Tem
oitenta e alguns anos e ressalta-lhe a vitalidade que mingua em tanta gente
mais jovem. Afirma-se incapaz de parar. Mas usa bengala e mal mexe as pernas. Acumula
cirurgias uma atrás de outra e, em lume brando, ajeita um cancro companheiro
dos finalmente. E não pára, é verdade. Os dedos de crochet artrítico desmancham-se em
rendas infindas e originais que procura na net; lê artigos que lhe interessam; vigia o regurgitante pátio do recreio, ovo borbulhando garotos que a
respeitam e gostam. Obedecem de boamente à sua brandura suave, interessam-se
pela saúde que não tem, compensam-na do carinho que tanto falta entre iguais.
Pelas férias, chega pontual num comboio que fala alentejano por todos os lados do
seu vagar. Não vem apenas por mim. Vem pelo lugar onde viveu quase metade da
vida. E começa a romagem: bebe café nos mesmos sítios, mete conversa com caras
conhecidas, pergunta pela família, inquire dos progressos dos estudantes. De
seguida, rumo à casa que foi sua e onde se perde corredores fora em conversas
de amizade, imagino que um ferrão de nostalgia a afundar por dentro do sorriso
aberto. Depois degusta o meu almoço cuidadoso - a última cirurgia foi de foro
gástrico - e mastiga com prazer filial na retoma de tempêros de mãe. Tudo lhe
agrada e experimenta com satisfação ingénua de primeira vez, legumes cozidos,
saladas, doces, bolos, fruta. No final do almoço, nova visita. É um dia embebido
na alegria de rever amores antigos que contrariam a lei do efémero
sentir.
Ao
comboio de regresso chega de coração cheio, cansadíssima. No dia seguinte, descansa, a alma ainda engalanada.
Não para e faz muito bem. É nesse não parar que reside, em boa parte, a longevidade.
ResponderEliminarConcordo:)
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