O Diário e as Cartas dizem da
mulher. Mas também li três ou quatro livros de Virgínia. E ainda comprei duas
vezes o mesmo livro - "Um quarto só seu" (palerma! Com tanto livro
que há, tinhas de comprar duas vezes o mesmo). Contudo, não deixo de pensar que
a publicação de cartas (não interessa remetente ou destinatário) é deitá-las
sobre a mesa da vida, à esparavela do mundo; rasgar um corpo e alma que se deu
a uma só pessoa, abri-lo de alto abaixo e abandoná-lo às mundanas varejeiras. São
íntimas; e depois?!
Todas as cartas merecem um
respeito indefinido e infinito, nelas não há apenas a letra e o tempo de quem
escreveu, há quem escreveu. Mas a correspondência amorosa é, na essência,
diferente; regista um tu a tu que pede recato e merece ser inviolável a
terceiros que as não entendem nunca do mesmo modo que as entendeu o sujeito a quem foram dirigidas. Porque esse sujeito
tem com o escriba uma relação significante, que vai muito para lá da palavra. Assim
aconteceu entre Vita e Virgínia; quiçá, entre Virgínia e Leonard. Afinal quem somos nós/eu para sabermos o
significado profundo dos arabescos que lemos?! Nós conhecemos - mal - a exterioridade de
ambas as correspondentes e ousamos penetrar num mundo particular e apenas seu. Quantos
de nós sabemos as vezes que Virgínia leu
as cartas de Vita? O que sabemos dos sentimentos e emoções que a assolaram ao
reler passagens que reportam lembranças que só ambas reconhecem? As
cartas de amor não são para ser lidas senão pelos amantes, porque é essa
certeza de comunhão biunívoca que possibilita limiares de intimidade através de signos. Mas, ó contradição, tanto gostei de lê-las.