domingo, 1 de julho de 2018

Vida Feminina


Eram as catorze horas quando me sentei no metro. Ninguém enfronhado no  telemóvel, abundância de lugares vagos. A passageira em frente repousava muito quieta, olhos fechados, saco transparente dependurado no braço. Dentro dele, uma babilónia caseira. O que as coisas dizem de nós! Destaquei dois ou três desenhos infantis feitos em folhas de caderno e dobrados a meio, uma bolsa mais pequena, uma revista também dobrada, uma lista de compras, nariz no plástico: ovos, esparguete, polpa de tomate, pão. Reparei na bata branca cuidadosamente dobrada no assento ao lado. Seguia para um turno de trabalho, talvez numa farmácia. E eis senão quando pareceu acordar. Decisiva. Lançou olhos ao saco e retirou a bolsa. Correu o fecho e a sabedoria das mãos encontrou um espelhinho redondo que abriu num clic. Procurou de novo. E surgiu com um tubo que destapou.  Apertou-o e logo uma lagarta ocre  foi aparada na palma da mão esquerda. E enquanto o metro parava e arrancava, entre estações e nelas, procedeu metódica à colocação do creme no rosto. Com a mestria de quem está em sua casa frente ao espelho. Retirou uma porção maior e espalhou-a pelo conjunto do rosto até esbater qualquer vestígio, depois molhou apenas o indicador e entre ele o médio repartiu o creme pelas pálpebras; fez o mesmo com a zona do pescoço e boca que entretanto entreabriu. Podem não acreditar, mas a uniformidade do creme deu-lhe certo ar de pêssego, um ar  que imagino faça comichão nas palmas dos homens que soslaiam suspirosos, oh,  descer-lhe os dedos pela face. Bom. Depois acobreou ligeiramente as pálpebras superiores com um pincel que passava por uma caixinha. Voltou a arrumar e retirou o rimel com que embasteceu e alongou pestanas. Finalmente mirou a obra, corrigiu o sobrolho com um lápis preto, passou um dedo na linha dos lábios a desfazer restos de base. E novo clic do espelho logo fechado na bolsa que retomou o saco. E na estação seguinte, saiu, bata no braço. Sóbria. Elegante e competente como ela só.
No banco ao lado, o mundo natural. Uma teenager inconsciente da própria beleza, cachos de caracolinhos africanos e olhos de azeitona preta, abria claridades só de olhar.

2 comentários:

  1. uma coisa do outro mundo:). Do seu cansaço de mãe e dona de casa atarefada irrompeu uma profissional blasée. E sim, suponho que seja mesmo questão de prática e costume. O metro dá-me grandes lições de vida:)

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