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domingo, 27 de outubro de 2019

Instantâneo


Havia um ventinho frio a correr manso, coisa de aragem nocturna que o sol bebé não afugentava.  No Metro, tudo diferente, o vagar nos gestos ensonados, os ténis e calções desportivos, a bicicleta, a mochila da natação, o sonho de, quem sabe, pedalar e correr à beira rio. Um homem de pé, encostado e descontraído, um livro e óculos de sol. Por certo vai ler em lugar que lhe apraz, talvez em companhia. Um cão à trela, contente e com dono a condizer; nos olhos de ambos, a alegria de uma corrida a par e estadia tranquila em café de eleição. São passageiros de antes de almoço de sábado. O apaziguado ar que perpassa nas catacumbas da cidade e certa moleza de gestos acordados para os pequenos prazeres de fim de semana enternecem quem vem de fora e assiste à glória matinal da cidade. Bem hajam.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

O Mundo aqui à Mão


As viagens de Metro instruem. Não de sabedoria livresca ou sequer quotidiana. O Metro é montra aberta ao olhar e tem manequins vivos,  sentem, choram, riem, amuam. Mas olhar os outros é prazer que saiu de moda, parvoíce de gente antiga. A maioria dos utentes segue virado para si: cusca o que diz que diz em qualquer rede social, isola-se num jogo digital que não tira nem põe; ouve ou lê as notícias que aparecem ao minuto e se tornaram indispensáveis não se sabe bem a que parte do viver, mas há quem precise de ruído; vê um filme em écran minúsculo sem que se atinja a razão de não poder esperar por melhor logística corporal e tecnológica. Ouvem-se conversas intermináveis com o anonimato; discussões acesas como se em presença e no recato de sua casa; coisas do arco da velha que não lembrariam ao diabo, mas são assunto. O pudor é cada vez menos visível.
E eis senão quando, estava eu a sentar-me para esperar o Metro que, ainda bem não, dá em atrasar, pois não é que veio sentar-se a meu lado um senhor entre os cinquenta e os sessenta, abre o saco, tira uns óculinhos que coloca com cuidado e zás, saca de um livro. Isso mesmo, um livro. E, incrível mas verdadeiro, pôs-se a ler. Fartei-me de olhar para a sua atenção. Alourado, alguma falta de cabelo, barba do dia já a crescer (foi à tardinha). E a ler. Um homem, a ler no metro, algo que não era o jornal. Um verdadeiro acontecimento. Pensei para mim que tinha pinta de estrangeiro, mas por mais que tentasse não alcancei o título do livro. Mas não é que no dia seguinte, também à tarde, dei com um espécime masculino, de certeza português, talvez trinta anos, moreno de olhos doces, gel no cabelo, alto, magro, mochila de trabalho às costas e um calhamaço na mão? Era um senhor livro. E vinha a ler de pé. Mais tarde, sentou-se e continuou a função. Saí e ficou lendo. 
Estes dois homens fizeram grande bem à minha fraca opinião sobre a leitura do género masculino – peço desculpa ao género. É que anda muito arruinada. Pode que a maioria dos homens leia livros às escondidas porque até julgo que se sentem diminuídos se os apanharem desprevenidos a ler. Será essa a convicção de alguns leitores recatados. Na sua óptica – e até na de meu pai -, um homem ser apanhado a ler um romance é sinal que a testosterona não tem a percentagem devida. Ora, ler romances é coisa de mulheres. E na verdade, elas não lerão muito, mas as que lêem não se reservam. Elas precisam desse mundo de palavras e são rainhas no mundo do irreal. Os preconceitos são forte retardador.

domingo, 1 de julho de 2018

Vida Feminina


Eram as catorze horas quando me sentei no metro. Ninguém enfronhado no  telemóvel, abundância de lugares vagos. A passageira em frente repousava muito quieta, olhos fechados, saco transparente dependurado no braço. Dentro dele, uma babilónia caseira. O que as coisas dizem de nós! Destaquei dois ou três desenhos infantis feitos em folhas de caderno e dobrados a meio, uma bolsa mais pequena, uma revista também dobrada, uma lista de compras, nariz no plástico: ovos, esparguete, polpa de tomate, pão. Reparei na bata branca cuidadosamente dobrada no assento ao lado. Seguia para um turno de trabalho, talvez numa farmácia. E eis senão quando pareceu acordar. Decisiva. Lançou olhos ao saco e retirou a bolsa. Correu o fecho e a sabedoria das mãos encontrou um espelhinho redondo que abriu num clic. Procurou de novo. E surgiu com um tubo que destapou.  Apertou-o e logo uma lagarta ocre  foi aparada na palma da mão esquerda. E enquanto o metro parava e arrancava, entre estações e nelas, procedeu metódica à colocação do creme no rosto. Com a mestria de quem está em sua casa frente ao espelho. Retirou uma porção maior e espalhou-a pelo conjunto do rosto até esbater qualquer vestígio, depois molhou apenas o indicador e entre ele o médio repartiu o creme pelas pálpebras; fez o mesmo com a zona do pescoço e boca que entretanto entreabriu. Podem não acreditar, mas a uniformidade do creme deu-lhe certo ar de pêssego, um ar  que imagino faça comichão nas palmas dos homens que soslaiam suspirosos, oh,  descer-lhe os dedos pela face. Bom. Depois acobreou ligeiramente as pálpebras superiores com um pincel que passava por uma caixinha. Voltou a arrumar e retirou o rimel com que embasteceu e alongou pestanas. Finalmente mirou a obra, corrigiu o sobrolho com um lápis preto, passou um dedo na linha dos lábios a desfazer restos de base. E novo clic do espelho logo fechado na bolsa que retomou o saco. E na estação seguinte, saiu, bata no braço. Sóbria. Elegante e competente como ela só.
No banco ao lado, o mundo natural. Uma teenager inconsciente da própria beleza, cachos de caracolinhos africanos e olhos de azeitona preta, abria claridades só de olhar.