sábado, 7 de novembro de 2020

Eu, Gato

 

Sou um gato. Um GATO. Não sei de onde vim, mas sou gato, convenço-me que sou, ainda que ela me chame palermices como carochinha, raposinha, bolinha, minha menina pequenina, que são nomes bons para uma menina gata e é claro que isso me baralha. Mas a voz dela é que me enleva, me dá sono e me acorda. Fico no colo  a fazer que durmo (às vezes é sono a sério) e ela vai passando a mão  e fala baixinho, o meu menino, a raposinha bonita. E estou no céu dos gatos. Tenho fixação nela, durmo na sua cadeira e adoro a almofada onde se encosta; e quando ninguém sabe de mim só respondo à sua voz. Eu que mio desalmado por comida, se ela me chama, “gato, gatoooo”, chio como ratito pequeno. Que querem, muda-se-me a voz, os gatos também são mimosos se forem mimados. Quando aqui cheguei era meio pelado, via-se a rosa da pele e pulgas passeando entre os pelitos brancos. Hoje não há parasita que me chegue e estou bem encabelado, a pele rosada é lembrança. Sou um gatinho maltês branquito, rabo tigrado e focinho e orelhas amarelo/acastanhadas; e, note-se, tenho os olhos azuis. Não vou ser muito comprido, já ouvi que sou pouco elegante e tenho barriga, mas não resisto à comida, seja qual seja; desconfio que me chama bolinha por isso mesmo. Se toca a comer, tenha ou não apetite, nem a voz dela faz efeito, cuido de me esganar. Já subo a escada atrás dela e corro o sótão de uma ponta à outra, sou curioso e exploro qualquer recôndito; mas se ela diz, gato anda, vamos descer, apareço e vou na sua frente a pular os degraus que só há uns quinze dias consigo subir e descer sozinho, antes era carregado no colo.

Tenho memória de um lugar onde miava aflito e de uma mão a içar-me e embrulhar-me no casaco, e de eu ser um ninguenzinho de olhos assustados e orelhas muito sujas. E depois trouxe-me para esta casa e gosto tanto de aqui morar. Tenho árvores para subir, terra para escavar, sol e vento. Adoro ir à rua com ela e ficar por ali a brincar e o cão não me assusta. Brinco com tudo, passo horas às voltas com uma folha, um bocado de lã, uma fita de cabelo, e tenho fetiche com novelos. Acho que ela é a minha mãe, se durmo na copa ou noutro lugar e lhe oiço a voz, acordo. Mas já lhe corri o avental de cabo a rabo, lambi-o com vagar e esmero e não achei o que queria. Depois, experimentei chupar-lhe os dedos, mas também não deu. Mas ela tem uma coisa que se chamam braços onde gosto de me esterifar e dormir, e com as minhas patas puxo-lhe as mãos seja par morder e lamber seja para me aninhar como gosto. Ela ri e diz, bebé, és um bebé, tu - e depois -, pareces um coelho assim esticado.

Do que ela não gosta mesmo nada –  castiga à séria – é que puxe a comida da mesa e me sente no colo dela durante a refeição. Já levei muita sapatada. Mas estou a começar a aprender a ficar entre as costas da cadeira e as dela até que termine. Não vai ser fácil.

Fiquem bem.

30 comentários:

  1. Olá Gato,

    Gostei muito da tua cartinha e já deu para perceber que estás feliz: saíu-te o euromilhões, não foi, Blue Eyes?
    Tens que a convencer a tirar-te uma fotografia; não me importo nada de não conhecer a cara dela, mas a tua eu gostava muito de saber como é...
    Vai dando notícias, okay?

    Uma turrinha amiga.
    🐈

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  2. Não sei do que mais gostam, mas é facto com provas dadas, os gatos são felizes por cá, Maria. Morrem cedo, também é verdade, só a gata chegou a fazer anos.
    A Maria fez-me sorrir com a observação, é que a senhora que vem cá a casa diz exactamente o mesmo, só não lhe chama Blue Eyes, mas deve ser por não saber inglês.
    As fotos empatam-me as palavras e até acho que já esqueci como colocá-las aqui, coisa que foram os alunos a ensinar-me:); já não tenho os mestres, mas um dia tento e faço-lhe a vontade.
    Um abracinho tecido a patas e mãos.

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  3. Nunca gostei de gatos, seguramente por trauma de infância, quando um, no cio, me espetou unhas e dentes numa perna, cicatriz perene que não me deixa mentir. Até que, em casa alheia, conheci o Betis, gato sevilhano resgatado, ainda bebé, de um caixote do lixo.
    O bicho é bravio, mas, por razões misteriosas, deu-lhe para simpatizar comigo. Conhece-me pelo cheiro e, quando me pressente, aproxima-se sorrateiro e - pasme-se - ronrona. Dei por mim presa naquela maciez de penugem branca onde se me perdem os dedos. Quero um gato! De preferência, uma gata. Serei dona/mãe de gata - coisa mais fofa! Beijinhos, querida Bea

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    1. Também recomendo uma gata. A minha falecida tinha os olhos mais doces do mundo, bem mais azuis que os deste gatinho. E era uma doçura. Preferia que fosse feminina, mas ele estava-me aos pés, bebé indefeso. E cá está:).

