domingo, 22 de julho de 2018

A Pequena Sereia


Ontem fui à praia. Dia quente, céu  limpo. E a água imensa e transparente, ondas frigoríficas a espreguiçarem-se pela areia num langor de terno beija pés. Terno mas frio em demasia. Estava eu no cerimonial de reserva, a arrepiar-me em bicos de pés e por completo nas beirinhas, carnes recuando até ao possível, quando reparei, bem na minha frente, uma moreninha de franja risonha, toda dentinhos de leite. Perguntei-lhe se não tinha frio e ela às voltinhas dentro da água, a garantir prazenteira, a água não está fria. Duvidosa competente, olhei o fundo dos olhos escuros e o fatinho de banho minúsculo que a água ondulava de prazer e perguntei, tu não tens frio? E ela num ademane contente, a desvendar o mistério com a mesma certeza, não, eu sou uma sereia. E eu finalmente a compreendê-la, oh, muito prazer, logo vi que pertencias ao mar. Ela pouco importada com o estatuto, a convidar, anda, a água está boa. Mas eu, e como é que te chamas, sereia? Anita. Sereia Anita, que nome bonito, comentei. E ela, e tu? E quando ouviu o meu nome assentou indiscutível, o teu também é bonito – e insistiu, anda, a água não está fria. Justifiquei-me, é que eu não sou sereia. Mas aceitava-me a condição de simples mortal, olha, queres que eu faça ballet para ti, queres ver um passo? Eu, faz lá. E logo uma perninha graciosa no ar e os dois braços em harmonia de bailarina, um  atrás, outro à frente; um em baixo, outro em cima. Desvaneci, Oh, que lindo. Ela a repetir bem na minha frente, faz lá tu agora. E eu, paquiderme em movimentos leves que tanto admiro,  contristei, eu não sei ballet. Ela repetiu graciosa, é só assim, vês; faz lá, não custa nada. Eu a esconder que tinha vergonha, acho que não sou capaz. E ela sem transição, olha podes fazer antes este, e deu uma voltinha em bicos de pés, braços no ar. Eu estarrecida do momento, inebriada da graça, a desejar ter aprendido ballet para ficarmos as duas a dar voltinhas dentro da água de que até esqueci a friúra, acho que tenho de ir para o ballet contigo, tu onde é que andas, para me ir inscrever. E ela, olha, é ao pé da rua de Portugal, andas mais umas casas e vês logo a porta. E fez mais uns passinhos em bicos de pés, a água pela cintura.
Depois a mãe chamou e a sereia Anita saiu correndo. Três ou quatro anos de esplendor inocente que a vida me pôs aos pés.

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