domingo, 15 de novembro de 2020

Na Batalha

 

Há um silêncio recolhido por todo o Capítulo, um apelo ao orgulho de ser português na pose fotográfica dos soldados que guardam a sala à luz fraca dos vitrais. Vejo os frades que ali se reuniram para deliberar sobre  assuntos da vida monástica, rosto escurecido, talvez um archote ou outro a bruxulear-lhes as decisões. Quanta austeridade. Que frieza desprendem estas paredes. E mestre Afonso Domingues que talvez não tenha existido ali está a um canto e mais seus instrumentos de medida. Olhamos essa abóbada de tanta preocupação e arte, esse tecto dificultoso que, dizem, caiu algumas vezes e ali está impávido e seguro, século atrás de século. Pertença a quem pertença a figura esculpida, aquele canto é a homenagem aos que, por trabalho, obstinação e interesse a erigiram. O rei chamara às obras da Sala do Capítulo os condenados e prometeu-lhes a liberdade se a abóbada não caísse. Que o arquitecto de tal milagre, seja ele o Mestre Afonso Domingues das Lendas e Narrativas de Herculano ou Mestre Huguet, se fundou no saber e pôs o cálculo ao serviço de criativa ousadia, é fora de dúvida. Para uns e outros, acreditamos na paga régia.

Lá fora, vindos da severidade do Capítulo,  assola-nos o remanso da vida. Somos atraídos pela luz clara dos claustros, os olhos em contemplação, reféns do rendado das arcadas em ogiva perfeita, do abaulado dos tectos, perdidos na beleza e harmonia do conjunto. Minha mãe em admiração pasmada no recanto daquela fonte majestosa e tão delirantemente feminina que quase nos nasce a dúvida sobre a sua acuidade no mosteiro. Que pensariam os frades, como olhavam aquela beleza pormenorizada toda feita em delicadeza de formas e que tanto me sugere lugar de mulheres a ler, a bordar, a sonhar. Talvez, para quem ali habitou, os claustros sejam a beleza que urge, o indicador de que a vida não se resume ao cumprimento de regras e a pensamentos grandiosos. Um sinal de que a beleza não é apenas lenitivo dos olhos, a beleza ajuda a pensar, põe-nos de bem com mundo e homens. Dispõe ao amor, daí os claustros. E, enquanto aquela senhora estrangeira se fazia fotografar e meu avô sondava a pedra a adivinhá-la pelo toque, eu encostava-te a uma coluna. Passo a passo, prendia-te pra me ver presa. Fatalmente. E depois da foto a senhora um soslaio meio a sorrir, como quem diz, tão sem juízo o amor, tão docemente ridículo.

(Cont.)

14 comentários:

  1. Obras de outros tempos Bea! Quem é que hoje em dia, em que somente o imediato conta, inicia um projeto de grande envergadura em Portugal, sabendo que só vai ser concluído, já não digo dois séculos mais tarde, mas vinte ou trinta anos após?
    Nem reformas estruturais, quanto mais monumentos!
    O tempo não deve ter permitido que visitasse as Capelas Imperfeitas, pois não lhes faz referência. Falando destas, julgo que no sonho de D.Duarte, o céu, com a sua inclemência, não deve ter servido de abóboda às capelas tumulares, embora a perfeição do universo numa noite de verão o possa igualmente ter seduzido.
    Na realidade, a chuva, o calor, o granizo e a humidade, todos entram sem pedir licença, tornando uma obra que se quer imorredoura em não perene.
    O que teria sido idealizado para a sua cobertura, alguém sabe? Num tempo em que a arquitetura portuguesa é mundialmente enaltecida e justamente consagrada, não podemos dizer que nos falta engenho. Haja vontade.
    Bom dia.

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    1. Boa tarde, Joaquim. Na verdade visitei as capelas imperfeitas que por acaso me dizem muito. Esqueci-me de assinalar a continuação. Sorry.
      Talvez amanhã ou depois:)
      Um abraço

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  2. Uma obra de arte. E não estou só a falar do Mosteiro, mas sim deste texto que descreve os pormenores da História, das figuras e das pedras com uma mestria e sensibilidade tão invulgares. Parabéns!
    Cuide-se bem.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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    1. Obrigada Graça. Não é mestria, será mais o gosto e a vontade de que não morra completamente aquele bocadinho de aprazível e que agora nos falha a todos.
      Um beijinho e resguarde-se.

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  3. E acabou a história. :-)
    Fiquei com a sensação que a bea ia de mão dada com o seu amor 💚 e no fim encostou-o à parede (perdão, à coluna) e... possivelmente aquela turista até registou a cena 📷
    Gostei muito desta visita guiada, em miúdos escapa-nos muita coisa.
    Eu fui lá várias vezes mas sempre com os meus pais. Há uns bons anos resolvi ir sozinha visitar Alcobaça e Batalha: com vagar, com calma, sem ninguém a aborrecer-me com as pressas, fiquei o tempo que bem me apeteceu, tirei as fotografias que quis (e foram muitas) e pude confirmar o que já suspeitava: o Mosteiro da Batalha é mesmo a nossa Jóia da Coroa.
    O Mosteiro de Alcobaça também é muito bonito, mas o da Batalha é especial (pelo menos para mim).

    Bom entardecer para si e para o 🐈

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  4. Maria
    É como disse ao Joaquim, por lapso esqueci o sinal de continuação. Ia com alguns dos meus amores, sim. Gosto de encostar pessoas à parede:). Hoje está um dia ameno, mas liguei a braseira, o gato está adormecido no tapete e quase debaixo da mesa onde escrevo. Cresceu o meu gatito e já partiu duas almoçadeiras de Vista Alegre e mais um prato das caldas. Assustou-se com o ruído e levou duas ou três palmadas. Entretanto, não voltou a subir aos móveis. E também já não pede colo enquanto almoço e mantém-se a meu lado (como agora). Mas, havendo distracção, sobe a escada e fica de sentinela à porta do quarto.
    Neste momento ouvimos os dois Ennio Morricone:);
    Boa tarde, Maria.

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  5. Perco-me nas suas palavras, que me imagino uma donzela de outros tempos.
    Boa semana, Bea.

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  6. Também me imagino a bordar esperando um cavaleiro combatente; ou a ler, ou a pintar e sem esperar ninguém, só a aprender as coisas, contente da vida.
    Boa semana, Magui:)

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  7. Duas ou três vezes de passagem pela Batalha e nunca visitei o Mosteiro. Sigo assim esta visita guiada, tão pessoal mas assim partilhada torna-se um pouco também de quem a lê. :)

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  8. Já falta pouco para concluir. A Batalha merece uma visita atenta. E pessoal:)
    Boa noite, Luísa.

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  9. Realmente eu talvez não tenha visitado a Batalha com olhos de ver =)

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  10. Cada vez é sempre nova, Cláudia. E é bom descobrir sempre outras coisas.

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