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  4. Oh, Yes! Feliz e bastante crescido. Já nem me deixa fotografá-lo, o maroto. E a dormir não tem interesse:)

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  5. Há bichos com muita sorte e ainda bem.
    Boa semana, Bea.

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    1. Talvez ele pague com a vida o facto de morar comigo, Magui. Vivo à beirinha da estrada e não há o mundo perfeito:)
      Boa semana, Magui.

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  6. ... "bichinho" com a sorte de ter encontrado quem o aceitasse!
    Na aldeia... encontro os "gatos" dos vizinhos!!!
    Boa semana Bea

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  7. As aldeias são cheias de gatos, é verdade Gracinha.
    Boa semana:)

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  8. A minha gatinha foi castrada e ainda não recuperou da cirurgia e do susto :(
    Boa semana

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  9. Ainda bem que ele encontrou esse lar =)

    Beijocas

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    1. A sorte dele pode ser também factor de morte:). Vamos ser positivos, não é Cláudia.

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  10. Gosto de gatos. São inteligentes, independentes e esquivos. Gostei do texto de quem se põe na pele do gato a tentar entender o que ele sente...
    Cuide-se bem.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  11. Bom, está visto que a minha resposta de ontem ficou adiada, Graça. Mas o que dizia era, mais ou menos, que os gatos só são esquivos com desconhecidos; não lhes noto assim uma inteligência especial, mas podem tê-la que também não é o que neles procuro; gosto da sua independência, dá-lhes interesse e descansa-nos, um animal sempre pendurado em nós e no nosso colo não é agradável.
    Boa semana, Graça.

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  12. Bea, respondendo ao comentário, claro que não estou a comparar, nem de perto, nem de longe, o facto de se eu precisar de alguma coisa, as pessoas estarem disponíveis para ajudar, etc. Não meço o nível de amizade pelo nº de likes e se até o fizesse, acho que pouco errava, que as pessoas realmente a cada dia que passa, se mostram mais =)
    Mas de facto, as redes sociais funcionam mesmo assim. As contas são "catapultadas" quanto mais likes e comentários tiverem. É um sistema muito complexo, que não é só pelo like em si, mas tudo o que ele acarreta.

    Beijocas

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    1. Perdoe a minha ignorância, Cláudia, mas o que significa as contas serem catapultadas? São catapultadas em função dos likes, mas que significado tem isso? Concretamente.

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    2. Não tem problema =)

      As marcas, só começam a trabalhar com as pessoas que tiverem mais likes, mais seguidores, mais comentários. Só a partir de um certo número de seguidores, por exemplo, é que começamos a ter descontos específicos, reconhecimento, receber coisinhas em casa...
      Basicamente anda é tudo atrás do mesmo :P
      Mas eu sinto e tenho quase a certeza que faço algo diferente. É verdade, com filhos será diferente, mas só de fazer tanta coisinha em casa, quando é tão mais fácil comprar... Mas pronto, com calma chego lá =)

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    3. Boa sorte para o caminho difícil que quer trilhar:)))). E obrigada pela explicação.

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  13. A sua preocupação de morar à beirinha da estrada, aí está o que diferencia o homem do animal: o homem dirige o seu olhar para o futuro, ao passo que a cogitação animal está virada para o aqui e agora.
    Boa noite.

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  14. o bem estar animal deve morar também aí.
    Boa noite, Joaquim.

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  15. Ora aí está uma coisa que não consigo: ouvir a voz dos bichos. Sou mais capaz de ouvir as árvores:)
    ~CC~

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    1. Oiço tudo, árvores, flores, animais e até, imagine, pessoas:))))

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    2. Me too!
      😂🤣😂

      Bom fds!
      🐈

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  16. Bea, que bem escreve o teu bichano!
    Nunca tive um gato meu. Mas cá em casa já viveram felizes 4 (3 gatas e 1 gato), todos da minha filha. Quando ela foi para Inglaterra deixou-os num gatil. Durante uns dias eu senti saudade dos bichanos e quase, quase, os fui buscar. Desisti, a bem da saúde dos bichinhos.
    Não sei ser mãe de gatos. De cães pequeninos ajeito-me. Já tive 3, e todos morreram tragicamente. O ultimo foi de tal maneira (estrangulado pela coleira na porta do elevador) que desisti de vez da coabitação com bichos de 4 patas. Num apartamento tudo é mais complicado.
    Sejam felizes, tu e a "carochinha, raposinha, bolinha"...
    Beijo.

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    1. :) Olá Teresa, também lhe chamo sardanisca:)))
      Boa noite.

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  17. Bea, que maneira bonita e sensível de apresentares o teu gato!Beijinhos!

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  18. Que giro!
    Às vezes tenho vontade de arranjar um gato, mas depressa desisto...dão trabalho e tenho 2 pássaros...

    😊

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