É certo e sabido, nos dias em que preciso fazer tarefas que protelo sucessivamente e nunca na vida me hão-de apetecer, bebo um café com leite escuro. Depois, já se sabe, nasce-me uma sexta feira toda catita. Portanto, como sou mais ou menos autosuficiente a fazer nascer sextas feiras, olha, foi mais uma. Posto isto, parti à aventura matinal como quem vai para um safari há muito ansiado, no que a Violeta me secunda com muito brio, o que me faz suspeitar que o mundo canino só conhece sextas feiras (não sei a razão, mas este arrazoado está a lembrar-me Robinson Crusoé). Pêlo húmido da morrinha e patas sujas da lama nas valetas, a Violeta não é canino de modas e as minhas calças carimbam o cumprimento a mãos ambas – salvo seja - e, nos olhos marotos, um viés de ternura espreita-me por debaixo do pêlo que mexe com o meu desejo todo dedos na tesoura; e era uma vez uma franja. As minhas desculpas à Lili, mas talvez se passe com ela e a velhice o que acontece no mundo dos homens (em cão, é evidente): fica na sombra, caminha devagar, pouco liga a quem passa, é mais involutiva. Repugna-me um bocadinho pensar isto, mas é verdade que prefiro a Violeta apenas por ser mais nova – fisicamente, são gotas da mesma água -, é mais garrida e amorosa, corre desalmada e sabe de cor todos os lugares de paragem do dono. E estes sentimentos, meus senhores, não abonam nadinha a meu favor. Duplamente nadinha, embora eu mesma não vislumbre para que serve um duplo nada. Avante.
De seguida, fui fazer o detestável circuito daquelas pequenas coisas que a gente precisa parvamente e sempre vai adiando a compra. Entrei no super sem máscara, voltei ao carro a buscá-la; quando quis pagar, dentro da mala, apenas dois pares de óculos e a menina desinteressada da modalidade de pagamento; empanquei a fila à procura do que me faltava, pus gente a agastar, e lá fui a casa pela carteira. Perseguidora das minudências, entrei depois na papelaria sem máscara e, durante uns cinco minutos, ninguém deu por tal; comprei dois artigos e ao terceiro a cliente que entretanto entrara, ai, ai, ai. Lá fui buscar a máscara ao carro que nem estava muito próximo. O apetrecho, que transporto sempre na mochila, impava teimosamente no banco do veículo (escrever ou pensar veículo lembra-me cartas de condução, exames de código, operações de stop). Chegada a minha vez na retrosaria, tinha esquecido em casa o artigo que queria completar (levava máscara). Voltei atrás (re...re...re...). Ainda na loja, conferi as compras (escrevo-as num papelinho) e intriguei. Havia um item que rezava “azul”. Assim, simplesmente. O que me teria levado a pensar que lia a palavra e, abre-te sésamo?!, a jovem balconista bem palpitou, mas sem resultado; e digo-vos, já passou meio dia, doze horinhas completas, e ainda não resolvi a incógnita.
(cont.)
Tantas vezes a esquecer da máscara Bea? :P
ResponderEliminarÉ verdade, já faz parte do nosso dia a dia mas ainda hoje me esqueço às vezes também.
E há dias assim, esquecemos tudo. Só não perdemos a cabeça porque está agarrada.
Beijocas
Bem, no meu caso Cláudia, usar a máscara duas a três vezes por semana não dá para criar hábito, é por isso que a trago sempre dentro da mochila. Mas ontem não sei que me deu, tinha-a no assento ao lado do condutor:).
ResponderEliminarUm dia destes fui levar o meu pai ao médico, quando íamos a chegar, meia volta, que ele tinha deixado a máscara em casa.
ResponderEliminarAcontece.
Se acontece, Magui. Tenho uma no porta luvas do carro e outra na mochila que sempre me acompanha. Mas, naquele dia, sei lá porquê, tirava-a e colocava no banco ao lado do condutor. E é claro que me esquecia:). No caso de meu pai, ele já vem sempre prevenido com uma que lhe dei e coloquei num saquinho. Mas também já me aconteceu ir a minha casa buscar uma por se ter esquecido.
ResponderEliminarBoa noite, Magui.