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domingo, 10 de março de 2024

Invariâncias do Acaso

 

O Diário e as Cartas dizem da mulher. Mas também li três ou quatro livros de Virgínia. E ainda comprei duas vezes o mesmo livro - "Um quarto só seu" (palerma! Com tanto livro que há, tinhas de comprar duas vezes o mesmo). Contudo, não deixo de pensar que a publicação de cartas (não interessa remetente ou destinatário) é deitá-las sobre a mesa da vida, à esparavela do mundo; rasgar um corpo e alma que se deu a uma só pessoa, abri-lo de alto abaixo e abandoná-lo às mundanas varejeiras. São íntimas; e depois?!  

Todas as cartas merecem um respeito indefinido e infinito, nelas não há apenas a letra e o tempo de quem escreveu, há quem escreveu. Mas a correspondência amorosa é, na essência, diferente; regista um tu a tu que pede recato e merece ser inviolável a terceiros que as não entendem nunca do mesmo modo que as entendeu o sujeito  a quem foram dirigidas. Porque esse sujeito tem com o escriba uma relação significante, que vai muito para lá da palavra. Assim aconteceu entre Vita e Virgínia; quiçá, entre Virgínia e Leonard.  Afinal quem somos nós/eu para sabermos o significado profundo dos arabescos que lemos?! Nós conhecemos - mal -  a exterioridade de ambas as correspondentes e ousamos penetrar num mundo particular e apenas seu. Quantos de nós sabemos as vezes que  Virgínia leu as cartas de Vita? O que sabemos dos sentimentos e emoções que a assolaram ao reler passagens que reportam lembranças que só ambas reconhecem? As cartas de amor não são para ser lidas senão pelos amantes, porque é essa certeza de comunhão biunívoca que possibilita limiares de intimidade através de signos. Mas, ó contradição, tanto gostei de lê-las.

segunda-feira, 4 de março de 2024

Invariâncias do Acaso

 

Vita foi mulher de muitos amores, homo e hetero. Suponho que por temperamento e condição fidalga, além de pertença a um grupo social e intelectual onde era bem aceite. Segundo mentes moralizantes, cedia aos desvarios da carne. Ou antes seria modo de ser, traço de personalidade. Consta que Harold, o marido, também preferia homens e que o casamento de ambos era uma relação aberta e onde o divórcio não cabia, quem sabe se pela dificuldade que a possível separação traria aos dois: no estado de casados, cada um se sabia mais livre. Do que se entende nas cartas - de Vita para Harold – a relação entre ambos ancorava na estima mútua. Porém, nessas mesmas, o caso Vita-Virgínia aparece como um misto de curiosidade e admiração por um ser frágil e doce, quase ingénuo, que Vita garante ser diferente do que Harold julga. E agita a bandeira, “é coisa platónica”. Porém, as cartas que dirige a Virgínia desmentem essa ideia hipoteticamente inicial e que o leitor pode subentender e admitir apenas como limiar, Vita não coaduna com a dama convertida ao platonismo; ou terá função de subterfúgio apaziguador.  

O caso de Virgínia é diverso. Parece não ter consumado o casamento com Leonard (há quem tenha apresentado como motivo o abuso familiar em criança). Mister Woolf foi  companheiro de alma e literatura, conhecia-a como ninguém e tinha por ela a ternura comovente que o faz empático ao leitor. Cuidou da sua flor o melhor que soube. Tratou-a amorosamente na doença e na vida - passeava-a pelos campos, trabalhavam juntos na editora, viajavam juntos. Imagino que Virgínia lhe dava a ler ensaios e romances. Mister Woolf foi o companheiro presente.

Pergunto-me se haveria outro caminho para Virgínia.  Lendo a carta de despedida que endereçou a Leonard, as possibilidades parecem esgotadas.  E Virgínia termina, “não creio que duas pessoas pudessem ser mais felizes que nós”. É uma despedida ponteada a luz, embora a autora afirme a dificuldade em conseguir ler, empecilho do aprumo na escrita (como se enferme de algum erro!). Será verdadeira a afirmação acerca da felicidade conjugal,  ou obedece à estima amorosa, sempre revelada a Leonard, e ao desejo profundo de o libertar de possível remorso?! Como se um afogamento voluntário não provocasse a natural mexida da água.

(cont.)

