Eram
as catorze horas quando me sentei no metro. Ninguém enfronhado no telemóvel, abundância de lugares vagos. A passageira
em frente repousava muito quieta, olhos fechados, saco transparente dependurado
no braço. Dentro dele, uma babilónia caseira. O que as coisas dizem de nós! Destaquei
dois ou três desenhos infantis feitos em folhas de caderno e dobrados a meio,
uma bolsa mais pequena, uma revista também dobrada, uma lista de compras, nariz
no plástico: ovos, esparguete, polpa de tomate, pão. Reparei na bata branca cuidadosamente
dobrada no assento ao lado. Seguia para um turno de trabalho, talvez numa
farmácia. E eis senão quando pareceu acordar. Decisiva. Lançou olhos ao saco e
retirou a bolsa. Correu o fecho e a sabedoria das mãos encontrou um espelhinho
redondo que abriu num clic. Procurou de novo. E surgiu com um tubo que
destapou. Apertou-o e logo uma lagarta
ocre foi aparada na palma da mão esquerda.
E enquanto o metro parava e arrancava, entre estações e nelas, procedeu
metódica à colocação do creme no rosto. Com a mestria de quem está em sua casa
frente ao espelho. Retirou uma porção maior e espalhou-a pelo conjunto do rosto
até esbater qualquer vestígio, depois molhou apenas o indicador e entre ele o
médio repartiu o creme pelas pálpebras; fez o mesmo com a zona do pescoço e boca
que entretanto entreabriu. Podem não acreditar, mas a uniformidade do creme
deu-lhe certo ar de pêssego, um ar que
imagino faça comichão nas palmas dos homens que soslaiam suspirosos, oh, descer-lhe os dedos pela face. Bom. Depois
acobreou ligeiramente as pálpebras superiores com um pincel que passava por uma
caixinha. Voltou a arrumar e retirou o rimel com que embasteceu e alongou
pestanas. Finalmente mirou a obra, corrigiu o sobrolho com um lápis preto,
passou um dedo na linha dos lábios a desfazer restos de base. E novo clic do
espelho logo fechado na bolsa que retomou o saco. E na estação seguinte, saiu,
bata no braço. Sóbria. Elegante e competente como ela só.
No
banco ao lado, o mundo natural. Uma teenager inconsciente da própria beleza, cachos
de caracolinhos africanos e olhos de azeitona preta, abria claridades só de
olhar.
Que prática... :)
ResponderEliminaruma coisa do outro mundo:). Do seu cansaço de mãe e dona de casa atarefada irrompeu uma profissional blasée. E sim, suponho que seja mesmo questão de prática e costume. O metro dá-me grandes lições de vida:)
ResponderEliminar