Ontem fui à praia. Dia quente,
céu limpo. E a água imensa e
transparente, ondas frigoríficas a espreguiçarem-se pela areia num langor de
terno beija pés. Terno mas frio em demasia. Estava eu no cerimonial de reserva,
a arrepiar-me em bicos de pés e por completo nas beirinhas, carnes recuando até
ao possível, quando reparei, bem na minha frente, uma moreninha de franja
risonha, toda dentinhos de leite. Perguntei-lhe se não tinha frio e ela às
voltinhas dentro da água, a garantir prazenteira, a água não está fria.
Duvidosa competente, olhei o fundo dos olhos escuros e o fatinho de banho
minúsculo que a água ondulava de prazer e perguntei, tu não tens frio? E ela num ademane contente, a desvendar o mistério com a mesma certeza, não, eu sou uma
sereia. E eu finalmente a compreendê-la, oh, muito prazer, logo vi que
pertencias ao mar. Ela pouco importada com o estatuto, a convidar, anda, a água está boa. Mas
eu, e como é que te chamas, sereia? Anita. Sereia Anita, que nome bonito, comentei. E ela, e tu? E quando ouviu o meu nome assentou indiscutível, o teu também é bonito – e insistiu, anda, a água não está fria.
Justifiquei-me, é que eu não sou sereia. Mas aceitava-me a condição de simples
mortal, olha, queres que eu faça ballet para ti, queres ver um passo? Eu, faz
lá. E logo uma perninha graciosa no ar e os dois braços em harmonia de bailarina,
um atrás, outro à frente; um em baixo,
outro em cima. Desvaneci, Oh, que lindo. Ela a repetir bem na minha frente, faz
lá tu agora. E eu, paquiderme em movimentos leves que tanto admiro, contristei, eu não sei ballet. Ela repetiu
graciosa, é só assim, vês; faz lá, não custa nada. Eu a esconder que tinha vergonha, acho que
não sou capaz. E ela sem transição, olha podes fazer antes este, e deu uma
voltinha em bicos de pés, braços no ar. Eu estarrecida do momento, inebriada da
graça, a desejar ter aprendido ballet para ficarmos as duas a dar voltinhas
dentro da água de que até esqueci a friúra, acho que tenho de ir
para o ballet contigo, tu onde é que andas, para me ir inscrever. E ela, olha, é
ao pé da rua de Portugal, andas mais umas casas e vês logo a porta. E fez mais
uns passinhos em bicos de pés, a água pela cintura.
Depois
a mãe chamou e a sereia Anita saiu correndo. Três ou quatro anos de esplendor
inocente que a vida me pôs aos pés.
Nessa idade ser sereia é um maravilhamento!
ResponderEliminarAdorei a prosa e o momento!!!bj
Nessa idade ser sereia é um maravilhamento!
ResponderEliminarAdorei a prosa e o momento!!!bj
Obrigada:)
EliminarNa vida real, damos com personagens e histórias de encantar. :)
ResponderEliminarUm encanto natural, aquela garotinha.
ResponderEliminarEstas sereias nunca têm frio!
ResponderEliminar: )
e são mesmo mais lindas que as rabo de peixe
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