:)

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  6. Curioso Bea... ou talvez não. O que diz sobre o nosso D.Duarte, o nosso rei-filósofo, o eloquente, também é o que sinto, sempre senti.
    Gostei dos seus diálogos interiores, que o silêncio e o pasmo da monumentalidade - ou será delírio - proporcionam.
    E, esta sua necessidade de escrita, porém uma escrita sossegada, não febril, mas talvez interiormente urgente, sempre constante, regularmente constante, faz-me bem, faz-nos bem.
    Bem-haja.

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  7. Tão querido, Joaquim:). Obrigada.
    Boa noite.

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