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Invariâncias do Acaso

 

Estão mortas. Ambas escritoras e inglesas. Amaram-se na primeira metade do séc XX. Dez anos mais velha, Virgínia foi a primeira a desaparecer e, na altura em que foram apresentadas e não foram simpáticas uma à outra, Vita era mais conhecida. Lidas as cartas, ficamos sabendo mais sobre a personalidade das duas, embora só uma interesse realmente. Nas missivas, a prosa de ambas é arrebatada e terna, culta e de extraordinária beleza.  Acontece nos livros o que acontece na vida, o amador e o ser amado vivem da relação. As cartas são a história de um amor desde o princípio de simpatia mútua e possível atracção posteriores aos primeiros contactos, até à paixão amorosa com tudo o que a faz ganhar peso; mas Virgínia usa de palpável leveza e contenção. À fase da paixão seguiu-se uma provável amizade que as juntou esporadicamente e de que não existirão cartas. Vita terá continuado a borboletear vida fora. De Virgínia pouco sei sob tal aspecto. Mas em tudo o sentimento amoroso me pareceu muito igual a qualquer outro: ali estão a constância no desejo do outro; as pequenas ternuras; a procura da intimidade não apenas física, há muitos encontros a sós para almoçar, jantar, lanchar, e não apenas na casa de uma ou de outra; a integridade peremptória de Virgínia que desde o início rejeitou presentes da amante rica e de berço fidalgo, a par da sua fidelidade ao trabalho na editora como fonte de rendimento. Porém, o certo é que Vita escreveu o que hoje se chamariam best sellers e que a Hogarth Press passou a ser a sua editora. As vendas permitiram aos editores a compra de um carro e outros artefactos que decerto aliviaram as contas de Virgínia e lhe aligeiraram a vida.

Imagino que Vita foi mais em/para Virgínia que o inverso. Mas que sabemos nós do que vai no coração dos outros. Talvez Vita encontrasse em Virgínia uma espécie de pérola rara ainda fechada em sua concha. Existiram. Houve um tempo que foi delas. Isso sabemos.

         O que a gente gosta nos outros, santo Deus. Virgínia tinha fascínio pelas pernas de Vita, suspendia-se-lhe o pensamento (imagino) na sua vitalidade, colunas de alabastro de onde o tronco emergia. Ambas lésbicas. Ambas casadas. Mas o amor é sempre o mesmo, a homossexualidade só no acto físico se faz diversa. 

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Invariâncias do Acaso

 

Em minha casa desagua tudo que os filhos não querem, não precisam, desgostam ou a que não vêem utilidade. A mãe guarda. A mãe não atira fora. Quando a mãe desapareça vão decerto maldizê-la pela tralha que guardou. As fotos de/com antigas namoradas de que a mãe continua a gostar, mas os filhos desgostaram; as poucas cartas que existem e me estenderam desprendidos: "atira fora" -  cartas com letrinha escolar e que os sms substituíram inflados de novidade e superficial leveza, isentando o arquivo. Nas cartas - folhas A4 pautadas ainda com sinais de dossiê de argolas -, estão as mágoas, o ciúme adolescente, os pedidos de desculpa e o "môr" repetidíssimo. E é isto, faz parte da função parental.

Há uns meses ficou a criar lastro uma caixa de livros.  Olhando-os por alto, assim como quem não quer nada, vi "Cartas de Amor, Virgínia Woolf e Vita Sackville-West".  Retirei-o para leitura pressurosa.

 Aprecio a escrita de Virgínia, o seu Diário não desmente a raridade da escritora. E gosto da pessoa - com ou sem Vita. Fiquei sabendo pelas cartas que Orlando é Vita chapadíssima. Chapadíssima, não; antes animada pelo amor de Virgínia. Não diria que foi um amor casto, mas Virgínia é recatada até na paixão; e não é necessário chegar a meio do livro para sabermos que Vita é explosiva e livre no verbo enquanto Virgínia é deliciosamente frágil e sucinta. Mas aprendemos também que o "queridíssima criatura" tem nela uma fundura de sentimento que sobrepõe a verve torrencial de Vita.    Além do mais, constitui factor de sedução ler uma mulher que viveu e criou obra tão à frente da época. Nem por isso bonita mulher. Mas, entre outros factores apelativos, saliento o facto de sempre ter trabalhado; e, por fidelidade a si mesma e às suas convicções, nos livros e outros escritos, deu voz a minorias e também à que, sendo adiposa maioria, era -  ainda é - tratada pela lei e pelo costume dos homens como qualquer minoria: a das mulheres. 

