Em
qualquer mosteiro nos cativam mais as celas dos frades e o mundo intramuros da
vida quotidiana, que a riqueza fulgurante do templo aberto ao vulgo a horas
certas e poucas. Agradecemos a grata luz dos claustros internos a desenhar
figuras em paredes e chão circundantes, as lajes gastas na largura de corredores
e os anseios votivos que nos levam para lá dos muros que encerraram os frades dominicanos.
Caminhamos apercebendo os sinais da vida retirada, a surpreendê-la no segredo
das pedras, na espessura de paredes que acolheram sonhos e pesadelos, anelos
inconfessáveis e humanas torturas, devoções e ignaros devaneios. E lá vamos os
quatro, meu avô risonho e trôpego fechando o cortejo, a percorrer arcadas e corredores
encostado ao seu bordão, a mente no diverso carácter desses homens tantos, quiçá
voluntários prisioneiros numa obra de arte. Maravilhados com o magnânimo refúgio que é em nós labirinto e neles casa, anotamos o fechamento ao mundo, a porta do
eu cerrada à posse individual e às mais humanas emoções. A minha mão enleia na
tua como se a mística nos atinja veias e artérias e nos misture o sangue. Minha
mãe em desabafo, embevecida nos jogos de luz e sombra, estes frades tinham por
força vocação, obedeceram ao divino chamamento, “deixa tudo e segue-me”. E
olhando em volta, aprazível, mas deu-lhes Deus uma casa tão bonita. A estas palavras
vem-me uma lição do livro da segunda ou terceira classe, “A cerejeira”. “Na Primavera
disse Deus, ponham a mesa às lagartas. E a cerejeira cobriu-se de folhas,
milhões de folhas verdejantes e fresquinhas…” . Afastando o livro de
leitura, não é hora para estas coisas, tenha paciência volte à estante se faz
favor, sorrio com os olhos, conheço a crença
inabalável e cândida de minha mãe. Se a houve, também eu louvo essa vida
de amor despojado que gastou o seu tempo em adoração,
cânticos e trabalho, se ocupou a morigerar os
impulsos do corpo ou apenas a ceder-lhes como quem oferece pão a pobre, tentação e desejo são galgos sem fronteira.
Entramos na sala do Capítulo. Descomunal solidão. Penumbrosa e abobadada. Nela, a chama da Pátria e o túmulo ao soldado desconhecido (dois soldados incógnitos se acompanham ali), morto em guerra estrangeira e sem préstimo (não há préstimo numa guerra), que nos levou tanto jovem impreparado e sem saber ao que ia. As vidas ceifadas são sem retorno. Que este acto ignóbil pese na eternidade aos mandantes. Soldadinho indigente que vieste sabe Deus de que confins para sofrer e morrer onde nunca pertenceste. Ninguém te ensinou a defesa e nem sequer partiste bem armado ou preparado para o frio. Quanto mais não preferias na tua miséria o sussurro do vento nas árvores, o canto matinal das cotovias, ou a guarda do sol e da lua. Ganhaste a importância de seres ninguém. E ali estás, triste ironia, tu mesmo, guardado por duas sentinelas imberbes, talvez parentes teus em juventude. Esperam viver bastante. Como tu esperaste. Mas a tua esperança foi curta e trágica. Abandonado ao destino, trapaceado. Na partida, já o incógnito braço da morte te estreitava.
(cont.)
Mais um bom momento de leitura!
ResponderEliminarAdoro os claustros e no seu silêncio sentir cada som de outrora!
Bj e bom domingo!
também gosto, Gracinha.
ResponderEliminarum beijinho e bom domingo
Muito bom e interessante texto.. realmente as visitas que fazemos, cada um traz coisas diferentes delas =)
ResponderEliminarBeijocas
Mas isso é o que mais interessa, Cláudia; o mesmo lugar, duas pessoas o entendem diferente.
EliminarÉ um gosto ler! Com a nostalgia das palavras longas, ficam a ressoar na memória.
ResponderEliminarSobre Estói: felizmente há a parte antiga, salas e partes dos jardim, que á possível visitar, o hotel de charming é uma construção moderna ao lado - não me lembro se cortou alguma parte do palácio e dos indescritíveis jardins, em patamares.
Sobre "passados"... quero eu dizer que não deixaria que Ninguém decidisse por mim como aconteceu, apenas isso. Toda a aprendizagem é importante mas a que nos deixa um travo amargo, não.
Abç
Um dia ainda vou a Faro ver esses jardins, bettips. Penso que foi na Casa de Santar que, por mero acaso (foi mais um feeling) vi assim uns jardins que achei bem bonitinhos.
ResponderEliminarAcha mesmo que a aprendizagem que nos deixa um travo amargo não é importante?! Mas a vida é tão amarga para tanta gente bettips, como é que isso se muda....a amargura que pudermos evitar...e podíamos evitar? Poderíamos?
Boa noite