sábado, 7 de julho de 2018

Eternidade do Efémero


Vi-o entrar com a criança ao colo.  Sem carrinho ou suporte.  Oh, rara atracção dos olhos. Sustinha-a junto ao coração, sentada sobre o braço esquerdo e amparava-lhe as costas com o direito. Teria menos de dois anos, talvez uns vinte meses de t-shirt  e bonequitos azuis no calção curtinho em chumaço de fralda, mãozinhas rechonchudas a descansarem nas espáduas do pai. O homem sentou-se e colocou o bebé no banco em frente e logo a urgência de um bracinho estendido o levou de novo ao colo, peito com peito. E vislumbrei a energia da chupeta, olhos e cabelo castanho em anéis largos. Não teria mais de ano e meio, o corpinho de pato  unido ao do pai, chupeta abaixo e acima, os dedos de uma mãozinha papuda a festejar o pescoço do homem, jeito de confiança prazeirosa que toda se embebia na mornidão da pele, enquanto a outra fazia e desfazia um caracol num vaivém de enrola-desenrola, sinal de bebé que quer dormir. O metro parava, prosseguia e voltava a parar. Julguei que adormecia.  Mas eis senão quando se endireita, tira a chupeta e desata a beijar o pai. Beijava-o sem solicitação e onde lhe chegava a boca, no bocadinho de peito que lhe espreitava da camisa, no queixo barbado, na lateral do maxilar inferior. Ele não riu, não a apertou mais. Ele, só uma centelha que lhe saía do olhar e fazia verdade o verso do poeta, “ e a vida pára também a ver”.

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