domingo, 15 de julho de 2018

Humano Sentir


Tem oitenta e alguns anos e ressalta-lhe a vitalidade que mingua em tanta gente mais jovem. Afirma-se incapaz de parar. Mas usa bengala e mal mexe as pernas. Acumula cirurgias uma atrás de outra e, em lume brando, ajeita um cancro companheiro dos finalmente. E não pára, é verdade. Os dedos de crochet artrítico desmancham-se em rendas infindas e originais que procura na net; lê artigos que lhe interessam; vigia o regurgitante pátio do recreio, ovo borbulhando garotos que a respeitam e gostam. Obedecem de boamente à sua brandura suave, interessam-se pela saúde que não tem, compensam-na do carinho que tanto falta entre iguais.
Pelas férias, chega pontual num comboio que fala alentejano por todos os lados do seu vagar. Não vem apenas por mim. Vem pelo lugar onde viveu quase metade da vida. E começa a romagem: bebe café nos mesmos sítios, mete conversa com caras conhecidas, pergunta pela família, inquire dos progressos dos estudantes. De seguida, rumo à casa que foi sua e onde se perde corredores fora em conversas de amizade, imagino que um ferrão de nostalgia a afundar por dentro do sorriso aberto. Depois degusta o meu almoço cuidadoso - a última cirurgia foi de foro gástrico - e mastiga com prazer filial na retoma  de tempêros de mãe. Tudo lhe agrada e experimenta com satisfação ingénua de primeira vez, legumes cozidos, saladas, doces, bolos, fruta. No final do almoço, nova visita. É um dia embebido na alegria de rever amores antigos que contrariam a lei do efémero sentir.
Ao comboio de regresso chega de coração cheio, cansadíssima. No dia seguinte, descansa, a alma ainda engalanada.

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