Ando
imersa nos Diários de Virgínia Woolf graças a um daqueles cheques-prenda que dão tanto
jeito e me rareiam. Capa cartonada e tudo, que presentes assim merecem fatiota a condizer. A forma morosa de lê-los é que me atrasa. Por
razões que não vêm ao caso e por ser livro de peso, leio deitada, a virar-me de
um lado a outro a cada página. E breve me aborreço deste ofício de leitura tão
dado ao movimento. Mas, ainda assim, vou lendo.
Não
cheguei ainda a meio da obra. E se de início me arrependi da compra, logo,
logo, me surpreendeu o gosto. Desagradou-me o esmiuçar dos dias, saber quando
fazia pão de passas ou comprava um vestido; assistir às casas que deseja e
visita, às que compra e porquê, ao tudo e nada que a perturba ou incentiva na
escrita. No entanto, é de uma honestidade sem filtro. O Diário inicial apresentava-se manuscrito
em cadernos - escrita corrida e de alma aberta - a que se propunha dar tratamento
posterior (pretendia editá-los na velhice como memórias). Prende-nos o traço contínuo da sinceridade. Não
poucas vezes, a escritora volta atrás a corrigir, precisar ou sublinhar o que deveras sente
e nem sempre é auto elogioso. Reconhece ser muito
vulnerável à crítica de qualquer espécie e verificamos que afunda em tristeza tanto por
lhe arrasarem um artigo ou romance, como um chapéu ou vestido.
No entanto, manifesta um invejável ímpeto de trabalho. Ao contrário de escribas actuais que mergulham na obra e nada mais lhes ocupa a mente, Virgínia mantinha intensa actividade intelectual, só quebrada por doença. A par dos trabalhos de edição – alimentava uma editora caseira com o marido – havia sempre obras que queria ler e lia; artigos que escrevia como jornalista e crítica; e o grego que estudava afincadamente até escrever, por volta das duzentas páginas do Diário (tem umas setecentas), que já consegue ler no grego original com a ajuda de uma cábula. A reconhecida necessidade de ocupação mental é factor memorável - são inúmeros e hei-de voltar ao Diário mais vezes e sob outros ângulos - que se adensa à medida que o livro faz caminho e se nota em meticulosa e repetida programação de actividades. O trabalho intelectual propicia-lhe uma base sólida para a escrita. Mas também os encontros e discussões com amigos e os passeios pelo campo ou pela cidade a revigoram.
No entanto, manifesta um invejável ímpeto de trabalho. Ao contrário de escribas actuais que mergulham na obra e nada mais lhes ocupa a mente, Virgínia mantinha intensa actividade intelectual, só quebrada por doença. A par dos trabalhos de edição – alimentava uma editora caseira com o marido – havia sempre obras que queria ler e lia; artigos que escrevia como jornalista e crítica; e o grego que estudava afincadamente até escrever, por volta das duzentas páginas do Diário (tem umas setecentas), que já consegue ler no grego original com a ajuda de uma cábula. A reconhecida necessidade de ocupação mental é factor memorável - são inúmeros e hei-de voltar ao Diário mais vezes e sob outros ângulos - que se adensa à medida que o livro faz caminho e se nota em meticulosa e repetida programação de actividades. O trabalho intelectual propicia-lhe uma base sólida para a escrita. Mas também os encontros e discussões com amigos e os passeios pelo campo ou pela cidade a revigoram.
Dona
Virgínia, queira aceitar a minha humilde e eterna gratidão por não ter desistido dos seus cadernos. Mesmo.
Quem sabe um dia leio!bj
ResponderEliminarInfelizmente li-o há dezenas de décadas.
ResponderEliminarEra adolescente e não aguentei tantas páginas que AINDA não sabia apreciar.
Actualmente, dedicadíssimo à blogosfera e à Fotografia, não disponho tempo que então mesurava.
Fica o lamento, BEA.
Um beijo.
Não lamente, as suas fotos valem; e os posts , pelo menos a mim espairecem. Eu como não faço nada de jeito posso ler as 700 páginas:).
EliminarO Mac tem a mania de praticar a escrita "inteligente" : come palavras e usa outras que não soda minha horta.
ResponderEliminarSó revi já a borrada estava feita.
As minhas desculpas, sim ?
Mais uma "inteligência" :
ResponderEliminarEscrevi não são e ele entendeu que era SODA !
Ora batatas...
ah, ah, ah...está desculpadíssimo, até porque a minha mente iludiu e leu sem qualquer erro (só dei por eles nos comentários). O hábito ordena qb na nossa forma de ler.
Eliminar