Virgínia escrevia apesar da constância na dor de cabeça e da tenacidade da loucura, talvez duas metades do mesmo problema. O tempo gasto a escrever era gosto a consumi-la, aproximava a doença. De resto, admiro também Mister Woolf, Leonard, companheiro de vida que a entendia como ninguém e com quem Virgínia partilhou o trabalho de edição na editora comum, a Hogarth Press. Comovem-me as tarefas normais na editora a que se dedicavam sem falhas e com prazos a cumprir, os passeios que davam pelos campos, Leonard a tentar distraí-la de si mesma como quem espanta corvos; a justeza das contas no dia a dia e que Virgínia controlava. Virgínia é em mim personagem de romance, só que existiu realmente, tinha um corpo, desejos, saturação disto e daquilo, amores, grandes desalentos e tristezas, a doença mental sempre entrevista e causa do suicídio. Sentindo o aproximar de nova crise e conhecendo que lhe seria fatal em termos de sofrimento e perda de lucidez, Virgínia decidiu parar de sofrer. Esta pessoa, não é a Virgínia Woolf  do meu imaginário. Mas também é. Afinal, mesmo lendo diários e cartas e romances, o que sabemos nós dos outros senão que existem? Quase tudo o resto é imaginário, nós mesmos, sempre nós mesmos.

(cont.)

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

A Verdadeira Artista...


Sobre Virgínia Woolf, do século XIX ao XXI, muito se escreveu.  Mas uma coisa é conceberes, outra, admirares a concepção alheia. Nenhuma das vertentes aliena a outra. Resta-te pensar, pacatamente e sem melodrama, o que por ti não foi ainda pensado.
Segundo parece, mister Woolf rearranjou os cadernos da mulher sobretudo para evidenciar o que nela mais batia, a escrita. Mostrar a arquitectura das obras desde a ideia inicial, desvelando a forma como se desenvolvia o processo criativo. É claro que é nítida a insegurança da escritora enquanto espera as críticas e as vendas. Por mais que arme em fleumática, essas duas a três primeiras semanas são de sufoco só amenizado pelo feedback favorável de amigos. Também é certo que o términus de qualquer livro é um sofrimento, muitas vezes já com outro livro na cabeça. Como se nota o prazer – de que ela mesma dá conta - em se esvair na escrita. Escrever consome-a, gasta-lhe a mente, suga-a. Mas é supremo gosto, realização. Porque foi uma vida dedicada às palavras, “os livros são os meus filhos”. Portanto, a fazer o que gostava e sabia. Dentro do métier.
 Virgínia é vontade indomável para fazer diferente e melhor em cada obra. Como escritora, não quer continuar ou manter o estilo. Cada livro é um  começo, uma experiência original. Não equilibra inseguranças, atira-se a escrever no seu estilo próprio e em concepções formais cada vez mais arrojadas.  Nada a detém, quer  na procura de novas formas, quer nos temas, quer na depuração dos escritos. De uma obra a outra, diversifica-se e, na mesma proporção, trabalha a qualidade de texto. Emenda, emenda, emenda. Reescreve até restar apenas o que queria dizer e como. São vulgares as notas sobre o número de páginas que escreveu e quantas supõe reduzir até à versão final. E não esqueçamos que era trabalho manual, só no final batido à máquina.
Portanto, se me dizem, ah, era muito insegura, aponto o arame - a escrita. E nunca a ele se furtou, antes viveu a tentar novas e arriscadas piruetas. Sofria quebras e dúvidas, estados  de lastimosa inutilidade, períodos refractários e breves em que descria do valor pessoal. Mas havia o L. a ordenar-lhe a vida natural, a passear com ela, a propiciar passeios e viagens, a ler e opinar sobre os manuscritos, a acompanhá-la nos sonhos: da editora, de casas e jardins e automóveis. O L. cuja ausência deixava Virgínia em solidão escura. Oh, sim, apoiava-se nele. Não se encostava.

domingo, 9 de setembro de 2018

Felizes...


