Durante
o Verão, à vez e por calendário, todos ajudávamos na horta. A horta existia
separada do pátio de casa por um portão com cancela manual e do resto do mundo
por valado alto mas não intransponível e por certo menos empinado que a
ribanceira de separação entre a rua da Venezuela e o campo de pinheiros e tojo.
Ora a suma preocupação de Octávio concentrava-se na preservação das cenouras, ervilhas e outros legumes,
atractivos ímanes para a fome dos ajudantes. O Paz de Alma salvaguardava o
nosso alimento quente, parca refeição para gente que cresce. Impedia-nos na
courela o que nos servia de aconchego no prato. E nós de uns a outros,
encrespados e a invectivá-lo sem pejo, unhas de fome, cegueta, nem uma cenoura crua
deixa comer.
O
plano de Esparguete assentava na minha habilidade gatil a subir muros e passava
por desoprimir a apertada vigilância de Octávio. Desencontrámos horas de estudo
e trabalhos da horta. E nem um soslaio aos legumes. A ideia era ele sair da sala de estudo sob
qualquer pretexto e eu escapulir muro acima. Na minha ausência, ele substituía-me.
Nas férias de verão a sala de estudo era usada como sala de leitura e recreio
pouco vigiado, desculpa para Maria ter a certeza que não andávamos à torrina.
Após o almoço e durante duas horas podíamos ler, conversar ou dormitar, cabeça
apoiada nos braços. Altura e magreza eram semelhantes, e conhecíamos a
dificuldade de Octávio para identificar alguém a mais de dois metros de
distância. Treinámos durante horas um assobio em canto de pássaro que, à vista
da minha inépcia, Esparguete resolveu por conta própria: saía da sala de estudo
com uma desculpa e emitia o sinal mal ganhasse a rua. Se eu caminhasse para a
barreira, o caminho estava livre e ele corria até ao meu lugar. Se
não...escondia-se e esperava.
Cheios
de cautelas, experimentámos a troca e a escalada do muro por duas vezes. Nessas
experiências avancei medroso mas também ufano por dispor da minha veia de símio
exercitada em lianas e barreiras, sentia orgulho por subir com desenfado uma
parede que outros não ousavam. O contacto visual com o mundo exterior de valas
e valados separando pequenas courelas, não me desviou a atenção para as ajudas
de braços e pernas no terreno: anotei os arbustos mais resistentes e as saliências
onde amparar os pés.