Há
um silêncio recolhido por todo o Capítulo, um apelo ao orgulho de ser português
na pose fotográfica dos soldados que guardam a sala à luz fraca dos vitrais.
Vejo os frades que ali se reuniram para deliberar sobre assuntos da vida monástica, rosto escurecido,
talvez um archote ou outro a bruxulear-lhes as decisões. Quanta austeridade.
Que frieza desprendem estas paredes. E mestre Afonso Domingues que talvez não
tenha existido ali está a um canto e mais seus instrumentos de medida. Olhamos
essa abóbada de tanta preocupação e arte, esse tecto dificultoso que, dizem,
caiu algumas vezes e ali está impávido e seguro, século atrás de século. Pertença
a quem pertença a figura esculpida, aquele canto é a homenagem aos que, por
trabalho, obstinação e interesse a erigiram. O rei chamara às obras da Sala do Capítulo
os condenados e prometeu-lhes a liberdade se a abóbada não caísse. Que o
arquitecto de tal milagre, seja ele o Mestre Afonso Domingues das Lendas e
Narrativas de Herculano ou Mestre Huguet, se fundou no saber e pôs o cálculo ao
serviço de criativa ousadia, é fora de dúvida. Para uns e outros, acreditamos na
paga régia.
Lá
fora, vindos da severidade do Capítulo, assola-nos o remanso da vida. Somos atraídos
pela luz clara dos claustros, os olhos em contemplação, reféns do rendado das
arcadas em ogiva perfeita, do abaulado dos tectos, perdidos na beleza e
harmonia do conjunto. Minha mãe em admiração pasmada no recanto daquela fonte
majestosa e tão delirantemente feminina que quase nos nasce a dúvida sobre a sua
acuidade no mosteiro. Que pensariam os frades, como olhavam aquela beleza
pormenorizada toda feita em delicadeza de formas e que tanto me sugere lugar de
mulheres a ler, a bordar, a sonhar. Talvez, para quem ali habitou, os claustros
sejam a beleza que urge, o indicador de que a vida não se resume ao cumprimento
de regras e a pensamentos grandiosos. Um sinal de que a beleza não é apenas
lenitivo dos olhos, a beleza ajuda a pensar, põe-nos de bem com mundo e homens.
Dispõe ao amor, daí os claustros. E, enquanto aquela senhora estrangeira se
fazia fotografar e meu avô sondava a pedra a adivinhá-la pelo toque, eu
encostava-te a uma coluna. Passo a passo, prendia-te pra me ver presa. Fatalmente.
E depois da foto a senhora um soslaio meio a sorrir, como quem diz, tão sem juízo
o amor, tão docemente ridículo.
(Cont.)
Obras de outros tempos Bea! Quem é que hoje em dia, em que somente o imediato conta, inicia um projeto de grande envergadura em Portugal, sabendo que só vai ser concluído, já não digo dois séculos mais tarde, mas vinte ou trinta anos após?
ResponderEliminarNem reformas estruturais, quanto mais monumentos!
O tempo não deve ter permitido que visitasse as Capelas Imperfeitas, pois não lhes faz referência. Falando destas, julgo que no sonho de D.Duarte, o céu, com a sua inclemência, não deve ter servido de abóboda às capelas tumulares, embora a perfeição do universo numa noite de verão o possa igualmente ter seduzido.
Na realidade, a chuva, o calor, o granizo e a humidade, todos entram sem pedir licença, tornando uma obra que se quer imorredoura em não perene.
O que teria sido idealizado para a sua cobertura, alguém sabe? Num tempo em que a arquitetura portuguesa é mundialmente enaltecida e justamente consagrada, não podemos dizer que nos falta engenho. Haja vontade.
Bom dia.
Boa tarde, Joaquim. Na verdade visitei as capelas imperfeitas que por acaso me dizem muito. Esqueci-me de assinalar a continuação. Sorry.
EliminarTalvez amanhã ou depois:)
Um abraço
Uma obra de arte. E não estou só a falar do Mosteiro, mas sim deste texto que descreve os pormenores da História, das figuras e das pedras com uma mestria e sensibilidade tão invulgares. Parabéns!
ResponderEliminarCuide-se bem.
Uma boa semana.
Um beijo.
Obrigada Graça. Não é mestria, será mais o gosto e a vontade de que não morra completamente aquele bocadinho de aprazível e que agora nos falha a todos.
EliminarUm beijinho e resguarde-se.
E acabou a história. :-)
ResponderEliminarFiquei com a sensação que a bea ia de mão dada com o seu amor 💚 e no fim encostou-o à parede (perdão, à coluna) e... possivelmente aquela turista até registou a cena 📷
Gostei muito desta visita guiada, em miúdos escapa-nos muita coisa.
Eu fui lá várias vezes mas sempre com os meus pais. Há uns bons anos resolvi ir sozinha visitar Alcobaça e Batalha: com vagar, com calma, sem ninguém a aborrecer-me com as pressas, fiquei o tempo que bem me apeteceu, tirei as fotografias que quis (e foram muitas) e pude confirmar o que já suspeitava: o Mosteiro da Batalha é mesmo a nossa Jóia da Coroa.
O Mosteiro de Alcobaça também é muito bonito, mas o da Batalha é especial (pelo menos para mim).
Bom entardecer para si e para o 🐈
Maria
ResponderEliminarÉ como disse ao Joaquim, por lapso esqueci o sinal de continuação. Ia com alguns dos meus amores, sim. Gosto de encostar pessoas à parede:). Hoje está um dia ameno, mas liguei a braseira, o gato está adormecido no tapete e quase debaixo da mesa onde escrevo. Cresceu o meu gatito e já partiu duas almoçadeiras de Vista Alegre e mais um prato das caldas. Assustou-se com o ruído e levou duas ou três palmadas. Entretanto, não voltou a subir aos móveis. E também já não pede colo enquanto almoço e mantém-se a meu lado (como agora). Mas, havendo distracção, sobe a escada e fica de sentinela à porta do quarto.
Neste momento ouvimos os dois Ennio Morricone:);
Boa tarde, Maria.
Há pedras com vida por dentro
ResponderEliminare até por fora, mar arável.
EliminarBoa noite.
Perco-me nas suas palavras, que me imagino uma donzela de outros tempos.
ResponderEliminarBoa semana, Bea.
Também me imagino a bordar esperando um cavaleiro combatente; ou a ler, ou a pintar e sem esperar ninguém, só a aprender as coisas, contente da vida.
ResponderEliminarBoa semana, Magui:)
Duas ou três vezes de passagem pela Batalha e nunca visitei o Mosteiro. Sigo assim esta visita guiada, tão pessoal mas assim partilhada torna-se um pouco também de quem a lê. :)
ResponderEliminarJá falta pouco para concluir. A Batalha merece uma visita atenta. E pessoal:)
ResponderEliminarBoa noite, Luísa.
Realmente eu talvez não tenha visitado a Batalha com olhos de ver =)
ResponderEliminarCada vez é sempre nova, Cláudia. E é bom descobrir sempre outras coisas.
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