O Diário de Virgínia Woolf soma  vários cadernos escritos entre afazeres, em intervalos de dez ou vinte minutos, não de todos os dias; as interrupções mais longas correspondem a frequentes períodos de doença.
Faltam-me umas míseras 100 folhas para o términus do livro e o mais impressionante é a forma metódica como a escritora sempre viveu. Virgínia nega a imagem de escriba distraída do mundo e absorvida pela criatividade. Ao contrário. Divide sem piedade os dias de trabalho: horas de jornalismo e sustento; e horas para criar o mundo de palavras que lhe conhecemos. Trabalho, trabalho, trabalho. Na editora caseira; na leitura  de obras, prazeirosa ou de obrigação profissional; na escrita dos seus romances. E Mister Woolf em todo o lugar, cruzamento de anjo e amoroso confidente. Ele entende, aplana, propicia. Está. E a própria Virgínia se abisma sozinha em casa. O seu descanso embevecido na vez em que afirma, “o L. tem a certeza que gosta mais de mim que eu dele”; e é como se o leitor lhe assista o deitar em cama própria, estender e abandonar o corpo ao descanso nocturno, aconchego  de que há-de erguer-se pelas duas ou três da manhã, espreitando as copas das árvores.
O livro deixa-nos, inequívoca, a ideia geral da consciência da doença que a habitava e da forma de a ir, sistematicamente, afastando, reduzida a períodos de prostração, febre e dor de cabeça. Sentimos essa ameaça ao longo do tempo, tecitura fragilizada, porosidade indevida. Mesmo se afirma numerosa: sou tão feliz, somos muito felizes, foi um dia de felicidade completa. A senhora Woolf era um espírito organizado que, talvez por influência médica e experiência pessoal, aprendeu a gerir as suas extremadas contradições. Alternava horas de trabalho escrito (romances e peças de jornalismo) com passeios longos pelos campos – sozinha ou com o seu anjo da guarda -; períodos de socializar (recebia muito e gostava de conversar com quem podia entendê-la) com dias de solidão quase absoluta; longas horas de conversa e exaustão com mudez criativa. Domava os contrários um com o outro. Não conseguia viver sem eles, cada um a alimentar o inverso. Gastou a vida nesse balanço difícil, garantia do tempo para o que mais gostava: escrever e ler. E creio que foi feliz. Não pelo estado. Pela constante aspiração.

domingo, 29 de julho de 2018

Diários


Ando imersa nos Diários de Virgínia Woolf graças a um daqueles cheques-prenda que dão tanto jeito e me rareiam. Capa cartonada e tudo,  que presentes assim  merecem fatiota a condizer.  A forma morosa de lê-los é que me atrasa. Por razões que não vêm ao caso e por ser livro de peso, leio deitada, a virar-me de um lado a outro a cada página. E breve me aborreço deste ofício de leitura tão dado ao movimento. Mas, ainda assim, vou lendo.
Não cheguei ainda a meio da obra. E se de início me arrependi da compra, logo, logo, me surpreendeu o gosto. Desagradou-me o esmiuçar dos dias, saber quando fazia pão de passas ou comprava um vestido; assistir às casas que deseja e visita, às que compra e porquê, ao tudo e nada que a perturba ou incentiva na escrita. No entanto, é de uma honestidade sem filtro. O Diário inicial apresentava-se manuscrito em cadernos - escrita corrida e de alma aberta - a que se propunha dar tratamento posterior (pretendia editá-los na velhice como memórias).  Prende-nos o traço contínuo da sinceridade. Não poucas vezes, a escritora volta atrás a corrigir, precisar ou sublinhar o que deveras sente e nem sempre é auto elogioso.  Reconhece ser muito vulnerável à crítica de qualquer espécie e verificamos que afunda em tristeza tanto por lhe arrasarem um artigo ou romance, como um chapéu ou vestido. 
No entanto, manifesta um invejável ímpeto de trabalho. Ao contrário de escribas actuais que mergulham na obra e nada mais lhes ocupa a mente, Virgínia mantinha intensa actividade intelectual, só quebrada por doença. A par dos trabalhos de edição – alimentava uma editora caseira com o marido – havia sempre obras que queria ler e lia; artigos que escrevia como jornalista e crítica; e o grego que estudava afincadamente até escrever, por volta das duzentas páginas do Diário (tem umas setecentas), que já consegue ler no grego original com a ajuda de uma cábula. A reconhecida necessidade de ocupação mental é factor memorável - são inúmeros e hei-de voltar ao Diário mais vezes e sob outros ângulos - que se adensa à medida que o livro faz caminho e se nota em meticulosa e repetida programação de actividades. O trabalho intelectual propicia-lhe uma base sólida para a escrita. Mas também os encontros e discussões com amigos e os passeios pelo campo ou pela cidade a revigoram.
Dona Virgínia, queira aceitar a minha humilde e eterna gratidão por não ter desistido dos seus cadernos. Mesmo.